OPINIÃO
16/07/2014 13:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A música e a Grande Guerra

Na foto acima, Paul Wittgenstein, que perdera o braço direito em um combate na frente russa, tocando o Concerto em sol menor para a mão esquerda, de Ravel.

No próximo dia 4 de agosto, o mundo celebra uma efeméride terrivel: os 100 anos da Grande Guerra, ou da Primeira Guerra Mundial. Trata-se de assunto merecedor da mais profunda reflexão. Nada menos do que 11 milhões de vítimas, um redesenho da Europa, o fim do poder da aristocracia, ainda remanescente, do Império dos Habsburgos, na Áustria e, claro, um estopim acesso para a Segunda Guerra, que viria 22 anos depois para virar o planeta de cabeça para baixo.

Paul Wittgenstein

Em termos musicais recomendo três peças bastante emblemáticas. Uma delas composta por Maurice Ravel, entre 1929 e 1930, como um desafio para o pianista austríaco Paul Wittgenstein (foto acima), que perdera o braço direito em um combate na frente russa, o "Concerto em sol menor para a mão esquerda". As outras duas peças foram compostas por Heitor Villa Lobos, a Sinfonia 3, chamada "A Guerra" e a Sinfonia 4, chamada "A Vitória".

Maurice Ravel

Na verdade, eram três sinfonias sobre o tema, encomendadas para serem executadas durante a visita do rei Alberto da Bélgica ao Rio de Janeiro em 1920. Todas elas baseadas em textos do historiador Luiz d'Escragnole Doria. A Quinta Sinfonia, entretanto, nunca foi tocada e sua partitura, se é que foi escrita, está perdida.

Villa-Lobos

Convém esclarecer que o Brasil, assim como os Estados Unidos da América, ficaram na periferia da guerra. Declararam-se neutros. Com a saída da Rússia do conflito e a concentração das tropas alemãs e austríacas nos frontes franceses-belgas e italiano, o presidente americano Woodrow Wilson mudou de postura e mandou uma força expedicionária para a Europa. O presidente brasileiro Venceslau Brás, do alto da sua absoluta mediocridade, sob forte pressão da opinião pública e sob o argumento de que navios mercantes brasileiros haviam sido afundados por submarinos alemães, também declarou guerra à Alemanha e a Áustria. Felizmente não mandou nenhum soldado para o Velho Continente.

Quando a Grande Guerra eclodiu na Europa, o universo musical experimentava um momento exuberante. Igor Stravinsky havia chocado a velha Paris com sua Sagração da Primavera; Claude Debussy e Erik Satie lançavam bem fundo o impressionismo musical. Românticos tardios como Richard Strauss e Jean Sibelius ainda barbarizavam.

O Concerto para a Mão Esquerda de Ravel é uma obra escrita mais de uma década depois da guerra. É misteriosa, cheia de acordes graves, com um exercício de orquestração impressionante. Chama a atenção de cara o solo do contra-fagote e a absoluta fascinação de Ravel pelo jazz, que ele havia descoberto em suas incursões pelo Harlem, de Nova York.

A Sinfonia 3 de Villa Lobos importa do impressionismo a escala hexatônica que tanto fascinava Debussy. De novo ele iria beber do mestre francês na Sinfonia 4, mais precisamente no Scherzo, em que sem dúvida se vê muito também de Borodin e de Scriabin.

Outro ponto marcante das duas sinfonias de Villa é a orquestração feérica, onde ele abusa do clarone (clarinete baixo), contrafagote e do sax baixo. Isso para não falar das cornetas, requintas. E por aí vamos.

As sinfonias de Villa foram gravadas recentemente pela OSESP. Mas, há outras gravações disponíveis. O concerto de Ravel também é frequente, normalmente como complemento do genial concerto em Sol Maior.

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