OPINIÃO
19/01/2016 14:15 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Os contos heróicos de Facebook existem de verdade?

Master OSM 2011/Flickr

Tenho observado com um certo desconforto alguns relatos de Facebook e concluo que, lá, as pessoas vivem dentro de uma tirinha do Armandinho. Ou pelo menos querem viver em uma.

Lá, pipocam lições de empoderamento - a palavra da moda - que acontecem no meio da rua, curiosos casos de reaças-crentes-cis-héteros humilhados no caixa do supermercado e testemunhos de crianças incríveis que, sob o manto da "inocência", questionam o machismo e os tabus da sociedade com muito mais consciência que um adulto instruído.

Não estou dizendo que essas coisas não acontecem. Acontecem, mas com muito menos heroísmo do que é contado nas redes sociais. Como gay, já fui alvo de comentários homofóbicos na rua, mas, ao contrário das Fanfics do Facebook, eu não saí "empoderado" e mandando "colar de beijos" para os imbecis.

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Foto: Reprodução/Facebook

Sou adepto do Majuísmo, corrente filosófica que consiste basicamente em deixar essa gente falando sozinha. "Os preconceituosos ladram, mas a Majuzinha passa", diria a guru Maria Júlia Coutinho.

Não sou, de tudo, um covarde. Houve situações em que eu não me contive, como quando na fila de um cinema a mulher disse para a filha não olhar para mim e para o meu namorado, na época, porque éramos "aberrações".

A ela, com a maior paciência do mundo, questionei o tipo de educação que ela estava dando para a filha, se ela achava aquilo correto. No Facebook eu poderia dizer que a mulher se sentiu humilhada, as pessoas ao redor riram, ela suou frio - as pessoas adoram dizer isso - e retirou-se do local.

Mas não, ela apenas mandou eu me foder e me chamou de "bicha do inferno".

Houve a vez em que uma senhora evangélica me cutucou no ônibus e começou a pregar. Com um mau humor do cão, eu perguntei se bichas a abordavam no ônibus para falar sobre a balada bapho da semana passada ou se ela teria 15 minutos para ouvir a palavra da Lady Gaga.

No Facebook, eu poderia dizer que imediatamente começamos a dançar Poker Face e ela havia se tornado uma LGBT Friendly, mas ela só me repreendeu "em nome do Senhor" e desceu no seu ponto, encerrando ali mesmo o assunto.

Em ambos os casos, tratavam-se de mulheres. Me senti mal por peitar senhoras, mas, francamente, um homem de dois metros de altura teria me batido na fila do cinema ou no corredor do ônibus por eu ter sido tão petulante.

Na vida real, as pessoas não saem de casa vestidas de super-heroínas dispostas a combater as injustiças do mundo.

Essas histórias ganham o Facebook e também a imprensa. Sem nenhum medo de estarem cometendo um erro, portais de notícia reproduziram a história do homem que teve a carteira roubada e em seguida devolvida pelo próprio ladrão que, em um bilhete emocionado, dizia-se arrependido e só queria comprar champagne para a mãe.

Nenhuma nota trazia uma apuração diferente porque, certamente, não houve qualquer apuração. O dono recebeu a carteira em seu escritório - sabe-se lá como - e pôs-se a chorar, da mesma forma como, em outra ocasião, caiu em prantos quando ofereceu um beijo, uma pizza e um abraço a uma menina assaltante no Rio.

Sem querer entrar no mérito da veracidade do caso, será possível que ninguém tenha se perguntando se aquilo, de fato, procede?

Será que ninguém questionou por que diabos alguém se enfia no réveillon de Copacabana com mil reais na carteira?

Como ele conseguiu cancelar vários cartões por telefone em apenas dez minutos, sendo que tal feito não é possível nem em dias normais, quanto mais na virada do ano?

Será que deu tempo para tanta conversa com a menina assaltante no cruzamento das ruas Barão da Torre com Joana Angélica? Jamais saberemos. Nunca questionamos.

Por sorte, há pessoas que se propõem a desmentir boatos da internet quando o bom senso faz-se ausente.

Nos últimos dias, o Ministério da Educação (MEC) tem se desdobrado para esclarecer uma informação que circula entre "pessoas de bem", que denuncia um livro de posições sexuais que estaria sendo distribuído a crianças da rede pública de ensino.

Um boato requentado, que já foi desmentido em 2013, mas que voltou à rede em um vídeo recente do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) denunciando tal "baixaria".

LIVROS do PT ensinam SEXO para CRIANCINHAS nas ESCOLAS:- Para o PT brevemente a PEDOFILIA deixará de ser CRIME;- O...

Publicado por Jair Messias Bolsonaro em Domingo, 10 de janeiro de 2016


Se já é feio uma pessoa comum compartilhando um hoax, a situação torna-se um vexame quando parte de um político, que, apesar de ser um sujeito completamente amoral, possui um número assustador de apoiadores que enxergam em sua figura um defensor da verdade e da família.

Para o bem ou para o mal, relatos de Facebook servem, no fim das contas, para trazer esperança para uma militância com pouca autoestima. É para a gente, ao final da leitura, encher o peito de orgulho e ter a sensação de que esses jovens, reunidos na internet, vão mudar o mundo, tal qual numa tira do Armandinho.

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