OPINIÃO
12/02/2015 10:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Esperando que um robô faça seu trabalho? Pense de novo.

Ao tomar conta de tarefas complicadas ou que demandam tempo, ou ao simplesmente tornar essas tarefas menos onerosas, o software diminui as chances de que nos envolvamos em atividades que testem nossas habilidades e nos deem um senso de realização e satisfação. Muitas vezes, a automação nos livra daquilo que nos faz nos sentir livres.

Maximilian Stock Ltd. via Getty Images

A literatura da psicologia está cheia de termos pungentes, mas o mais pungente de todos pode ser este: desejo equivocado. Cunhada pelos psicólogos sociais Daniel Gilbert e Timothy Wilson, a expressão descreve a tendência muito humana de desejar coisas que nos fazem infelizes e evitar as coisas que nos satisfazem. Não somos muitos bons em prever como nossas escolhas vão afetar nosso comportamento e nossos sentimentos. E então, repetidas vezes, saímos em busca da frustração.

Essa aflição do desejo equivocado pode parecer distante do mundo de hoje, com seus smartphones, robôs e inteligência artificial. Mas ela explica muito sobre nossa pressa em automatizar nossas vidas - para entregar a computadores atividades que costumávamos fazer nós mesmos. Em nossa vida pessoal, usamos software para nos guiar de um lugar a outro, para recomendar que filme assistir ou com quem sair. No trabalho, entregamos a robôs e algoritmos até mesmo habilidades sofisticadas, tornando nossos próprios trabalhos mais rotineiros e menos desafiadores. Esperamos que essa automatização vá nos permitir realizar atividades mais significativas e satisfatórias - mas descobrimos que o efeito é oposto.

Pouco antes de escrever o celebrado Flow: The Psychology of Optima Experience l (fluxo: a psicologia da experiência ótima, em tradução livre), o professor de psicologia Mihaly Csikszentmihaly conduziu um estudo que revelou como os desejos equivocados distorcem nosso senso de valor do trabalho. Trabalhando com sua colega Judith LeFevre, ele recrutou cem funcionários de empresas da região de Chicago. Ao longo de uma semana, os trabalhadores escreviam relatórios detalhados sobre suas vidas, documentando as atividades em que se envolviam, os talentos que punham em prática e as emoções que sentiam.

"Na verdade ficamos mais felizes quando estamos absortos em uma tarefa difícil, que nos desafia não só a colocar em prática nossos talentos, mas a levá-los além."

Os pesquisadores ficaram surpresos com o que descobriram. Quando estavam trabalhando, as pessoas eram mais felizes e se sentiam mais satisfeitas do que nas horas de lazer. No tempo livre, elas tendiam a se sentir entediadas e ansiosas. Ainda assim, elas não gostavam de ir para o trabalho. Quando estavam trabalhando, expressavam um forte desejo de estar de folga. E, quando estavam de folga, a última coisa que queriam era voltar a trabalhar.

"Nem é preciso dizer", concluíram Csikszentmihaly e Le Fevre, "que tal cegueira em relação ao real estado das coisas provavelmente tem consequências infelizes tanto para o bem estar do indivíduo quanto para a saúde da sociedade". Quando as pessoas agem com base nessas perspectivas distorcidas, tentam "fazer as atividades que trazem as experiências menos positivas e evitam as atividades que são fonte das sensações mais intensas e positivas". Não é exatamente a receita de uma vida boa.

Na verdade ficamos mais felizes quando estamos absortos em uma tarefa difícil, que nos desafia não só a colocar em prática nossos talentos, mas a levá-los além. Estamos tão imersos no "fluxo" do trabalho, para usar o termo de Csikszentmihaly, que nos desligamos das distrações e transcendemos as ansiedades da vida cotidiana. Nossa atenção indócil se fixa no que estamos fazendo. "Toda ação, movimento e pensamento segue inevitavelmente o anterior", explica Csikszentmihaly "Todo o seu ser está envolvido, e você usa suas habilidades ao máximo."

"Muitas vezes a automação nos livra daquilo que nos faz nos sentir livres."

Tais estados de absorção profunda podem ser alcançados por vários tipos de esforços, de cantar num coral a andar de moto numa trilha. Você não precisa ganhar salário para desfrutar desse fluxo.

E ainda assim, dada a oportunidade, queremos ansiosamente nos desobrigar dos rigores do trabalhos. Nos sentenciamos ao ócio. Livres do desafio, nossa disciplina esmorece e nossa mente viaja. Ficamos preguiçosos. E então ficamos entediados e mal-humorados. Sem nenhum foco externo, nossa atenção se volta para dentro, e nos vemos trancados no que Ralph Waldo Emerson chamou da prisão da autoconsciência.

Nosso viés em favor do que é fácil nos deixa particularmente suscetíveis às seduções da automação. Ao oferecer uma redução da nossa carga de trabalho e ao prometer mais conforto e conveniência para nossas vidas, os computadores apelam para nosso desejo ávido mas equivocado de libertação daquilo que entendemos como labuta. No trabalho, o foco da automação em velocidade e eficiência - um foco determinado pelo interesse no lucro, não no bem estar das pessoas - muitas vezes tem o efeito de retirar a complexidade dos empregos, diminuindo os desafios que eles representam e o envolvimento que eles promovem.

"As cartas estão marcadas, econômica e emocionalmente, a favor da automação."

A automação pode estreitar as responsabilidades das pessoas a ponto de que seus empregos consistam largamente de monitorar uma tela de computador ou de incluir dados em modelos. Até mesmo médicos, banqueiros de investimento e outros profissionais altamente capacitados estão vendo seu trabalho ser circunscrito por sistemas de inteligência artificial que transformam a tomada de decisões em uma rotina de processamento de dados.

Os aplicativos e outros programas que usamos em nossas vidas pessoas têm efeitos similares. Ao tomar conta de tarefas complicadas ou que demandam tempo, ou ao simplesmente tornar essas tarefas menos onerosas, o software diminui as chances de que nos envolvamos em atividades que testem nossas habilidades e nos deem um senso de realização e satisfação. Muitas vezes, a automação nos livra daquilo que nos faz nos sentir livres.

A automação não é má. Tecnologias que substituem o trabalho humano vêm progredindo há séculos, e nossas circunstâncias no geral vêm melhorando como resultado. Empregada sabiamente, a automação pode nos livrar dos trabalhos árduos e nos incentivar a buscar atividades mais recompensadoras. A questão é que não sabemos pensar racionalmente sobre a automação, tampouco entender suas implicações. Não sabemos quando dizer "chega" ou até mesmo "espere um minuto". As cartas estão marcadas, econômica e emocionalmente, a favor da automação.

"Como você mede o custo da erosão do esforço e do envolvimento, ou a decadência da agência e da autonomia, ou a deterioração sutil das habilidades?"

É difícil calcular os custos. Como você mede o custo da erosão do esforço e do envolvimento, ou a decadência da agência e da autonomia, ou a deterioração sutil das habilidades? Não é possível. São os tipos de coisas obscuras e intangíveis que raramente apreciamos - até que elas tenham desaparecido, e mesmo assim temos dificuldade em expressar as perdas em termos concretos. Mas as perdas são reais e, conforme se acumulam, começam a drenar nossas vidas não somente de esforço, mas também de sentido.

A automação não é um evento, é um processo. Com o avanço da tecnologia, somos continuamente chamados a renegociar a divisão do trabalho entre nós e as máquinas. Como sociedade e como indivíduos, podemos tomar essas decisões de forma sábia e atenta às fontes do progresso humano - ou podemos tomá-las apressadamente, pensando apenas no que os computadores podem fazer por nós. O perigo em escolher esta última alternativa é que podemos acabar criando um mundo no qual não queiramos viver.

Trecho adaptado do novo livro de Carr, The Glass Cage: Automation and Us (a jaula de vidro: a automação e nós, em tradução livre)

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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