OPINIÃO
03/12/2015 20:09 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

A jornada de um gay negro em busca de aceitação

Cresci em uma sociedade profundamente enraizada na oposição binária ocidental. Esse termo que soa complicado compõe nossa linguagem com opostos: certo ou errado, santo ou pecaminoso, masculino ou feminino. No entanto, mais importante, indica uma exclusividade mútua: um não pode ser o outro.

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Sou homossexual. Levei muito tempo para admitir isso para mim mesmo, mas bem menos do que para proclamar isso do topo da montanha proverbial. Veja, cresci no Caribe... bem, na verdade, a Guiana é na América do Sul, mas, como é o único país de língua inglesa nesse continente, é culturalmente conectado com o Caribe.

No entanto, diferenças de localização e culturais à parte, eu, como você, cresci em uma sociedade profundamente enraizada na oposição binária ocidental.

Esse termo que soa complicado compõe nossa linguagem com opostos: certo ou errado, santo ou pecaminoso, masculino ou feminino. No entanto, mais importante, indica uma exclusividade mútua: um não pode ser o outro.

Esse sistema é essencial para a comunicação -- desligue em vez de ligue... leve-me para cima, não para baixo. No entanto, problemas podem surgir quando a vida e a humanidade são vistas através dessas lentes contrastantes.

Blockbusters de Hollywood exploram essas polaridades para nosso entretenimento, mas sabemos intuitivamente que elas não refletem o espectro completo de nossas vidas. Nossa realidade nunca é preta e branca e, se fosse, a vida seria para sempre simples, mas sabemos que a vida é frequentemente complicada.

Há uma realidade que reside além dessas dicotomias percebidas, e sempre houve indivíduos nascidos fora dessas paredes, mas grande parte de nossa sociedade ainda oferece o silêncio ou a seleção de palavrões para lidar conosco... e quem quer ser um palavrão?

Neste mundo no qual nasci, chorando com certeza, todos os bebês choram. Naturalmente, adotei as crenças de minha comunidade, mesmo quando todas as peças não se encaixavam. "Crianças, obedeçam a seus pais...", diz a Bíblia, e eu obedeci -- era um bom menino, mas meu bom comportamento não me salvou.

Não me lembro a primeira vez que alguém me insultou com um palavrão, mas me lembro bem como o conhecimento do significado me abalou profundamente. A palavra tinha como objetivo me lançar no mundo infernal "deles" -- o oposto perpétuo de "nosso".

Uma vez que aquela linha fosse traçada, as tropas poderiam ser chamadas para destruir o inimigo recém-identificado -- o único problema era que aquele inimigo era eu! Claro que naquela idade não conseguia articular isso, mas entendi intuitivamente que estava em perigo.

O ataque começou com adolescentes vez ou outra dizendo coisas feias para mim na rua e, por sorte, nunca passou disso (todos sabemos o que pode acontecer quando a feiura ganha maiores proporções). Meu corpo físico permaneceu intacto, mas meu corpo espiritual e emocional não saiu ileso.

Todas aquelas palavrinhas sujas se uniram e geraram o efeito desejado em mim: vergonha. E plantaram em mim, assim como em muitos outros, o desejo de me esconder. Acho que a única coisa que consegui foi enterrar minha cabeça na areia e perder anos preciosos.

Só quando estava estudando economia na Universidade de Nova York, que eu, com a ajuda de sessões de aconselhamento gratuitas, comecei a desenterrar a cabeça da areia.

Lembro-me de um grupo excepcionalmente útil que nos convidou a compartilhar nossas histórias de vida -- particularmente os detalhes que normalmente escondemos dos outros. Aquela foi a primeira vez que expressei publicamente minha sexualidade.

A experiência abriu a porta e percebi que eu não precisava ser um palavrão. Podia me definir através de minha própria pessoa, usando quaisquer palavras que me fossem mais adequadas. Aquilo deu início, há 15 anos, à minha busca por palavras encorajadoras, de apoio, palavras de aceitação e, sim, palavras de amor.

A música desempenhou um papel importante durante aquela época. Escrever transformou grande parte da minha dor e confusão em letras de música e melodias. Este é o poder da arte: transmutar nossa experiência humana em beleza... a beleza é verdade, e a verdade liberta.

O dilema -- agora tenho consciência -- de ver a vida através dessas lentes contrastantes é nossa tendência de promover um lado para a bondade e o outro para a maldade, em vez de percebermos que ambos os lados, como o yin e o yang, definem-se mutuamente. Mais importante, essa tendência não enxerga uma verdade fundamental -- os opostos coexistem em todos nós.

Todos fazemos "certo" e "errado" de vez em quando... todos temos momentos de santidade e, depois, bem... você sabe... , e todos temos elementos masculinos e femininos perambulando dentro de nós.

Se percebêssemos isso, não tentaríamos jogar aqueles que enxergamos como diferentes na escuridão, porque reconheceríamos que a diferença é apenas uma ilusão.

Manchetes inadvertidamente nos lembram dessa verdade ao revelar feitos privados de certas figuras públicas -- como muitas vezes o preconceito e a intolerância que impomos aos outros nos estrangulam no final.

Felizmente, o oposto também é verdadeiro -- a aceitação que oferecemos aos outros é a aceitação que se derrama sobre nós, e a compaixão que damos aos outros é a compaixão que retorna para nós com amor. Nosso mundo é um brilhante espetáculo de extremos contrastes ligados por uma continuidade de sutil variedade.

Escolho ver isso e aceito isso e, como muitos outros, escolho acreditar que sou, fui, e sempre serei, uma bela expressão do Divino.

É com esta convicção profundamente enraizada em minha alma que proclamo do topo da montanha proverbial -- Sou gay.

Proclamo isso por todos os que não puderam proclamar. Proclamo por todos os que ainda não podem proclamar. Proclamo porque faz parte de quem sou e, assim como ser homem e negro, é algo para comemorar e ter orgulho.

As comemorações, por sua própria natureza, envolvem a abertura de portas e as boas-vindas para outros. Comemorações são um momento de felicidade porque nos lembram que meu amor é seu amor.

Bob Marley disse a verdade quando cantou One Love... One heart... Lets get together and feel alright... (Um Amor.. Um coração.. Vamos ficar juntos e nos sentir bem...).

Ao longo da história, os opositores proliferaram. Disseram que o mundo era plano, que Deus sancionou a escravidão de negros e negras, disseram que a ciência era obra do diabo. Soa familiar? Aqueles que têm ouvidos para ouvir...

Ouça o mais recente album de Nhojj, Made To Love Him: Celebrating Love

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.