OPINIÃO
14/04/2014 12:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

O futuro do jornalismo e o milanesa do Alex Atala

Um milanesinha com salada de batatas tem em qualquer lugar, qualquer moquifo. Mas o guloso eventual vai no seguro, bem feito, bife-de-grife nos Jardins. Da mesma forma, na hora de achar informação importante ou leituras prazerosas, leitores partem rápido para uma fonte de confiança.

Reprodução/Foodspoting

E lá estava eu, tranquilo, comendo meu filé à milanesa de duzentos reais no Dalva e Dito, quando me liga o Anderáos do Brasil Post. "New, queria publicar alguma coisa discutindo o futuro do jornalismo. Pensei em você, que tal?" - Eu não queria. Preferia terminar meu almoço, incrível e quase despretensioso no restaurante "popular" do mais badalado chef do Brasil. Para quem nunca foi lá, o Dalva e Dito é a mais adorável mentira da gastronomia paulistana: um restaurante sem nenhum toque daquele improviso popular que faz a coisa ser de verdade, mas ainda assim lindo, brasileiríssimo, com cara de quase-pra-qualquer-um. Um lugar onde cozinheiros tatuados, em uma cozinha de vidro que parece um laboratório, produzem comidinhas de tia-avó, dignas dos melhores diminutivos do Vinícius de Moraes.

Olhei então para meu prato e percebi a grande coincidência: o bife à milanesa do Atala é o futuro do jornalismo. Para quem já viu o comercial do open journalism do The Guardian (abaixo), não é novidade que o futuro do setor seja uma mistura do que escreve o repórter com o que diz de volta sua própria audiência. Ou o caminho inverso. Mas disso eu já sabia.

Lá por 2001, entrevistei um investidor internacional que gostava de comprar jornais. Quando perguntei por que colocar dinheiro em empresas "obsoletas", ele me explicou. Na hora que computadores diminuíssem o suficiente para caber nas mãos, que tivessem teclados e câmeras e estivessem online, quando essas maquininhas estivessem nas mãos de todo mundo, cada leitor se tornaria um repórter. E nesse mundo de notícias instantâneas e superficiais, marcas noticiosas que se solidificassem como donas de bom senso para separar o bom do ruim, e habilidade de contar suas histórias bem contadas, sairiam vencedoras. O paradoxo do jornalismo de massa, disse ele. Os bons, enfim, sobreviverão.

Mais de uma década depois, o smartphone chegou. E trouxe com ele o Twitter. Entraram juntos, gritando sem dó, no meio da ressaca que ainda derrubava as redações, que tentavam se adaptar à invasão de blogueiros e portais de notícias. E na cola veio o Wikileaks, que trouxe os maiores furos de reportagem desse milênio, sem nunca terem feito uma única reportagem. Enquanto isso, o The Guardian e o The New York Times aprenderam a ouvir os gritos da massa, determinar o que importa e escrever de volta para quem gosta de ler tudo aquilo, só que bem escrito.

É, o sujeito estava certo. Ele só não previu o Huffington Post da minha amiga Arianna, para quem o Anderáos trabalha. Mas aí era pedir demais.

(Pausa para mais uma garfada... continuemos)

O que nos traz de volta ao Alex Atala. Assim como acontece com as notícias, um milanesinha com salada de batatas tem em qualquer lugar, qualquer moquifo. Mas o guloso eventual, sem o guia do submundo gastronômico de São Paulo, jamais saberia distinguir pelo lado de fora qual é bom, qual é ruim. E não se brinca com maionese, dizia minha mãe. Então melhor ir no seguro, bem feito, bife-de-grife aqui nos Jardins. Da mesma forma, na hora de achar informação importante ou leituras prazerosas, leitores partem rápido para uma fonte de confiança. A diferença é que hoje, enquanto o cliente de restaurante paga a própria conta, a do jornalismo quem banca são os anunciantes.

Esses, segundo eles próprios, gostam de comprar audiência. Mas é mentira. Gostam mesmo é de prestígio. Senão já tinham tirado muito mais dinheiro da TV e posto no Google. Mas divago... o fato é que o marqueteiro que paga as redações dá pinta de que curte o varejão, mas investe de verdade em ser visto entre gente importante. Não estranho, portanto, quando vejo tantos deles aqui ao meu redor. Comendo bife à milanesa e pudim de leite (épico, por sinal), com suas camisas Lacoste.