OPINIÃO
28/04/2014 16:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Flambemos os sutiãs

Um dos mais importantes campos de batalha pela igualdade feminina no mercado de trabalho é, pasmem, a cozinha. Se em casa as novas gerações já misturaram tudo (de fato, tenho mais amigos homens que cozinham do que mulheres), nos fogões dos restaurantes mais importantes do país, a coisa anda mais devagar. Mas eu sou fã da mulherada e, sempre que posso, tento prestigiar os restaurantes comandados pelas meninas.

Por isso mesmo, me espantou a mensagem recebida semana passada da chef @RenataVanzetto, dona do Marakuthai em Ilhabela e agora do mimoso Ema, em São Paulo. Dizia ela: "por que toda vez que se fala de uma mulher talentosa alguém tem que falar da aparência dela também? Não está na hora de acabar com isso?"

Explico. Eu falava então do Maní, da chef Helena Rizzo. Uma mulher tão linda quanto talentosa. E insisto: não escondo meu queixo caído quando ela passa senão por educação. Mas ela é deslumbrante e não vejo nada errado nisso.

De fato, lembro bem de quando o Olivier Anquier apareceu na cena midiática brasileira. De todas as casas, mocinhas e moçonas suspiravam. E os machos morriam de ciúmes. Faziam chacota do sotaque e do fato dele gostar de cozinhar. Questionavam, patéticos, sua masculinidade por causa do sotaque. Nada porém arranhava a impressão de que, ao menos de longe, o Olivier era um macho superior.

Não conheço uma pessoa sequer que provou da comida do francês bonitão. Eu, particularmente, preferia que ele não tivesse existido, pois toda vez que preparo um prato para uma amiga, tenho a impressão de estar sendo comparado ao sujeito. Portanto, relaxem, feministas raivosas. Isso não tem a ver com vocês. É um problema de todos. Ou melhor, de gente bonita.

Aproveitando o debate, resolvi conferir o Ema. Quem sabe tudo aquilo não era apenas recalque de alguém que não sabe cozinhar?

Foi difícil conseguir reserva. Em parte porque o pequenino restaurante na Rua da Consolação tem apenas cinco mesas mais um balcão de frente para a cozinha. Mas também porque o lugar só funciona três dias por semana. Inteligente, pensei. Ela restringe a oferta para ficar mais desejável, da mesma forma que o Steve Jobs fez quando lançou o iPhone. Bom começo, mas ainda não provava que ela tem "a mão".

Fui atendido por um dos cozinheiros, ao invés de garçons. Ali, eu já estava totalmente resolvido. Havia gostado do lugar, independente do que eles colocassem na minha boca. E sobre a expectativa amolecida, veio a entrada: ovo mollet com cogumelos, aspargos e pão começaram o serviço com louvor. Na sequência, o camarão com abóbora, catupiry e castanhas-baru fecharam ainda melhor aquele jantar cheio de sabores de verdade. Meio caseiro, meio complexo. E aí veio Renata.

vanzetto

Dizer que ela é bonita seria como dizer que o camarão estava apenas gostosinho. A jovem, e talentosa-vamos-deixar-claro, chef é embriagante. Passou, sorrindo para todos e me cumprimentou com um balançar de cabeça. Se estivesse de pé, teria caído de fraqueza nos joelhos. Eis o porquê daquele protesto tão veemente. Uma menina tão nova e linda certamente ouviu mais elogios à sua aparência que ao seu talento.

Então deixo claro aqui, e saio em seguida para registrar em cartório e tudo, que a Renata é uma cozinheira de mão cheia e o Ema uma visita obrigatória para os amantes da gastronomia paulistana. Pedi a conta (torci para que ela mesmo a trouxesse, mas não deu certo), paguei e fui embora com gosto de quero mais. Não sem deixar meu telefone e email escrito na conta, e um convite para que ela fosse jantar comigo uma noite qualquer.

Quem sabe funciona.