OPINIÃO
15/12/2017 12:26 -02 | Atualizado 22/12/2017 10:49 -02

#forceisfemale: As diferentes histórias de mulheres que exaltam a força feminina

Valderez, Regina e Elizabeth trilharam caminhos diferentes, enfrentaram dificuldades e venceram.

Se nos querem esgotar, somos resiliência. Se nos querem sozinhas, somos a soma.
Divulgação/Julia Razuk
Se nos querem esgotar, somos resiliência. Se nos querem sozinhas, somos a soma.

Force is female

Eu sempre fui à frente de tudo.

No meu tempo, fui escada. Pisei degrau por degrau.

Soube entrar, soube sair. A cabeça erguida.

Eu quero me ver de cima.

Levantei minhas próprias paredes.

Me fiz reboco, fui remendo.

Abri portas e construí janelas, onde ali pudesse ver um caminho possível.

Num mundo que não nos acolhe, cobra e me quer fortaleza.

Fui limpeza em (in)cômodos alheios. Labuta braçal cotidiana.

Me dei casa, me dei comida. Eu me fiz alimento.

Em um quarto que me querem despejar, eu não entrei.

Eu sou um templo: sagrado e feminino ser.

Soube ser força bruta.

Soube ser abraço em laços de desafeto.

Soube ser dança em territórios não meus.

Sobre não ser vista, Aparecida que sou.

Eu sou espelho.

Meus olhos fatigados devolvem amor próprio em "eu te amo".

Sou um carro inteiro de destaque nessa passarela que não me querem passar.

Eu não estou só.

Sou espelho e juntas somos múltiplos reflexos.

Se nos querem anular, não sucumbimos.

Se nos querem nuas, somos corpo blindado.

Se nos querem sugar, não deitamos.

Se nos querem esgotar, somos resiliência.

Se nos querem sozinhas, somos a soma.

Divulgação/Julia Razuk
Valderez e Regina

Valderez Souza Silva, 61 anos

A paulistana Valderez Aparecida de Souza Silva tem 61 anos. Aposentada, é por inquietação própria que continua trabalhando. Começou aos 13. Sua mãe era diarista. Ela também. Da pouca demonstração de amor recebido, fez contrário: deu atenção, deu carinho. A falta que ama foi preenchida com frequentes e espontâneas doses d'eu te amo: Renato, Regina e Ricardo; seus três filhos.

"Eu quis dar o amor que não recebi, dizer que amo de forma natural. Quando você tem um filho, você muda. Mãe é aquela leoa, a gente se sente diferente e melhor."

Val, como é conhecida e gosta de ser chamada, nasceu no Jaçanã, distrito da zona norte de São Paulo. Mas o destino a quis perto do mar. No Guarujá, encontrou o pai de seus filhos. Um erro achar que apenas a presença masculina seria suficiente. Foi pela disritmia de seus passos que não puderam mais caminhar juntos. E, de idas e vindas na relação, onde Val pudesse entrar, os filhos seguiam sempre junto dela.

Deixou casa. Morou de aluguel. Morou em barraco. Morou no silêncio de seu sonho em construir uma casa de alvenaria.

Por anos, conciliou a educação dos filhos com o trabalho. Ela que, na juventude, criou e costurou suas fantasias de carnaval; passista que era. Val nunca parou de se movimentar. E, se para, é como se algo estivesse errado. Ela é movimento.

Numa tentativa de conciliar trabalho, filhos e universidade, fez um ano e meio de letras. O desejo era psicologia. E talvez, muito em breve, você a encontre em alguma próxima turma para concretizar no agora o que a vida não lhe reservou como tempo livre. Para ela, as oportunidades que nos surgem diante dos olhos precisam ser agarradas com coragem. É preciso saber deixar vir e deixar ir, com respeito e afeto pelas pessoas. Um lema.

Divulgação/Julia Razuk
Regina Ferreira

Regina Ferreira, 28 anos

Seu nome é uma homenagem ao avô, que teve cinco filhos homens, todos de iniciais R. Quando a primeira neta veio, chamou-se Regina Aparecida Ferreira da Silva. A memória que ela melhor guarda de seu pai, Renato, é a de suas pesquisas em livros. "Mas, pai, o que é resiliência?"/"Pegue o livro na estante e procure". Havia ali um ensinamento maior, de quem dava indícios de que o que se quer na vida, se busca.

Regina cresceu com total referência da mãe, Valderez, que não mediu esforços para criar os filhos, ainda que a vida teimasse o contrário. Começou a trabalhar aos 14, numa barraca de praia no Guarujá. Eram 15 reais diários: um dia para a mãe, no outro para a filha. Tem dois irmãos, um mais novo, outro mais velho. Ser a irmã do meio lhe exige responsabilidade e dupla jornada de equilíbrio.

"Por ver minha mãe se privando, as brigas com o meu pai, eu pensava que era preciso fazer alguma coisa, ajudar. E vejo como absorvi tudo dela, de como ela dá tudo que não teve, de como encontra disposição, lida com os valores e a educação."

Adolescente que era, também queria ter sua própria autonomia em não pedir à mãe. A primeira aquisição foi o material escolar que, na maioria das vezes, vinha por intermédio da patroa de Val. Comprou mochila com estampa de surf e um fichário, desses em que se pode organizar as páginas preenchidas e retirar as que não nos servem. Metáfora para a vida.

Regina nunca pensou ser modelo. Mas, por seu 1,79 e recorrentes "você é exótica" e "modelos são esquisitas mesmo", ela tentou uma agência em Santos. Encontrou apoio para produção de um book, que seria pago quando houvesse um trabalho na área. Nunca houve. À época, tinha 17 anos. O pai havia morrido aos 46.

Nutria um desejo de morar fora do país e trabalhar com dança. Sonho que se concretizou breve. Aos 18, fez teste para uma companhia de dança. Foram cinco meses na Itália e um na Eslováquia, com apresentações de 1h15 junto a outras dançarinas brasileiras. A disciplina somada à pressão psicológica dizia que só podiam ligar para casa a cada 15 dias; além da polícia batendo à porta em busca de passaportes ilegais.

Regina regressa ao Brasil. Havia uma casa e braços para voltar. Nunca foi de permanecer em lugar onde não se sinta feliz, onde não seja ela mesma. Formou em produção de moda e passou a trabalhar com eventos e como modelo, ainda que por vezes seja tratada como estrangeira no próprio país.

Os corres não cessam. Cuida para que a mãe possa parar de trabalhar, tirar um lazer e, enfim, cuidar de si. Cuidarem-se. Fica o desejo de que as próximas mulheres de suas vidas não precisem de tantas batalhas ou agruras. E que poder fraquejar sem perder potência e beleza seja, de fato, possível.

Divulgação/Julia Razuk
Elizabeth

Elizabeth Magalhães, 56 anos

Sem hífen, Guarda Roupa SP é resultado de um acervo de 35 anos, fruto da dedicação da figurinista Elizabeth Magalhães. Mas há apenas dois, Betinha, como é chamada por quem bate à sua porta em busca de figurinos e styling para produções de moda, se mistura a cabides, casacos e sapatos que possam ser reinventados e reutilizados. A permissão é dada.

Com proposta criativa, diante da crise econômica, ela deu novo sentido e botou pra jogo o que poderia ser um amontoado de lixo parado. Avessa ao consumo excessivo e afeita ao "invés de comprar, recicle", Beth abriu as portas desse montão e cativou interessados em vestimenta de boas ideias, aproximando universos editoriais, cinema e publicidade.

"Eu nunca fui uma pessoa que usa o que está na moda. Quando a procura pelo Guarda Roupa SP começou, pra mim, foi um presente ver a roupa sendo usada de outro jeito, poder intervir e colocar na rua. E de como outras pessoas podem pensar o próprio guarda-roupa e utilizar de outra maneira."

Localizado na Vila Mariana, em São Paulo, o local recebe gente interessada em dar nova finalidade ao uso de todas essas roupas e figurinos. Ela não aceita o título de "caridosa", já que aquilo virou um quase negócio. Quase, porque não envolve dinheiro, mas permutas e parcerias, onde algumas delas até transcendem o âmbito profissional.

A proposta de transformação a acompanha no ambiente de trabalho e também em casa, com quem partilha a companhia do filho de 16 anos e da mãe. Quando João Francisco nasceu, depois de 15 dias, ambos estavam em um set de gravação, trabalhando. Funções que não se separam: mãe, mulher e profissional.

Nas produtoras por onde passou, ali estimulou que o trabalho se adequasse, fosse minimamente respeitando o horário excessivo de expediente e/ou maternidade. Exigência nem sempre atendida. Hoje, o Guarda Roupa SP, além de lugar de troca é também exercício de escuta, onde acumula relatos de suas clientes sobre a batalha cotidiana de mulheres em ambientes machistas, como o da publicidade.

Na aparência, a subversão do cabelo longo como moldura do rosto, como coisa de ficar mais feminina, ela resolve na tesoura quando bem dá vontade. Ainda que para o outro, isso nem sempre seja sinônimo de entendimento de si, é só rebeldia. Esse rótulo de "mais moderna do mundo" ela também recusa. "Isso não é ter coragem. Coragem é levantar todos os dias".

Ficha técnica

Fotografia: Julia Razuk (@juliarazuk)

Direção e Produção: Kelen Lima (@kelen.lima)

Modelos: Beth (@guardaroupasp), Regina Ferreira (@_regina.ferreira) e Valderez Ferreira

Styling: Maiwsi Ayana (@maiwsi) e Nayara Reis (@reisnayarareis)

Maquiagem: Andressa Vaz (@andressavazmakeup)

Texto: Neomisia Silvestre (@neomisia)

Acervo/Apoio: Guardaroupa SP (@guardaroupasp), Rahall (@rahall_me) e Nike (@nikesportswear)

Locação: 210 Studios (@210studios)

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

A força é feminina