OPINIÃO
11/04/2014 07:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Sendo gay no Rio e em Nova York: uma conversa com Mari Veiga

Mari Veiga, do site para meninas GrupoHPM, pediu pra me entrevistar. Eu disse que sim, mas com uma condição: entrevistá-la de volta.

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Mari Veiga, do site para meninas GrupoHPM, pediu pra me entrevistar. Eu disse que sim, mas com uma condição: entrevistá-la de volta. O que ela escreveu - sobre mim - está aqui. E um pouco do que conversamos - desde a diferença entre ser gay no Brasil e Nova York até o sexo anal da Mel Lisboa - segue abaixo.

Todos os dias vemos situações onde a pessoa é definida primeiro pela sexualidade, depois por todo o resto. (...) Fica difícil imaginar o dia em que as pessoas vão entender que você tem um ser humano ao seu lado que te faz feliz e que não importa o sexo ou a genitália da pessoa.

Mari: Você escreve para o Huffington Post sobre o mundo gay em geral. Como é ver seus posts rodando o seu país de origem com o Brasil Post?

Nathalie: Vou começar a escrever mais pro Brasil. Eu acho que o objetivo é tentar fazer com que as pessoas comecem a falar sobre assuntos que importam. Se alguém me diz "me enfiei numa discussão de bar sobre heteronormatividade por causa da sua coluna, sabia?" eu fico numa alegria só.

[Você] consegue imaginar o dia em que as pessoas não perguntem "você tem namorado?" mas optem por uma forma mais unissex? Vocês conversam sobre heteronormatividade por aí?

Mari: Imaginar esse dia fica mais difícil a cada momento. [Hoje] vemos situações onde a pessoa é definida primeiro pela sexualidade, depois por todo o resto. Temos que conversar mais. Muito mais. Ainda somos machistas e patriarcais demais para pensar na questão da heteronormatividade. Todos os dias passamos por situações que reforçam isso.

A conversa sobre heternormatividade costuma acontecer em grupos muito pequenos e focados. Com as redes sociais isso se extende um pouco mais, mas está longe de ser considerada uma discussão existente no Brasil. Digamos que, por enquanto é uma ideologia lá longe. Quase como um filme de Woody Allen que só assiste quem é "cult". E em Nova York?

Nathalie: O papo de heteronormatividade tem rolado à beça por aqui -- e já tem bastante gente que evita o gênero e escolhe palavras como "significant other" ou "sweetheart" pra não assumir a orientação sexual da pessoa. Woody Allen é só pra "cult"? Pára. Jura? Povão tinha mais que assistir os filmes do cara -- todo filho de Deus merece a cena do beijo de Vicky Cristina Barcelona.

Mari: Você é gay e super assumida. Teve muita dificuldade para lidar com a família, amigos e o trabalho?

Nathalie: Com trabalho aqui, nunca. Com família, foi - e ainda é - muito difícil. (...) Essa história de dizer "eu aceito, mas eu acho que você devia esconder porque as pessoas lá fora vão julgar" te alimenta com muita vergonha, uma espécie de desonra - e isso dói demais. Saber que alguém que você ama acha que você deve se esconder, ou esconder partes suas, é ruim demais, prejudicial demais -- isso desmancha uma pessoa.

O que você pensa, de uma forma generalizada, sobre onde estamos em relação à aceitação social no Brasil?

Mari: Sinceramente? Acho que não estamos em lugar nenhum. Todos os dias vemos casos de mortes por homofobia nas grandes cidades, a religião continua pautando a política em vários lugares e a parada gay é vista como uma grande micareta.

Muito se fala da enorme aceitação da sociedade. Isso é mídia e mentira. É muito simples usar as redes sociais como parâmetro de comparação para a sociedade. Por mais que ela seja um bom termômetro, ela é freqüentada maioritariamente por jovens de cabeça aberta e que se permitem um pouco mais e mesmo sendo esse o público, o preconceito existe e é enorme. Os pré-conceitos que temos em nossa cultura afastam o país de qualquer situação de aceitação.

Imagino que tenha acompanhado o beijo entre Félix e Niko no final de "Amor à vida". O que você achou? Uma verdadeira quebra de paradigma ou nem tanto?

Nathalie: Vi na internet e achei uma delícia. Ser quebra de paradigma é muito relativo - a Disney já colocou casal gay em filme infantil. A gente teve sexo selvagem com Presença de Anita há cem anos - éramos crianças; você lembra? Já está mais que na hora de uns amassos gays em novela. Quero ver pintar um vuco-vuco.

Essa história de "não tenho preconceito, não, mas tem que ficar beijando assim na frente de todo mundo?" é patética demais. Tenho que ver Mel Lisboa encenando um anal com o José Mayer mas é pra ficar chocada com o beijo na boca de dois caras lindíssimos?

Eu acho que a mídia precisa estourar com homossexualidade mesmo. (...) é bacana ter homossexuais como os mocinhos e mocinhas de novela como referência pra nova geração.

"Enquanto a sociedade precisar diferenciar o relacionamento gay de um relacionamento hetero vai existir preconceito. Por que não pode ser simplesmente um relacionamento? "

Nathalie: E vem cá, você que tem e executa um site gay - vive fora ou dentro do armário?

Mari: Outíssima. Sempre ouvi as pessoas dizerem que eu deveria tomar cuidado porque o mundo lá fora é cruel com quem se assume demais... mas nunca consegui me esconder, nem nunca quis. Depois que minha família soube, me soltei de vez. Já passei por situações meio complicadas, mas sempre consegui sair antes que a coisa ficasse pior. Hoje ando de mãos dadas na rua, coloco namorando no Facebook e posto várias fotos com a minha namorada com legendas para lá de melosas e românticas. E minha mãe adora chamar ela de nora!

Nathalie: Como foi o seu processo de aceitação?

Mari: Para mim a parte mais difícil é a auto-aceitação. É entender aquele misto de sentimentos novos. É aceitar que seu amor é tão valioso e digno quanto todos os outros. É perder o medo de encarar a sua felicidade. Isso tudo aconteceu pra mim quando tinha 18 anos. Conheci uma menina incrível, me apaixonei e resolvi encarar aquele sentimento e bater de frente com o mundo. Até chegar na família demorou alguns meses, mas depois que eles souberam, parecia que eu tinha tirado o peso de uma vida inteira das minhas costas. A gente sempre tem um pouco de medo do 'julgamento' daqueles mais próximos, mas quando eles sorriram e falaram que estariam ao meu lado - do jeito deles - eu não poderia me importar com o que o mundo iria pensar. Queria viver minha vida e ser muito feliz.

Com o Grupo[HPM] conheci muitas meninas que não tiveram a mesma facilidade que eu. Principalmente em casa. E quando somos rejeitados por aqueles que mais amamos só por sermos nós mesmos tudo perde o sentido. Até a vida. Conversei e ajudei meninas que enfrentavam em casa um pesadelo de preconceito. Lembro de uma que a mãe saía para a igreja e dizia que ia orar para o demônio sair do corpo dela.

"Muito se fala da enorme aceitação da sociedade. Isso é mídia e mentira."

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"Sem dúvidas, as coisas evoluem. Mas no nosso dia a dia ainda precisamos encarar olhares tortos nas ruas, comentários desnecessários em restaurantes e até mesmo passar por situações seriamente desrespeitosas em boates e bares, sem contar a violência física, né?"

Nathalie: De onde veio a idéia do GrupoHPM? Acho um ativismo lindo esse de manter o site - com conteúdo de notícia a histórias de amor. Conta mais da idéia do Grupo e de outras vontades?

Mari:Aos 15 anos eu descobri o teatro e com a ajuda da minha diretora, uma pessoa iluminada, descobri uma nova paixão: escrever. Com essa paixão, eu sabia que podia mudar a vida de algumas pessoas no mundo. Eu sempre dizia isso, mas não sabia como fazer. Em uma dessas conversas sobre o rumo da vida com a minha namorada, ela me disse para seguir esse sonho. Aí eu comecei com um blog, Historias para Meninas, onde eu escrevia contos e romances divididos em capítulos. As histórias foram crescendo e se tornando "famosas" nesse submundo digital.

Vontade? A editora acontecer de verdade! Hoje temos alguns livros publicados - no início desse ano conseguimos o registro na biblioteca nacional para regularizar os próximos títulos. Autoras que queiram publicar seus livros, vocês são super bem vindas!

Mari: Você se considera uma ativista LGBT? Se sim, o que faz para ajudar o 'movimento'?

Nathalie: Com tanta gente colocando a vida em risco pra lutar por direitos LGBT, eu me sentiria um pouco prepotente se me definisse como "ativista". Mas, ao mesmo tempo, no Brasil tem tanta gente no armário que só estar do lado de fora já parece protesto. Eu uso minha voz de todas as formas que eu posso pra lutar pela causa - escrevendo, protestando, discutindo.

Mari: Qual o seu objetivo na vida? Você pensa em fazer a diferença? Lá na frente, olhar para trás e ver que mudou um pouco o mundo?

Nathalie: Puxada, essa pergunta. Meu objetivo é lutar por causas nas quais acredito e inspirar pessoas a fazer o mesmo. Uma de minhas mais longas cruzadas gira em torno da defesa do intelectualismo - não no sentido piegas e pretensioso. Eu acredito que analisar e entender o mundo - outros humanos e nós mesmos - é a melhor forma de ser pessoa. Preconceito, afinal, vem de ignorância.

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Entrevista com essa tal de Nathalie, na íntegra.