OPINIÃO
03/12/2014 16:44 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

48% acham errado a mulher sair 'sozinha'. O nome disso não é ciúme.

Enquanto a gente achar que ciúme é prova de amor, vamos perpetuar comportamentos patológicos e violentos como os que mostram essa pesquisa.

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Da série "para, mundo, que eu quero descer". Foi divulgada hoje uma pesquisa do Instituto Avon e do Data Popular com mais de dois mil jovens entre 18 e 24 anos. Fiquei aliviada ao saber que 96% dos entrevistados reconhecem que "vivemos em uma sociedade machista". Sim, aliviada: ninguém evolui sem antes reconhecer suas falhas. E então, depois de ler outros dados, minha garganta secou feito a Cantareira. É tanto absurdo que resolvi setorizar e, depois, escolhi um recorte. Respira fundo, me dá a mão e vem...

- 68% dizem achar errado a mulher ir para a cama no primeiro encontro.

- 76% criticam aquelas que têm vários "ficantes".

- 43% dos garotos veem diferença entre mulheres para "namorar" e "para ficar".

>>> O que eu penso disso.

- 30% deles dizem que a mulher que usa decote e saia curta está se oferecendo.

- 33% delas foram impedidas de usar determinada roupa.

>>> E disso aqui também.

- 2% que receberam ameaça de cibervingança - a divulgação de fotos ou vídeos íntimos.

>>> Lembram da minha Carta à Fran? Pois é.

- 48% dos garotos acham errado a mulher sair sozinha com os amigos, sem a companhia do marido, namorado ou "ficante".

- 53% delas já tiveram o celular vasculhado.

- 40% dizem que o parceiro controla o que fazem, onde e com quem estão.

- 30% dizem que tiveram e-mail ou perfil de rede social invadido pelo namorado.

- 28% afirmam que foram proibidas de conversar com amigos virtualmente.

- 15% das jovens foram obrigadas a revelar para os namorados suas senhas de e-mail e Facebook.

>>> O texto abaixo é sobre ISSO. Me parece gritante que o caráter machista desses números, mas não vou me estender nesse recorte de gênero - os links anteriores falam bastante da questão.

***

Estou há dez anos com o mesmo cara, hoje meu marido. Nunca pedi sua senha de Facebook, e-mail ou celular. Seria como amarrá-lo ao pé da cama. Quero que ele fique, SE QUISER FICAR. Não é sorte minha que ele pense do mesmo jeito... é seleção natural. Só sobrevive a mim aquele que respeita os limites da minha individualidade. Tatuei na memória a coisa mais linda que ele já me disse, durante a nossa cerimônia de casamento. "Eu te desejo LIVRE: que voltar pra mim seja sempre uma ESCOLHA, nunca uma OBRIGAÇÃO". Ela é mais do que uma frase. É a essência da nossa relação.

Eu sei, vão dizer que se trata de indiferença mútua e que a gente não se ama de verdade verdadeira (risos). Respondo que ciúme não faz ninguém fiel a você. Enquanto a gente achar que ciúme é prova de amor, vamos perpetuar comportamentos patológicos e violentos como os que mostram essa pesquisa. Alguém realmente acredita que é natural PODAR o outro, PATRULHAR sua rotina e DITAR suas atitudes? Alguém sinceramente imagina que pode CONTROLAR os sentimentos alheios? Porque aí é insegurança vestida de autoengano e possessividade disfarçada de zelo.

Não estou falando daquela sensação que cutuca nossa estabilidade quando ele reparou no mulherão da festa ou é cobiçado pelas colegas de trabalho. Até aí, tudo bem. Desde que, em vez de dar escândalo, você relembre o valor de quem está ao seu lado. E relembre que, entre tantas opções, vocês se escolheram. O resto é burrice. Explico. Eu posso ser "proibida" de sair "sozinha" com as amigas para beber num bar AND trepar loucamente num motel perto do trabalho na hora do almoço. Eu posso "exigir" que meu marido me dê a senha do email AND ele cria outra conta só pra xavecar a gostosa da academia.

Nessa "estratégia" de reduzir e vigiar espaços, o ciumento se volta contra si mesmo. Uma hora o próprio amor morre sufocado. Ou o cidadão que mal consegue respirar fica impelido a procurar novos ares. Quanto mais rígidas as regras, maior o desejo de corrompê-las. Não soa inteligente, né? Eu aposto que existem alternativas mais maduras e generosas de se relacionar. Mas precisa partir do princípio de que o outro, homem ou mulher, não é bicho pra ser subestimado, encoleirado e adestrado. É dotado de direitos e de personalidade, tem plena capacidade de DECIDIR e LIDAR com as consequências de suas decisões.

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