OPINIÃO
12/02/2015 17:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Sobre maternidade jovem e feminismo

Eu ouvi todo tipo de piada vinda dos professores em relação às mulheres que engravidam cedo. Me sentia revoltada, mas guardava pra mim. Um dia o professor de redação resolveu perguntar pra sala se tinha alguma menina ali que queria engravidar aos 18 ou 19 anos. Todo mundo riu, é claro, e ele começou com o discurso de que "antigamente o mundo era machista e as mulheres eram avós aos 40".

Eu escondi minha gravidez por quase sete meses. Foi no sexto mês de gestação que eu tive coragem de abrir para o mundo que estava carregando uma criança aqui dentro. Desabafei no Facebook e preferi que todo mundo soubesse da notícia de uma vez.

Tinha acabado de desistir do curso de psicologia e estava fazendo cursinho na época. Foram tempos difíceis, estava num ambiente totalmente novo e não conhecia ninguém. Como eu ia contar pra aquele bando de adolescente de 17 anos que eu estava grávida e tentando entrar na faculdade? Não dava. Todo dia eu colocava a calça mais apertada e a blusa mais larga pra tentar esconder o barrigão...

Eu ouvi todo tipo de piada vinda dos professores em relação às mulheres que engravidam cedo. Me sentia revoltada, mas guardava pra mim. Um dia o professor de redação resolveu perguntar pra sala se tinha alguma menina ali que queria engravidar aos 18 ou 19 anos. Todo mundo riu, é claro, e ele começou com o discurso de que "antigamente o mundo era machista e as mulheres eram avós aos 40".

Chamei ele de canto, falei que estava grávida, que minha mãe seria avó aos 40 e que não me sentia à vontade com aquele tipo de piada em sala de aula. Pedi educadamente pra que ele parasse. De resposta eu recebi: "Querida, não ache que você é o centro do universo, como queria que eu soubesse que estava grávida? Siga sua vida e boa sorte".

É engraçado como o opressor se sente acuado quando percebe que não tem mais o direito de sair oprimindo por aí. O professor se sentiu atacado quando a aluna oprimida pediu pra que ele parasse de oprimir. Eu não exigi que ele parasse de fazer piadas só porque eu me sentia mal, mas pra que entendesse que estava reproduzindo preconceitos em sala de aula.

Eu entendi então, que na visão dos professores mais progressistas do cursinho, o mundo hoje é menos machista porque as mulheres podem estudar, sair de casa e trabalhar com o que quiserem. Eles só não enxergam que a direita se apropriou muito bem dessa idéia de "mulher independente": a gente vive com um reloginho que marca a hora de estudar, de se formar, de casar e de procriar. NÃO EXISTE PORCARIA DE LIBERDADE NENHUMA PRA NÓS. Quem foge do cronograma sofre as consequências. Se você resolve bancar uma gravidez na adolescência, é julgada. Se resolve abortar, precisa ter dinheiro pra isso senão morre. Se não quer ter filhos, é julgada também. Ou seja, mulher, pra se encaixar na sociedade você precisa se formar, vender sua força de trabalho pro capitalismo, casar com um homem protetor e engravidar (mas somente aos 30).

Eu sou mãe aos 20 e posso dizer que sair na rua com um bebê nos braços é uma missão bastante árdua, a gente tem que estar preparada pra ouvir todo tipo de coisa: "Mas VOCÊ é mãe dela?", "Nossa, quantos anos você tem?", "Um bebê cuidando de outro bebê", etc etc etc. Eu estou cansada de responder grosso, às vezes só queria sair na rua sem ser abordada, ficar na minha enquanto ando de ônibus com a minha filha sem que ela seja cutucada ou alisada por desconhecidos. Não se pergunta idade de uma pessoa sem ter motivos pra isso. Costumo dizer que o que a gente passa é um tipo de assédio... Passar a mão em um bebê sem permissão é totalmente naturalizado, as pessoas não compreendem que não têm esse direito (assim como passar a mão na barriga de uma grávida). E tudo isso se agrava quando a gente é nova, porque ninguém te acha capaz de cuidar de um bebezinho... É palpite pra lá e pra cá e todo mundo quer te ensinar a educar sua cria.

E quando tentam te elogiar dizendo que "as mães de 20 anos não são como você"? Dai-me paciência. As mães de 20 anos são como? Por que esperam mais da gente? Nós somos humanas, queremos vivenciar outras coisas além da maternidade, erramos, acertamos... E eu posso dizer ainda que sou privilegiada: classe média branca "juntada" com outro classe média branco. Ou seja, aos olhos dos outros, me encaixo no padrão perfeito de família feliz de comercial de margarina. Quero ver acharem beleza na negra pobre e solteira que banca tudo sozinha. Essa daí é a "menina que engravidou de um desconhecido e está nem aí pra vida". Quem mandou não usar camisinha? Quem mandou não tomar pílula? Agora se lasca! Ou então é tratada como a coitada desinformada da periferia. "Tadinha... Não tem informação. Não sabe nem usar o anticoncepcional. Vamos levar a luz pra essa gente!". Ninguém pára pra pensar que talvez essa menina tenha desejado ser mãe porque não lhe foi dada nenhuma oportunidade na vida, porque ela não tem perspectiva nenhuma de crescer profissionalmente.

Nessa sociedade machista, mães são vistas como seres fragilizados, seres que não gritam, que são dóceis, que não possuem vontades, e tudo isso se agrava quando você é jovem. Você é silenciada e chamada de "mãezinha" quando se revolta diante de alguma situação (e se você é jovem, é menosprezada por não entender nada da vida). E é por isso que eu digo que é extremamente necessário se discutir maternidade no meio feminista, como também é necessário se discutir feminismo dentro do meio materno. Precisamos ocupar o espaço público, trazer a tona esse debate que é tão deixado de lado e que envolve pautas muito importantes para nós mulheres (como violência obstétrica, aborto legal, maternidade compulsória e maternidade jovem). Precisamos acabar com essa idéia de que a mulher desempenha apenas o papel afetivo na família, pois acredito que a equação mulher=mãe é ainda extremamente utilizada. Queremos que as relações parentais sofram mudanças significativas, e que o papel de pai seja desempenhado da mesma maneira que nos é designado o papel de mãe. Queremos que as mães jovens parem de ser infantilizadas e subestimadas, estamos cansadas de piadas adultistas.

Toda liberdade às mães (jovens)!

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