OPINIÃO
12/12/2014 17:22 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:11 -02

Por que a medicina tradicional é tão misógina?

Até mesmo eu, pertencente a uma classe média alta, privilegiada pela oportunidade de montar uma equipe humanizada que me desse apoio nesse momento lindo, sofri violência algumas vezes.

Jupiterimages via Getty Images

Apesar de estar se tornando um assunto bastante discutido ultimamente, tenho percebido que a violência obstétrica é constantemente colocada em segundo plano dentro das questões feministas, como se não dissesse a nosso respeito e não tivesse relação com o direito de dispormos de nosso próprio corpo.

Já me deparei com algumas de nós se utilizando do argumento "meu corpo, minhas regras e faço cesárea se quiser" para atacar as militantes do parto humanizado sem se quer conhecer os reais motivos da enorme luta que essas mulheres vêm enfrentando. É preciso entender que o parto domiciliar assistido por parteira, a ausência de anestesia e a posição de cócoras não são puramente modismos, mas têm comprovação científica para serem realizados. Ao longo desse texto, vou procurar justificar a importância da violência obstétrica como pauta feminista e relatar algumas situações que passei durante a minha gravidez.

Mitos e mais mitos

No início da minha gestação, eu fui acompanhada por uma médica tradicional que me dizia que "se tudo desse certo" eu faria um parto normal. Foi o bastante pra entender que ela não era confiável. Isso porque a frase correta seria: "se tudo der errado a gente faz uma cesárea".

A grande maioria das mulheres brasileiras que procuraram um profissional para acompanhá-las durante a gravidez foram enganadas, e isso é muito triste. Isso acontece porque muitos mitos (disseminados principalmente por médicos obstetras) circulam por aí travestidos de verdade incontestável, e nós, na inocência de paciente que vai à consulta acreditando que aquele profissional renomado vai nos contar a verdade, não procuramos contestá-lo por medo de colocar nosso bebê em risco. Afinal de contas, ele estudou pra isso, não é mesmo?

Pode parecer loucura, mas bebê pélvico (vulgo bebê sentado), cordão enrolado no pescoço, bebê pequeno ou grande demais, cesáreas anteriores, ultrapassagem das 41 semanas de gravidez, falta de dilatação ou contração, gestante de baixa/alta estatura, mãe gorda ou magra demais NÃO SÃO MOTIVOS PARA REALIZAÇÃO DE UMA CESÁREA. Se você já ouviu alguma mulher dizendo que não pôde realizar parto normal por algum desses motivos citado, pode ter certeza: ela foi enganada.

Se o médico que te acompanha disse alguma dessas atrocidades é porque ele não estudou ciência, ele simplesmente está debruçado sobre inverdades e disseminando esses mitos por ai. Alguns podem até acreditar no que dizem, já que foi isso que seu professor desatualizado da faculdade contou nas aulas, mas muitos proferem esse tipo de coisa pra não ter que gastar horas e horas com "mulher histérica" gritando na sala de cirurgia enquanto poderia estar ganhando melhor realizando dezenas de cesáreas. E é claro que pro hospital, não é nada lucrativo ter uma mulher ocupando uma sala cirúrgica durante horas e horas, enquanto poderia estar rendendo muito mais dinheiro com as cesáreas rápidas que seriam realizadas lá dentro.

A violência obstétrica

Na minha opinião, uma das violências mais veladas da atualidade, isso porque a grande maioria das mulheres que são mães já foram violentadas e não sabem. Todos os dias uma mulher é amarrada durante o parto, é mutilada, é humilhada e escuta frases como "na hora de fazer não doeu, né?". Essa violência já foi naturalizada pela nossa sociedade, que acaba por acreditar que o parto é apenas um momento de muita dor e humilhação, e eu acho extremamente triste ver como o momento de maior expressão sexual de uma mulher pode acabar se transformando em um pesadelo.

Até mesmo eu, pertencente a uma classe média alta, privilegiada pela oportunidade de montar uma equipe humanizada que me desse apoio nesse momento lindo, sofri violência obstétrica algumas vezes quando ia realizar ultrassom no hospital. Ouvi de uma obstetra: "Corajosa, hein? O bebê é grande, você é pequena e tá de 42 semanas", na tentativa de me desencorajar e de fazer com que eu pensasse que estava deixando minha bebezinha sofrer lá dentro por ter ultrapassado as 40 semanas gestacionais.

Minha mãe, por exemplo, também sofreu violência obstétrica. Fez episiotomia, recebeu ocitocina pra induzir o parto, ficou em posição ginecológica durante todo o processo e realizou vários exames de toque (coisa que não pode ser feita caso a gestante não queira).

O parto e o feminismo

A medicina tradicional trata o parto como algo patológico e não como algo fisiológico e natural à mulher. Ela tem horror a fluidos, cheiros, gemidos, gritos e pêlos femininos. Ela é absolutamente misógina. Até mesmo durante um parto vaginal o protagonismo é retirado da mulher: somos colocadas em posição ginecológica (a mais desconfortável pra parir) pra que o médico possa manipular melhor a situação e realizar o famoso corte na área muscular entre a vagina e o ânus(a famosa episiotomia de rotina).

Ocorre que, nem a episiotomia é baseada em evidências, e não é outra coisa senão uma mutilação vaginal! Sim, aquela mesma mutilação que ocorre em tribos da África, que a ONU quer exterminar e que os coxinhas adoram utilizar como argumento pra dizer que "o Oriente é atrasado"... A gente bem vê como somos avançados, mutilando mulheres todos os dias em hospitais que se dizem prezar por saúde!

Enormes barbaridades são acometidas diariamente e nós sequer percebemos. A maioria dos médicos marcam a data da cesárea pras 38 semanas de gestação da mulher, sendo que a maioria delas entra em trabalho de parto entre a 39ª semana e a 42ª semana. E isso por quê? Porque não querem correr o risco de lidar com um parto vaginal. Afinal de contas, muitos deles nem sabem como proceder caso isso ocorra, pois foram devidamente treinados para serem cesaristas.

Isso quer dizer então que o bebê nasce sem estar pronto? Sim, o bebê nasce e acaba indo pra UTI simplesmente porque não estava pronto ainda, e pouca gente sabe disso. E todo esse processo nojento beneficia a quem? Ao hospital, que lucra com o preço exorbitante da estadia do recém nascido na UTI, e ao ginecologista obstetra, que pode realizar dezenas de cesáreas num curto período de tempo.

Em alguns países o médico sequer faz parte desse momento, já que não existe motivo pra isso. Médico serve pra realizar cirurgia, pra curar enfermidades, e não pra achar que é protagonista do parto. Quem pari é a mulher, é o corpo feminino. Quem ASSISTE O PARTO é a parteira, é a obstetriz. E cada vez mais a medicina arranja desculpas pra tirar da mulher esse protagonismo, pra tornar a mulher frágil e incapaz de realizar algo sozinha. Quem sai de herói salvador do binômio mãe/bebê nesses casos é o Doutor Misoginia.

Há décadas ouvimos que não somos mais capazes de parir, mas a sociedade impõe que sejamos mães a todo momento. Não passamos de uma sacola que carrega o bebê por 9 meses, de um útero pronto pra trabalhar. Quantas mãos não alisam nossa barriga sem permissão durante a gravidez, como se pelo fato de existir um bebê lá dentro nosso corpo se torna-se público? Nós mulheres realmente temos escolha diante de um cenário que nos impõe a maternidade, a cesárea, o corpo ideal pra parir, o peito ideal pra mamar? Quantas não são as mulheres que já sofreram violência obstétrica e nem sabem disso, por acharem desde sempre que parto é só algo sofrido? Quantas mulheres no Brasil têm condição de bancar um parto humanizado com assistência digna? Quantas sofreram mutilação genital com respaldo de um profissional formado?

Agora me diga: nós mulheres somos realmente incapazes de parir ou há todo um sistema por trás que teima em nos tornar frágeis, vulneráveis e fracas? Que teima em retirar nosso protagonismo, em transformar nossos fluidos em algo nojento e que restringe nossos peitos a objeto sexual? Quantas mulheres têm medo de parir naturalmente por acharem que "a b* vai ficar toda alargada", temendo que o companheiro a rejeite depois? Pois é. O parto humanizado é ou não é uma pauta essencialmente feminista?

Saiba mais:

Recomendações da OMS no atendimento ao Parto Normal.

Evidências Científicas.

Blog da Melania Amorim (diva da Medicina Baseada em Evidências no Brasil).

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