OPINIÃO
03/07/2014 09:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

A alegria triste da Fan Fest da Fifa

O Vale do Anhangabaú não é mais para todos. Assim como tudo o mais nesse megaevento, a Fifa Fan Fest se baseia no conceito de um espaço VIP, onde as pessoas são excluídas se não estiverem lá dentro, consumindo avidamente.

ASSOCIATED PRESS
Brazil fans celebrate after their team defeated Chile during a live broadcast of the World Cup round of 16 match inside the FIFA Fan Fest area in Sao Paulo, Brazil, Saturday, June 28, 2014. Brazil won 3-2 on penalties. (AP Photo/Rodrigo Abd)

Depois do jogo extremamente duro do último sábado, em que o Brasil derrotou o Chile no último pênalti, a atmosfera em todo o Brasil era de alívio e comemoração. As festas nas ruas seguiram até a noite, e as pessoas inundaram a praia no Rio, o bairro boêmio de Savassi em Belo Horizonte ou as ruas superlotadas da Vila Madalena em São Paulo. Embora as várias partidas de futebol tenham sido realmente de tirar o fôlego - e o clima nas ruas seja principalmente de comemoração, com apenas alguns protestos nas cidades-sedes -, alguns aspectos da Copa do Mundo do Brasil da Fifa não nos deixam ficar realmente satisfeitos com o evento.

Veja a Fan Fest em São Paulo, uma área que promete ser a grande alternativa para os que não têm dinheiro para comprar os caros ingressos para os jogos no estádio Itaquerão. Montada no Vale do Anhangabaú, no centro da cidade, a Fan Fest tem um telão, uma área familiar e um pequeno centro cultural com artesanato de todas as regiões do Brasil. A entrada é grátis, mas olhe de perto - a entrada é a única coisa grátis. Depois de fazer fila em uma das duas entradas rigidamente guardadas, onde as pessoas têm de descartar qualquer alimento e bebida, não há opção senão comer e beber em uma das dezenas de barracas montadas lá dentro pelos patrocinadores. As crianças seguram balões e brinquedos com o nome dos amigos patrocinadores por toda parte, de modo a não deixar ninguém esquecer quem deve lucrar com a festa. Todas as telas e postes de luz ostentam os logos dos patrocinadores, e o telão projeta a voz do apresentador da TV Globo, a estação brasileira que detém os direitos de transmissão - e, é claro, as vozes dos patrocinadores da própria Globo.

Eventos com público maciço não são novidade no Anhangabaú. Todo ano, pelo menos um punhado de shows acontecem nesse lugar, com o palco ocupado pelos melhores artistas brasileiros. É um local perfeito para isso: o vale tem muitas saídas dos dois lados, e o Viaduto do Chá, que o atravessa, geralmente permite que as pessoas vejam facilmente o show dezenas de metros abaixo. Portanto, milhares de pessoas podem se reunir ali. O que surpreende todo mundo que costuma ir aos eventos no Anhangabaú, porém, é como a Fifa e os orgulhosos patrocinadores da Copa do Mundo conseguiram cercar a área do show com muros de metal de 3 metros de altura, para que ninguém que está fora possa espiar para dentro. A organização fechou todas as saídas e, pior, ergueu muros no viaduto também, de modo que ninguém pode ver o telão a não ser que esteja dentro da Fan Fest.

É uma triste visão para os que viram o Anhangabaú lotado por centenas de milhares de pessoas que apoiaram a redemocratização de nosso país e as eleições diretas para presidente em 1984, um evento histórico.

Quarenta anos depois, o vale não é mais para todos. Assim como tudo o mais nesse megaevento, a Fifa Fan Fest se baseia no conceito de um espaço VIP, onde as pessoas são excluídas se não estiverem lá dentro, consumindo avidamente. Esse é o conceito de cidade que a Fifa está promovendo. É como gritar bem alto, sem parar: "Não, este não é um espaço público - e a Copa do Mundo definitivamente não é um evento público".

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