OPINIÃO
11/10/2014 11:47 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Mulheres na corrida não fazem eleições mais feministas

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Nunca em meus quase 30 anos de vida eu me lembro de ter visto uma eleição com tantas mulheres na corrida presidencial. Talvez alguns eleitores com bem mais anos nas costas digam o mesmo. Mesmo assim, minha decepção é grande. Podem me chamar de ingênua, mas eu imaginei que quando três mulheres estivessem entre os quatro candidatos mais votados, discussões de interesses das mulheres ganhariam mais espaço no debate público.

Não foi o que vi acontecer. A não ser por alguns esforços de Luciana Genro, as discussões continuaram vazias, escorregadias (e até inexistentes) em temas como aborto, violência contra a mulher, punição de invasão à privacidade na internet por parte de ex-parceiros, entre outros. Até mesmo Eduardo Jorge e Pastor Everaldo - por razões extremamente distintas, é verdade - pareciam mais preocupados com a liberdade (ou não) da mulher sobre o próprio corpo do que Marina e Dilma.

As duas mais poderosas mulheres que subiram aos palanques neste ano são covardes e não encaram seu dever para com outras mulheres como uma prioridade. Elas se deixaram moldar pelo senso-comum, que é machista.

Um dado: no programa de governo da Dilma, as mulheres ganharam uma única menção e um único parágrafo, vago e pusilânime.

"Mais empoderamento, autonomia e violência zero serão as diretrizes das nossas políticas para as mulheres no próximo período da Presidenta Dilma. A implementação da Casa da Mulher Brasileira será decisiva para este objetivo, assim como as medidas de promoção da igualdade."

E o aborto, Dilma? E o acesso à contracepção em regiões pobres? E a exposição na internet? E o revenge porn? E a educação de gênero nas escolas? E o projeto do "Não Mereço Ser Estuprada" que a senhora recebeu das mãos da ministra Eleonora Menicucci, que me prometeu, cara a cara, implantar e nunca mais ouvi falar? E as quase 200 mil mulheres que postaram suas fotos semi-nuas nas redes sociais para que a senhora ouvisse que vivemos no medo do estupro e de, ainda por cima, sermos culpadas por uma polícia despreparada e uma sociedade mal educada?

Não estou fazendo apologia ao Aécio Neves. O povo bem sabe que esse senhor não vive o respeito às mulheres nem em sua vida pessoal. Mas escrevo para dizer que as duas poderosas mulheres entre as quais pude escolher neste ano me decepcionaram.

E fico aqui pensando nas Frans, nas Marias da Penha e nas 50 mil mulheres estupradas por ano no Brasil. Caras, depois de esperarmos tanto por mulheres no poder, agora esperaremos por poder nas mulheres.

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