OPINIÃO
11/08/2014 00:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Grávidas: saibam como fugir da violência obstétrica!

A imagem que nós, brasileiros, temos do parto é uma imagem que assusta, que traumatiza.

Eu nem estou pensando em ficar grávida ainda, mas já escolhi a minha doula, a Adéle Valarini. Sabe o que é uma doula? Uma profissional que te acompanha durante o parto, cuidando para que ele seja do jeitinho que você sonhou. Tem doulas para todos os bolsos e até doulas voluntárias para mulheres pobres. O principal papel dessas mulheres é prevenir que você e seu bebê sejam vítimas de violência obstétrica.

Hoje convidei a Adéle para vir aqui explicar para vocês um pouquinho sobre violência obstétrica. Leiam o maravilhoso post dela logo abaixo!

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Quando falamos em parto, a primeira imagem que geralmente vem à cabeça das pessoas é a de uma mulher deitada em uma maca, gritando desesperada, e vários profissionais ao redor, gritando também: "força, força! Faça força!" A imagem que nós, brasileiros, temos do parto é uma imagem que assusta, que traumatiza. É comum, ao conversar com mulheres jovens, ouvir delas: "parto normal é muito ruim, muito doloroso. Eu não quero nem tentar! Vou marcar logo minha cesárea." Fica claro, quando pegamos as imagens que a mídia nos passa, e quando conversamos com mulheres em idade fértil, que o medo do parto é muito presente em nossa cultura.

Mas de onde vem esse medo? Muitas vezes, este medo vem de histórias ouvidas, de relatos compartilhados e de experiências vividas de partos que foram muito ruins. E quando buscamos aprofundar mais a respeito de PORQUE esses partos foram tão ruins e traumáticos, nos deparamos, na grande maioria dos casos, com a Violência Obstétrica.

A Violência Obstétrica é uma forma de violência contra a mulher e contra o bebê que acontece dentro dos hospitais e consultórios médicos.

Existem algumas formas de Violência Obstétrica muito claras, que deixam marcas físicas e psicológicas nas mulheres, como, por exemplo, humilhar a mulher durante o pré-natal ou o trabalho de parto, fazer piadinhas e debochar de sua etnia, de suas crenças, de seus desejos para o parto, impedir a mulher de se alimentar e beber água durante todo o trabalho de parto, impedí-la de se movimentar, fazer um excesso de toques ginecológicos, amarrar a mulher durante o parto, ameaçar a mulher... Existem até mesmo relatos de profissionais que bateram na mulher durante o parto!

O desrespeito aos direitos da mulher e do bebê, como o direito de ter consigo um acompanhante de sua escolha durante todo o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato (Lei 11.108 de 2005) e o direito de beneficiar do contato pele a pele imediatamente após o parto e fazer alojamento conjunto sem separação mãe-bebê (PORTARIA Nº 371, DE 7 DE MAIO DE 2014) também constitui uma forma clara de Violência Obstétrica.

Mas existe uma forma de Violência Obstétrica que é mais sutil, e que muitas vezes as mulheres que são vítimas não sabem reconhecer: fazer procedimentos médicos sem necessidade. Todo procedimento médico, todo medicamento que for administrado ao paciente durante a gestação ou o trabalho de parto deve ter uma indicação médica precisa, que deve ser explicada à gestante. A mulher deve ser informada dos possíveis riscos e efeitos colaterais a curto, médio e longo prazo que o procedimento ou medicamento pode acarretar, e deve sempre dar o seu consentimento livre e esclarecido previamente à intervenção.

Isso nem sempre acontece. No Brasil temos muitos relatos de procedimentos feitos de rotina, sem necessidade médica real e sem consentimento da mulher, como a aplicação de ocitocina sintética ( o "sorinho") para aumentar as contrações e o corte na vagina no momento em que o bebê está nascendo (a chamada episiotomia).

Existem procedimentos que são feitos hoje em dia no Brasil que a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que não sejam feitos nunca, como a Manobra de Kristeller, que é apertar a barriga da mulher para forçar a saída do bebê. Muitos dos procedimentos feitos com o bebê nos seus primeiros momentos de vida também não se justificam, e contrariam as recomendações do Ministério da Saúde, como separar mãe e bebê imediatamente após o parto, cortar o cordão umbilical imediatamente, aspirar as vias respiratórias de todos os bebês, deixar o bebê em observação separado de sua mãe e não estimular a amamentação na primeira hora de vida.

A cesariana é ela mesma uma intervenção médica de grande porte, é uma cirurgia onde são expostas as vísceras da paciente, e vários medicamentos são administrados. De acordo com a OMS, uma taxa de cesarianas acima de 15% não é medicamente justificável. Porém, no Brasil, temos mais de 50% de cesarianas. Isso significa que muitas cesarianas estão sendo feitas sem uma indicação médica real, o que as classificaria como Violência Obstétrica também.

A Violência Obstétrica leva à escolha pela cesariana. Há uma falta de opções no Brasil. Muitas vezes, são propostas para a mulher apenas duas alternativas: ou ela faz uma cesariana, que muitas vezes não tem uma indicação médica real e portanto constitui Violência Obstétrica, ou ela passa por um parto repleto de intervenções rotineiras desnecessárias, que também constituem Violência Obstétrica. Os ativistas pela Humanização do parto chamam este modelo de atendimento de "Parto Frankenstein": a mulher é internada sozinha, sem meios de se comunicar com sua família, fica sem comer nem beber durante toda a internação, fica deitada, não pode se movimentar, gemer, gritar ou chorar, sofre diversos procedimentos dolorosos e desnecessários, como toques vaginais frequentes e feitos por diferentes profissionais, ocitocina sintética para aumentar as contrações, rotura da bolsa, orientam-na a fazer força quando ela não sente vontade, cortam sua vagina, sobem em cima de sua barriga, e tudo isso muitas vezes vem acompanhado de comentários sarcásticos como "na hora de fazer, você não gritou, não é?".

O atendimento obstétrico padrão no Brasil ainda é muito marcado pela Violência Obstétrica. Apesar de termos políticas públicas, leis e portarias voltadas para um modelo de atendimento diferenciado, chamado de Humanizado, uma pesquisa feita em 2010 pela Fundação Perseu Abramo apontou que 1 em cada 4 mulheres brasileiras reconhece ter sofrido Violência Obstétrica durante seu pré-natal, parto e pós-parto imediato. Não é de se estranhar que a opção pela cesariana seja cada vez mais frequente entre as mulheres brasileiras: escolher entre um parto violento ou uma cesarea é não ter escolha alguma.

O que é o Parto Humanizado? O modelo de atendimento que chamamos de Humanizado no Brasil se baseia em três pilares principais:

1) a atuação baseada em evidências científicas atuais, prezando por um nascimento fisiológico e fazendo uso de intervenções de maneira pontual, apenas quando necessário;

2) a atuação em equipe multidisciplinar, onde cada membro da equipe tem suas atribuições próprias, cabendo ao Enfermeiro Obstétrico o acompanhamento do parto normal de risco habitual e ao Obstetra o acompanhamento das gestações e partos de alto risco, que requerem de suas habilidades específicas e

3) o protagonismo da paciente, que deve ser plenamente informada e participativa das decisões que envolvem a condução de seu parto e os cuidados com seu bebê.

No parto Humanizado, a mulher escolhe quem ela deseja que fique com ela durante o parto, escolhe as posições em que deseja ficar, escolhe se quer comer ou não, se quer água e quando, escolhe as melhores maneiras de aliviar sua dor, seja se movimentando, gemendo ou gritando, pode fazer uso de técnicas não farmacológicas de alívio da dor no parto, como o uso do chuveiro de água quente ou massagens, pode controlar a temperatura e luminosidade do ambiente, pode escolher quando deseja ou não deseja ser avaliada, pode escolher quando e em que intensidade deseja fazer força para colocar seu filho no mundo. No parto Humanizado, a mulher é respeitada. E o bebê também é respeitado: ele vai imediatamente para o colo da mãe e não é submetido a nenhum procedimento, a menos que haja uma real necessidade médica. Ele é estimulado a mamar ainda na primeira hora de vida e fica com sua família o tempo todo, sem interrupções, o que é comprovadamente melhor para seu desenvolvimento físico e psicológico.

O Parto Humanizado surge como uma alternativa ao parto normal tradicional, cujo modelo de atendimento está desatualizado e muitas vezes propicia situações de Violência Obstétrica. É também uma maneira de buscar diminuir as altas taxas de cesarianas do país, que são motivo de preocupação internacional.

Como fazer para não ser vítima de Violência Obstétrica? Em primeiro lugar, informe-se! Conheça seus direitos, os diferentes procedimentos obstétricos, as recomendações da OMS para o atendimento ao parto normal, frequente grupos de gestantes e entre em contato com profissionais humanizados. Também é aconselhável fazer um plano de parto, onde o casal detalha o que deseja e o que não deseja no seu parto, e entregar à equipe que vai acompanhar este momento. É muito bom ter uma Doula, que é uma profissional que orienta e dá suporte físico e emocional para o casal durante a gestação, o parto e o pós-parto, e que poderá ajudar o casal a encontrar profissionais e hospitais que já tenham adotado o modelo humanizado de atendimento ao parto.

Adèle Valarini é Doula e Educadora Perinatal e mora em Brasília.

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