OPINIÃO
03/02/2015 19:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Como, fugindo do machismo, eu virei escrava do capitalismo

AK Rockefeller/Flickr

Recentemente, a minha mulher livre interior se deparou com uma encruzilhada. Romântica que sou, eu sempre quis viver um grande amor, uma relação dessas de profunda troca e companheirismo. Dessas de vida inteira. Por outro lado, sempre busquei uma absoluta independência financeira. Assim eu protegia minha liberdade, afinal, nenhum homem poderia me comandar porque é dono da conta bancária. E amor só seria amor, a meu ver, se eu não estivesse acomodada pelas contas em comum que temos a pagar.

Sempre estive entre as alunas mais dedicadas da sala porque sabia que, mesmo sendo a melhor, o mercado ainda me trataria com desvantagens em relação aos homens. Estudei na USP, fiz pós graduação na UnB e cursos de extensão na New York University. Aos 29 anos, eu estava bem empregada em uma ONG internacional, com um salário que me permitia viver bem, livre, e ainda guardar um dinheirinho na poupança para garantir o futuro.

Foi o amor que veio questionar minha independência tão bem planejada. Há cinco anos eu sou perdidamente apaixonada por um talentoso jornalista da BBC que hoje tenho a alegria de ter como companheiro. Acontece que, enquanto eu dava voltas com meus sonhos, decidindo o que de fato eu queria pra valer, ele não só descobriu o objetivo dele como o alcançou. Aos 29, ele estava oficialmente convidado para ser correspondente internacional em Washington DC.

Celebrei a vitória dele como se fosse minha - afinal, é isso que a gente faz quando ama. Estava tão bêbada com nossa alegria que só fui perceber o que isso significava pra mim um mês antes da nossa mudança, quando recebi o meu visto na mão. O documento exibia um "spouse" bem grande e deixava claro que eu era dependente do meu marido. Dependente. Fiquei às voltas com aquela palavra.

A dependência significaria mil coisas pra mim nos próximos dois anos. Para começar, signifcaria que eu não poderia morar no país se ele desistisse do trabalho. Depois, que eu dependeria financeiramente dele, já que meu visto proibia que eu fosse remunerada por qualquer tipo de trabalho enquanto estivesse em território americano.

Já nas primeiras semanas gringas eu senti o peso dessa dependência quando tive que perguntar a ele se tudo bem se eu comprasse uma jaqueta nova. Desde os 14 anos eu trabalhei e sempre me acostumei a fazer o que meu dinheiro permitia. Detestava pedir coisas ao meu pai, a quem amo profundamente apesar de ser um homem bastante tradicional, porque sabia que isso serviria, mais tarde, de argumento para que ele me exigisse obediência.

Minha surpresa é que meu companheiro levou muito bem a jaqueta e todo o resto. Jamais chegou em casa perguntando com que eu gastei aqueles 20 dolares. Ele tratou a questão da maneira mais justa e amorosa que se podia tratar: o dinheiro era nosso e ele confiava em como eu decidiria gastá-lo. Grandes despesas eram discutidas, já que estávamos mais pobres, mas eu tinha o mesmo peso que ele na tomada das decisões. Aquele dinheiro, afinal. Era nosso.

Foi ai que descobri o conceito de renda negativa e positiva. Isso significa que ele ganha o salário (renda positiva) e eu evito gastos ao fazer diversos trabalhos que antes pagávamos pra alguém fazer, como cozinhar, fazer faxina, pintar a casa, consertar móveis quebrados, declarar o imposto de renda e etc (renda negativa). Quem sabe, afinal, a metade do salário dele (ou quase isso) não seja mesmo economizada pelo fato de eu estar aqui.

Além do mais, eu percebi, eu não era mais livre quando trabalhava. Eu obedecia a meus chefes, a alguns colegas de trabalho, ao relógio, ao stress e a uma série de outras coisas. Eu não tinha tido tempo para concluir meu livro - o que fiz na primeira semana de "dona de casa". Eu não tinha tempo de aperfeiçoar o roteiro do filme para o qual ganhei um edital. Eu não tinha tempo de fazer meu papanicolau anual, de ir à academia com a frequência que gostaria, de ficar à toa comigo.

Na verdade, o que eu chamava de liberdade do machismo era uma escravidão ao capitalismo - um capitalimso que também é machista e exige mais das mulheres do que dos homens. O machismo me vendeu a mentira de que ser escrava de um patrão era melhor que ser escrava de um marido e eu acreditei nisso.

Claro que o ideal é ser escrava de ninguém. E o que nos faz, então mulheres livres de mercado e de marido? Claro que o dinheiro faz parte, já que temos que comer e estamos inseridas nesse sistema. Mas autoestima e confiança de se reinventar são bem mais importantes. Ter a liberdade de dizer chega ao contrato e me dedicar aos trabalhos criativos que não me pagariam tão bem, mas satisfariam a minha alma, da mesma maneira que eu teria a liberdade de dizer adeus com prazer a um parceiro que me agredisse.

No fundo eu também percebi que eu desenvolvera um desrespeito profundo pelas tarefas das donas de casa. E isso, acredite se quiser, era um tipo de machismo que eu havia interiorizado. Eu aprendera que bonito era ser como meu pai, sair de terno de manhã e voltar espremido e com dinheiro no bolso à noite. Que ser que nem minha mãe, que sempre manteve não só a casa deliciosa de se viver, mas organizou trabalhos sociais para ajudar diversas pessoas da comunidade simples em que cresci, era algo pequeno e insignificante.

Eu, no fundo, não estava sendo feminista, eu estava sendo o pior tipo de capitalista, aquele tipo que dá valor às pessoas por suas contas bancárias e liberdade de comprar jaquetas novas a cada inverno.

O feminismo de verdade valoriza todos os tipos de ofício, desde que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades e apreciação em cada um deles. Eu me lembro que, de pequena, duas grandes amigas minhas tinham um pai que cuidava da casa enquanto a mãe trabalhava fora. Eu achava isso lindo. E por que não era lindo também o que a minha mãe fazia?

Claro que estamos vivendo uma realidade em que ser dono ou dona de casa não cabe mais no orçamento da maioria das famílias e que todo mundo deveria ter alguma fonte de renda para imprevistos, principalmente as mulheres, que não devem jamais acreditar que seu homem está imune ao machismo (não, ninguém está). Mas acho que o que esses dois meses de trabalho forçado como dona de casa e escritora-não-remunerada me mostraram é que a liberdade das mulheres cruza uma série de outras liberdades e é engano analisá-las só como se fossem coisas de marido e mulher. Cruzam a economia em que estamos inseridas, por exemplo.

E o amor, claro, me fez livre e escrava de diversas maneiras, mas acho que tudo bem, com ele também é assim. E os poetas diriam que ser escravo do amor em alguma medida é bom. Quando isso passar talvez será minha vez de sustentar meu companheiro para que ele faça um mestrado - ele afirma estar ansioso para tal.

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