OPINIÃO
09/10/2015 20:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Club Noir comemora dez anos com 'O Balcão' e planeja montar 'Leite Derramado, de Chico Buarque

Criado com o intuito de montar apenas textos contemporâneos -- nacionais ou estrangeiros --, o Club Noir marca sua primeira década justamente com um texto escrito em 1956.

Quando questionado sobre o futuro do Club Noir, o diretor da companhia, Roberto Alvim, responde com a última fala de Sylvester Stallone em Rambo II - A Missão: "Day by day". Por enquanto, o encenador só tem como certa a estreia de Fantasmas, de Henrik Ibsen, em novembro, e de O Balcão, de Jean Genet, nesta sexta-feira, em comemoração aos dez anos da companhia.

Criada com o intuito de montar apenas textos contemporâneos -- nacionais ou estrangeiros --, a companhia marca sua primeira década justamente com um texto escrito em 1956. "É uma obra contemporânea, urgente a ser vista hoje", afirma Alvim. No enredo, representantes das principais instituições de poder da sociedade, como a igreja, o tribunal, o exército e a polícia, têm seu mecanismo cruel revelado por meio de jogos eróticos, tema recorrente nas obras de Genet.

O Balcão teve uma marcante montagem em 1969, assinada pelo diretor franco-argentino Victor Garcia com temporada no teatro Ruth Escobar, remodelando a arquitetura do local (veja vídeo abaixo). "Assim como aconteceu com o Macunaíma, de Antunes Filho, e com O Rei da Vela, de José Celso Martinez Corrêa, o peso d'O Balcão foi tanto que ninguém mais voltou a montar a peça", aponta Alvim.

A montagem do texto após quase 50 anos foi um dos fatores que motivaram sua escolha. Para o encenador, as peças marcantes criam uma imagem nítida do que seria a poética de um dramaturgo, dificultando o surgimento de outros pontos de vista. "É difícil, por exemplo, pensar em (Samuel) Beckett de outro jeito que não o de Gerald Thomas", diz. "Mas outras abordagens são possíveis e até necessárias para revivificar os autores."

O Balcão de Alvim não se aproxima daquele de Garcia. A nova versão segue os preceitos que marcam a linguagem do Club Noir: uma peça mais concisa, com uma luz que torna o ambiente mais escuro, os movimentos do elenco são limitados e há um trabalho de voz que permite um jogo com volumes e texturas.

Próximos atos

Apesar de afirmar viver dia após dia, Alvim tem planos para o futuro próximo do Club Noir. Com previsão de estreia para março de 2016, ele deve encenar Leite Derramado, texto de Chico Buarque para o qual vem se preparando há anos. "Terminei a adaptação para a peça há duas semanas e começamos a ensaiar no dia 10 de novembro", conta, afirmando não ter, ainda, um elenco selecionado e revelando estar programada uma turnê por algumas unidades do Sesc e, posteriormente, pela Europa.

Uma passagem por Londres, porém, está prevista para antes da estreia de Leite Derramado. O Club Noir foi convidado para apresentar "Caesar", no Globe Theatre, na capital inglesa. A ideia é que as apresentações sejam feitas em janeiro, quando o espaço abre a programação para espetáculos estrangeiros. A montagem, que tem no elenco os atores Caco Ciocler e Carmo Dalla Vecchia, também deve passar pela réplica mineira da casa britânica, a ser inaugurada na Grande Belo Horizonte.

Histórico

Idealizado a partir da parceria de Alvim com a atriz Juliana Galdino, o Club Noir estreou sua primeira peça, Anátema, em 2006. Na época, a linguagem utilizada nas montagens do grupo não era a de luz baixa, que acabou marcando seus espetáculos. "Estávamos ensaiando em uma galeria de arte quando a luz do quarteirão inteiro caiu e fizemos o ensaio apenas com a luz de emergência", lembra o diretor, explicando que a ideia de usar este tipo de luz veio deste episódio, quando percebeu o desenho tênue que a tal luz formava nas figuras em cena. O nome Noir viera bem antes, em uma referência à literatura noir de Edgar Allan Poe. "De certa forma, o futuro influencia o passado."

Entre os grandes feitos da companhia, está o projeto Peep Classic Ésquilo, conjunto de sete tragédias de Ésquilo que teve grande sucesso de público e crítica em 2012. Concomitantemente, montou oito textos de dramaturgos brasileiros contemporâneos. "Fizemos as primeiras e últimas obras do teatro neste período", diz. "Foi um momento em que derrubamos por terra uma série de aparentes impossibilidades e vimos que somos capazes de muito mais do que imaginamos. A potência é infinita."

Serviço

O Balcão

Club Noir. Rua Augusta, 331, Consolação, 2309-7271

6ª, 21h; sáb., 19h e 21h; dom., 20h

R$ 20. 60 min. 14 anos.

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