OPINIÃO
09/03/2015 15:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Sobre panelaços e outras histerias coletivas

Amigona/ão: cê pode votar em quem cê quiser. Cê pode xingar os políticos. Cê pode ir às ruas dia 15. Cê só não deve esquecer que eu/minha mãe / seu vizinho / quem mais for temos os mesmos direitos. Cê pode se expressar como quiser. Cê só não deve esquecer que discurso de ódio é crime. Que preconceito é crime. Que pra toda ação tem reação.

REUTERS/Ueslei Marcelino

"Você tem todo o direito de se irritar, mas lhe peço paciência". Dilma falava isso enquanto uma carreata buzinatória se formava nas avenidas boulevares de Águas Claras, reduto da new-high-society de Brasília (já falo mais sobre o bairro). Movidos por aquele sentimento de pertencimento e coletividade que é próprio dos momentos de frenesí, moradores, aos montes, puseram-se às sacadas para "calar" a presidenta.

Saraivadas de "vaca" e "vagabunda" eram ouvidas em alto e bom som - e em péssimo tom. Que gentileza, no Dia Internacional da Mulher! Imagino que 85% daqueles que emitiram as mais gentis palavras possíveis de serem dirigidas à Dilma estivessem, horas antes, a elogiar as mulheres no Facebook. Existe licença poética na hora de se xingar uma autoridade? Tem sim, é claro: autoridade tá aí é passível de ser xingada mesmo - e se há autoridade que não saiba disso, é porque sabe de nada, inocente - WASHINGTON, Cumpade. Há, no entanto, um problema quanto à qualidade desses xingamentos.

Imediatamente a "lacração da presidenta" ia pro Feice, continuando o sarro próprio das redes sociais. E, novamente, brigas em grupos facebookianos. PAUSA: juro que esse blog não vai ser só sobre brigas no Face, pelamor. PLAY: no "Moradores de Águas Claras", um opositor raivoso do panelaço foi bradar contra os coxinhas, dizer que eram todos imbecis acéfalos. De resposta: "ah é, xingar Aécio de cheirador pode, né?". Pronto, Fla x Flu eleitoral again. Que saco...

Vamos à questão da qualidade do xingamento então: numa suposição de termos Aécio na presidência, também lidando com uma grande insatisfação popular, também com os atuais problemas e com o povo também tendo resolvido usar da legitimidade democrática da livre manifestação. Quais seriam os xingamentos? "Calhorda", "Canalha", "Cheirador", "Filho da Puta", "Idiota". Por aí, não?

Dilma, segundo os moradores de Águas Claras, era "vaca", "vagabunda", "piranha", "puta". Percebeu? Quaisquer xingamentos à Dilma diminuem ou reduzem a condição da presidenta pelo fato de ela ter nascido mulher. Quaisquer xingamentos a Aécio na minha suposição só seriam avaliações de caráter, e na única hipótese de menção a uma mulher, também haveria redução de sua condição. Ele não seria a puta, e sim o filho dela - aqui citada de forma pejorativa. Percebeu como o ataque à Dilma #contémmachismo e não é meramente relacionado à sua ação política? Percebeu como não há nenhuma possibilidade contrária para meu caso hipotético?

Esse Fla x Flu de uma eleição que parece que nunca ocorreu assumiu, neste final de semana, contornos sérios de intolerância e de sexismo, com toques de racismo, afinal, tudo isso anda mei que junto. A vítima, dessa vez, foi uma amiga, a jornalista Ana Elisa Santana.

Uma página do Facebook, "Humans of PT", se dispõe a zoar quem tenha declarado voto em Dilma. Sob este prisma, quem votou em Dilma é automaticamente convertido em petralha. E a partir de memes com postagens "contraditórias", os seguidores promovem escrachos a essas pessoas. Em 14 de outubro, Ana tuitou contra uma declaração do então candidato à presidência pelo PSDB, que dizia que a mulher deveria ter salário 'próximo' ao do homem. Em 10 de novembro, ela tuitava: "Tá de brincadeira essa cotação do dólar, hein?".

O meme disponibilizou a foto da Ana, os prints dos tuítes como se fossem contraditórios, e a legenda "não voto em homem que bate em mulher". Oi?

Aí vem o espaço de comentários... Que tal ler que "dou-lhe uma na cara, vagabunda", "feminazi com cara de sujinha, falta pente em casa", "puta"? Das respostas genéricas, três com tema semelhante a esta: "mulher quer salário igual, mas quer aposentar antes. Tá 'serto' (sic)". Claro que não foram mulheres que escreveram isso e os fi aí são tudo fi de chocadeira e são daqueles que tem bem uns três fí e que além de trabalhar fora, cuidam da casa e dos fí, e ainda conseguem um tempinho pra cuidar do corpo pra não embarangar pras esposa, né?

Amigona/ão: cê pode votar em quem cê quiser. Cê pode xingar os políticos. Cê pode ir às ruas dia 15. Cê só não deve esquecer que eu/minha mãe / seu vizinho / quem mais for temos os mesmos direitos. Cê pode se expressar como quiser. Cê só não deve esquecer que discurso de ódio é crime. Que preconceito é crime. Que pra toda ação tem reação.

Morei oito anos em Águas Claras. É o maior canteiro de obras da América Latina. Uma cidade inventada pra ser vertical numa Brasília quase toda horizontal. Um lugar que tem ficado chiquezinho com o tempo. Logo, tipicamente classe média. Minha família mora lá e era onde eu tava, na hora do brado retumbante do panelaço. E, pelo menos ali, digo: foi dos protestos mais burros que já presenciei.

É que o exercício da crítica não pode partir do pressuposto de que eu tô certo e você está errado(a). Pra criticar, ouça. Querer calar sem deixar o 'oponente' falar se chama autoritarismo. Quem batia panela não tinha resposta para o que Dilma colocava no pronunciamento. Eram todos contra a Lei do Feminicídio, por exemplo? Este era um dos temas... mas quem buzinava, não ouviu.

Horas antes, a presidenta compartilhou no Facebook a resposta da Ana àqueles que agora a xingam. Novas muitas respostas. De gente que não leu quase nada do texto porque "ah, é um textão, que preguiça". Então vou resumir o textão numa só frase: "sua opinião diferente não diz nada sobre seu caráter. O comportamento que você tem diante de uma opinião diferente, este sim, diz muito".

Mas eu não espero que os preguiçosos de ler o texto dela tenham chegado até aqui. Esse também é um textão.

Às mulheres, neste 08 de março, pedi desculpas. E Ana, #tamojunto