OPINIÃO
05/03/2015 18:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Jornalismo 2.0 e a censura nossa de cada dia

Yes. Jovens jornalistas achando tranquilex que o texto de outrém seja apagado - numa relax, numa tranquila, numa boua. Nem pra colocarem uma receitchenha de cocheenha no lugar... Respondi que a censura no país era lei. Não deu outra: iniciou-se outra longa discussão... Amigos, colegas, conhecidos, conhecidos apenas de nome, desconhecidos e eu mesmo estávamos lá, em poucos minutos, nos digladiando.

funadium/Flickr
The way I would read the newspaper.Il modo in cui vorrei leggere il giornale.

O Facebook é mesmo um lugar sensacional: ampla liberdade de discussão, debate, melindre, troll, meme, mimimi e muitas - muitas - risadas. Um boteco virtual à palma da mão, 24 horas por dia, que nos acompanha no expediente, no boteco real, no banheiro, no sono, no after sex... Na vida, anfam. E no afã de criar/manter vínculos, pessoas e seus perfis se organizam em grupos, like the real life.

Aconteceu em Brasília, semana passada. Após receber, pelo quinto dia consecutivo, um mesmo currículo de outro(a) jornalista da cidade via lista de e-mails corporativos (tipo redacao@minhaempresa.com.br), me compadeci. Percebendo o desespero do(a) colega desempregado(a), lembrando de meus dias de sufoco sem emprego e querendo ser altruísta, tomei uma atitude. Fui lá no grupo dos meus pares - o "Jornalistas de Brasília" - e escrevi três dicas básicas para quem tá fora do mercado de trabalho ter mais chances de entrar...

#DICA1: Colega, evite essa história de mandar CVs pra redacao@minhaempresa.com.br. Dificilmente o empregador (pelo menos o empegador de jornalistas) vai receber ou se interessar por aquilo. E nós não somos tão Paulos Bettis da vida real, mas o pequeno curare que nos impulsiona a escolhermos essa carreira faz de nós uma raça desgramenta que curte muito abrir o currículo-anexo-alheio-nas-nossas-caixas só pra curiar: formatação tá boa? Quem é o fi ou a fia?

#DICA2: Colega, evite mandar aqui pra minha empresa. Trata-se de uma empresa pública, onde não há contratação de temporários, coberturas de férias ou jeitinho brasileiro de entrar pela janela. Aliás, nem disse isso naquele post, mas é mei que básico: conheça um pouco da empresa em que pretende trabalhar. E aqui na minha, só via concurso - e sim, há os contratados de livre provimento, mas que obviamente não foram escolhidos em currículo por e-mail.

#DICA3: Junte as dicas 1 e 2 e + essa: esquece aquela história de "quem não é visto não é lembrado". Pelo menos no mundo virtual. Ficar mandando currículo pras redações de uma empresa pública todos os dias só vai irritar seus colegas, não garantirá sua contratação. Beijas!

Antes eu estivesse respondendo ao desafio do balde de gelo pra ajudar a quem tem esclerose lateral amiotrófica, viu? Pelo menos o banho d'água fria que tomei seria para algo de bom. Imediatamente, vários colegas começaram a trollar:

- Você disfarça de boa intenção sua vontade de humilhar quem não tem emprego!

- Eu não sou "raça desgramenta". Você que é!

- Você se sente um deus: se irrita até com a porta batendo!

- Você é antiético! Abre currículo duzôto pra zombar (dentro de empresa pública)!

- Você não tem passado e esquece que já esteve nessa situação!

- Você desrespeita quem só quer uma vaguinha!

Vou nem entrar no mérito das longuíssimas discussões com réplicas, tréplicas, quatréplicas e enéplicas que isso gerou... Dia seguinte, uma amiga foi lá procurar pelo post pra contribuir com o debate - que, mesmo sob essa saraivada de insanidades acusatórias, mantinha-se em bom nível - e... Cadê Zazá?

Como a dona Doida de Fernanda Montenegro, o post sumiu. Foi apagado. Por jornalistas. Os donos da comunidade. Tsc tsc tsc... Acontece que #meupostminhavida, eu #queromeupostdevolta e aí a fia-administradoura-da-comuna responde: "apagamo merrmo, tarra muito polêmico e aqui a gente se trata a pan-de-ló". Fiz aquela cara de #olhaakikiridinha e respondi que entendia aquilo como censura.

"Censura? Magina, benhê! Normal isso aew, toda sociedade tem suas leis".

Yes. Jovens jornalistas achando tranquilex que o texto de outrém seja apagado - numa relax, numa tranquila, numa boua. Nem pra colocarem uma receitchenha de cocheenha no lugar... Respondi que a censura no país era lei. Não deu outra: iniciou-se outra longa discussão... Amigos, colegas, conhecidos, conhecidos apenas de nome, desconhecidos e eu mesmo estávamos lá, em poucos minutos, nos digladiando.

A primeira Paola Oliveira, ou melhor, um conhecido jornalista brasiliense resolveu vazar dali. Uai, de onde a gente não é bem-vindo, a gente tira o cavalo da chuva, né não? Vazei too. Bem como uma amiga, que não só ralou feito uma mandada, como abriu outra comuna porque, né, a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e um grupo no Feice. Inexplicavelmente, iniciou-se, naquela velha comunidade, um movimento de ame-a ou deixe-a.

Sim. Colegas. Expulsaram. Colegas.

Jornalistas. Expulsaram. Jornalistas.

Uma amiga escreveu lá: "Tchau, I have to go now", citando E MIL E UMA NOITES, Jammil. Foi expulsa. E, assim, um sem-número de amigos, colegas, conhecidos, conhecidos-apenas-de-nome, desconhecidos e eu mesmo éramos deportados para uma nova comunidade.

O novo ambiente nasceu profuso de ideias e inspirações quase poéticas, como tudo que ocorre a partir da catarse. A fia-administradoura-da-comuna-velha resolve me mandar 1 e-meiow com explicações-super-plausíveis-para-o-que-ocorreu. Leia no link. Tire suas conclusões.

É assim que parcela da nossa sociedade pensa. Discordâncias devem ser evitadas. Debate bom é debate morto. Se não tá comigo, tá contra mim. Ame-me ou deixe-me. Censura não: sociedade com regras. Não pode falar palavrão. Não pode se expressar livremente.

Mas quando pensamentos assim atingem mentes e corações de jornalistas, com seu amplo histórico de sangue derramado há nem tanto tempo para que se conquistasse a tão propalada liberdade de expressão, a coisa fica bem mais feia. De dar medo. De arrepiar.