OPINIÃO
25/08/2014 20:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Sobre a barbárie, o Estado Islâmico e o fim do Ocidente

Em 1969, o teórico Marshall McLuhan previa o fim do Ocidente. A existência do homem voltaria a estar associada ao coletivo, como nas tribos ancestrais. A diferença é que a tribo agora é global.

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GAZA CITY, GAZA - AUGUST 24: Palestinians carry the dead bodies of five members of Juda family, killed in Israeli shelling of their house at Jabalya town, Gaza Strip during the funeral ceremony on Sunday, August 24, 2014. Since hostilities began on July 7, at least 2120 Palestinians have been killed the vast majority of them civilians and more than 10,600 injured by Israeli attacks across the Gaza Strip. (Photo by Mustafa Hassona/Anadolu Agency/Getty Images)

Em 1969, o teórico Marshall McLuhan concedeu uma entrevista à Playboy na qual esclareceu, de forma menos enigmática, sobre seus livros e suas ideias a respeito da influência dos meios de comunicação para a humanidade. Uma de suas ideias-chave é que os meios elétricos (começando pelo telégrafo, passando por rádio, cinema, TV e chegando aos computadores) estão conduzindo o homem a uma volta ao caráter tribal da existência - que era regra antes da invenção da imprensa por Gutemberg.

Para McLuhan, os meios elétricos funcionam como extensões do homem, ampliando o seu sistema nervoso e o conectando ao restante da humanidade devido as suas características interativas. Isso vai levar, dizia McLuhan, ao fim do individualismo. A existência do homem voltaria a estar associada ao coletivo, como nas tribos ancestrais. A diferença é que a tribo agora é global. McLuhan falava de TV, mas hoje pensamos nos computadores e, especificamente, na internet.

O que McLuhan previa com o fim do individualismo era, em resumo, o fim do Ocidente.

Atualmente, nada me remete mais ao oposto do que representa o Ocidente e, consequentemente, o fim de todos os seus valores, do que o Estado Islâmico (EI), a organização terrorista que controla parte da Síria e do Iraque e causou ojeriza no mundo ao divulgar o vídeo da decapitação do jornalista americano James Foley.

O que por sua vez me remete ao texto publicado no site "Al Monitor", especializado na cobertura do Oriente Médio, sobre a estratégia de redes sociais do EI. O autor, o jornalista Ali Hashem, analisa os métodos da instituição cuja eficiência vem preocupando autoridades ocidentais. Ele mostra como funciona um núcleo de mídia cujas mensagens são divulgadas por milhares de perfis: um organismo descentralizado com o poder de assustar o mundo e de recrutar novos integrantes.

Em uma entrevista à Folha de S.Paulo deste domingo, o pesquisador Shiraz Maher, membro do Centro Internacional de Estudos de Radicalização do King's College, em Londres, ratifica o poder que as mídias sociais desempenham na convergência a uma espécie de consciência comum por parte de extremistas do EI e seus potenciais recrutas. Uma sensação de pertencimento que transcende fronteiras e é capaz de substituir a condição de sujeito civilizado por um ideal coletivo baseado na barbárie. "A mídia social humaniza os combatentes. Antes você lia sobre o Iêmen, mas não sabia muito, era um mistério. Agora, esse jovem pode mandar uma mensagem de Manchester e pensar: ele é como eu. Isso é muito poderoso", disse Maher.

Em outro texto do Al Monitor, o analista político Ben Caspit ouviu anonimamente várias autoridades israelenses a respeito da mais recente onda de instabilidade que afeta o Oriente Médio. Enfatizando a posição israelense em meio à vizinhança conturbada, todos os entrevistados concordam que Estados Unidos e Europa ainda não acordaram para o perigo representado pelo EI. "Queridos amigos na Europa, quem sabe até mesmo nos Estados Unidos, preparem-se para o retorno desses cidadãos para casa", disse um dos entrevistados em referência ao fluxo de jovens saindo de países europeus para juntarem-se às fileiras do EI.

Ou seja, o EI não está apenas nos territórios da Síria e do Iraque, e sim em todo o lugar. Ao que tudo indica chegou aos portões da Casa Branca e chegará onde houver um jovem conectado à consciência comum à qual me referi. Consciência que toma o lugar do individualismo intrinsecamente relacionado à organização ocidental e sua necessidade de vender seus valores como sendo ideais universais.

Jon Lee Anderson, em um texto publicado na "New Yorker" sobre Foley, lembrou do assassinato brutal do soldado Lee Rigby por dois britânicos convertidos ao Islã, no ano passado. Eles atacaram Rigby na rua usando um machete, em plena luz do dia, nos subúrbios de Londres. "A brutalidade está aí. Livres e encorajadas a matar e horrorizar, muitas pessoas parecem dispostas a agir assim, mesmo que tenham sido criadas em democracias ocidentais", escreveu Anderson.

No fim do texto, o jornalista fala de uma conversa que teve com um político cujo filho - que nasceu e cresceu na Finlândia - partiu para a Síria para se juntar ao EI. O pai mostrou a Anderson um vídeo recente em que o filho, usando um turbante negro e montado em um cavalo, diz que "a lei da sharia vai cair sobre a Finlândia". Então, Anderson pergunta a opinião do político sobre o EI e o que seu filho está fazendo. Ele levanta as mãos para o céus e diz: "Eles são os novos bárbaros".

No fim da longa entrevista, McLuhan, perguntado sobre qual era a opinião dele a respeito das previsões que fazia, disse ser um tanto avesso a mudanças. Preferia as coisas como estavam. Mas procurava ser otimista: "Tenho uma fé profunda no potencial do homem para crescer e aprender, para sondar as profundidades do seu próprio ser e aprender as canções secretas que orquestram o universo. Vivemos em uma era transitória de dor profunda e indagação trágica de nossa identidade, mas a agonia de nossa era é a dor que implica em renascimento".

Espero que McLuhan esteja certo.

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