OPINIÃO
14/07/2014 10:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Por que relatos sobre o cotidiano de jovens israelenses e palestinos ajudam a entender o conflito

MOHAMMED ABED via Getty Images
Newlywed Tala, 14, has her headscarf adjusted by her 15-year-old husband Ahmed Soboh, at their home four days after their wedding in the northern Gaza Strip town of Beit Lahia, near the border with Israel on September 28, 2013. The young couple live in the family's three-room home, sharing it with nine other relatives. Ahmed works with his father as a road cleaner earning $5 (US dollars) per day. AFP PHOTO / MOHAMMED ABED (Photo credit should read MOHAMMED ABED/AFP/Getty Images)

Poucas narrativas jornalísticas são tão eficientes para tentar dar conta da complexidade de um contexto como os relatos cotidianos. Ao saber como o dia-a-dia das pessoas é afetado durante um conflito, por exemplo, podemos compará-lo ao nosso, estabelecer relações com a nossa própria vida e criar nexos que as notícias essencialmente hard news não são, em geral, capazes de nos proporcionar.

Um dos contextos mais complexos da geopolítica global é a coexistência tensa entre israelenses e palestinos. A mais recente rusga entre os dois, causada pelo sequestro e assassinato de três jovens judeus e depois de um palestino, parece ratificar uma impressão de que cada novo conflito faz parte de uma agenda de encontros previamente marcados para que ambos os lados se certifiquem de que ódio e intolerância alimentados há muitos anos permaneçam vivos nos dois povos.

Desde sempre os que mais sofrem com a falta de paz, jovens estão ainda mais no centro da atual tensão. Enquanto os palestinos contam dezenas de menores mortos pelos ataques israelenses, a revista Foreign Policy chamou o conflito de "Revolta dos Adolescentes", em função do envolvimento de jovens nos confrontos.

Mas o que significa ser jovem em Gaza, Israel ou Cisjordânia? Que implicações uma vida marcada por confrontos periódicos pode ter em uma população tão jovem? (A média de idade nos três lugares é de 18,2, 29,9 e 22,4 anos, respectivamente.)

No dia 9, a revista americana The Atlantic publicou em seu site um reportagem intitulada "The Next Generation of Israeli-Palestinian Conflict" (A próxima geração do conflito israelo-palestino, na tradução para o português). No texto, o jornalista Jeff Moskowitz se pergunta como os amigos e colegas dos israelenses Gilad Shaar, Eyal Yifrach e Naftali Fraenkel e do palestino Mohamed Abu Khdeir vão exercer a liderança quando a atual geração de governantes sair de cena.

Moskowitz ouviu jovens israelenses e palestinos e constatou que enquanto estes estão cansados dos atuais partidos e têm certa confiança de que sua geração exercerá uma melhor liderança, aqueles estão cada vez mais inclinados à extrema-direita.

Mas o que me chamou a atenção mesmo foi quando os entrevistados, ao relatarem como são seus cotidianos, disseram que jovens israelenses e palestinos se falam cada vez menos. Alguns, dizem, nunca conheceram alguém "do outro lado".

Diz o israelense Idan Maor, 25 anos:

Antes da primeira Intifada, ir à praia em Gaza era muito comum. Você conhecia pessoas, conhecia o outro lado. Eles eram mais humanizados. Agora é fácil demonizar o outro lado porque você não os conhece. Você não os vê. Realmente não é seguro para israelenses ir a Gaza ou à Cisjordânia, então como vamos conhecê-los?

Diz a palestina Niven Latiff, 23 anos, que só teve a oportunidade de conhecer israelenses durante um intercâmbio em Paris:

Havia israelenses e foi a primeira vez que eu os conheci. Nós conversamos bastante sobre o conflito e inclusive nos tornamos amigos. A maioria das pessoas [na Cisjordânia] nunca conheceu um israelense.

A impossibilidade de algo tão banal quanto conhecer o vizinho expõe um cotidiano afetado por um ódio histórico que afasta. Ao mesmo tempo, os relatos, por serem parecidos, convergem para uma obviedade que aproxima. Idan e Niven são antes de tudo jovens. Estar em lados diferentes do conflito não tira de ambos semelhanças com jovens de qualquer outra nacionalidade. É como disse Raja Shehadeh em um texto publicado na revista New Yorker sobre o assassinato de Mohamed Abu Khdeir:

A mídia foi inundada por imagens dos jovens israelenses e, depois, de Abu Khdeir. Se você tirar o boné de beisebol que Abu usava e os quipás de Fraenkel e Yifrach, você não seria capaz de, ao olhar para seus rostos jovens e puros, diferenciar quem era israelense e quem era palestino.

A simplicidade das falas dos jovens contrasta com a complexidade do contexto. Ao mesmo tempo, o coloca mais próximo da vida cotidiana, tornando-o um pouco menos complexo. Ou seja, através dos relatos dos jovens israelense e palestino somos capazes de entender um pouco melhor como são as suas vidas e, comparando as deles com a nossa, compreender minimamente o contexto no qual estão inseridos.

Dai a importância de ler relatos como os de Idan e Niven. Pois o mundo é por demais complexo para ser explicado no lead (primeiro parágrafo) de uma notícia.

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