OPINIÃO
03/09/2014 19:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

Chegou a hora de trazer Assad de volta à mesa de negociações?

Getty Images
WASHINGTON, DC - AUGUST 28: U.S. President Barack Obama pauses as he makes a statement at the James Brady Press Briefing Room of the White House August 28, 2014 in Washington, DC. President Obama spoke on various topics including possible action against ISIL and immigration reform. (Photo by Alex Wong/Getty Images)

Nós estamos sendo claros com o regime de Assad, mas também com as outras partes que atuam em solo sírio, que uma linha vermelha para nós é quando começamos a observar a movimentação ou utilização de armas químicas. Isso muda o meu cálculo. Isso muda a minha equação.

Barack Obama

Obama disse a frase acima em agosto de 2012, dias depois do ataque com armas químicas nos subúrbios da cidade de Goutha. Aquele foi o momento em que o Ocidente chegou mais perto de intervir na Síria. A ação militar não foi adiante, no fim das contas, porque a opinião pública norte-americana (e a dos seus aliados) segue avessa a guerras depois dos longos anos de conflito no Iraque e no Afeganistão.

De lá para cá, sabemos o que aconteceu. Os rebeldes moderados perderam terreno na Síria (hoje estão prestes a perder sua principal cidade, Aleppo), Assad segue firme em Damasco e a insurgência do Estado Isâmico (EI) ganhou terreno ao se aproveitar das fragilidades do Estado iraquiano e do vácuo de poder em parte do território sírio.

Em dois anos, o EI se consolidou como a mais nova ameaça ao Ocidente, renovando a motivação pela jihad, que parecia enfraquecida depois da morte de Osama bin Laden, e fazendo convergir para o Oriente simpatizantes da causa espalhados pelo mundo.

A maioria se estabelece em Raqqa, cidade síria de 500 mil habitantes considerada pelo EI sua capital e até pouco tempo atrás tida como um diversificado centro comercial. Hoje tem suas ruas patrulhadas por homens vestidos de preto cuja tarefa é garantir que a lei islâmica seja cumprida. Quem desobedecer pode ser morto e ter seu corpo pendurado em uma cruz. Recentemente, segundo a agência AP, o EI impôs seu próprio currículo nas escolas, banindo disciplinas como filosofia e química.

Após meses de hesitação que se mostraram fundamentais para a cristalização do EI como um "câncer" no coração do Oriente Médio, os Estados Unidos decidiram bombardear posições dos extremistas no Iraque, fazendo-os recuar quando ao norte ameaçavam os curdos e ao sul enxergavam as portas de Bagdá.

Mas e agora? O que os Estados Unidos farão para combater o EI dentro da Síria?

Ainda segundo a agência AP, Assad vem diminuindo as investidas contra os extremistas em seu próprio território. É como se Assad dissesse para Obama: "Se você não cooperar comigo, vou deixar este câncer se entranhar ainda mais em solo sírio". Damasco disse que não vai tolerar qualquer ação em seu espaço aéreo, mas vem dando sinais de que poderia ser um aliado de Washington na contenção do EI.

Na semana passada, Richard Hasss, o presidente do Council on Foreign Relations, escreveu um artigo no Financial Times (paywall) analisando as opções que os Estados Unidos e seus aliados têm atualmente para combater o EI. Uma delas é negociar com Assad. Não é a mais atrativa, mas, como ele diz, a realidade é que "o regime de Assad pode ser perverso - mas é menos perverso que o Estado Islâmico".

Mas Obama ainda não definiu uma estratégia para combater os extremistas em solo na Síria. Assad, por sua vez, tenta conter as investidas do EI a áreas dominadas pelo regime enquanto espera a oportunidade para ser chamado à mesa de negociações, obtendo novamente o respaldo da comunidade internacional apenas dois anos depois cruzar a linha vermelha traçada por Obama.

O negócio é aguardar o próximo movimento das peças do complexo xadrez do Oriente Médio. Por enquanto, as únicas coisas que sabemos é que o mundo dá voltas e que uma situação que está ruim sempre pode piorar.

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