OPINIÃO
25/09/2015 16:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Sobre a Catalunha e a ilusão da independência

Neste domingo, 5,5 milhões de catalães votarão na 11ª eleição para o Parlamento Catalão desde a volta da Espanha à democracia (será a terceira eleição em cinco anos).

Sejamos claros: as eleições na Catalunha neste domingo, dia 27 de setembro, são excepcionais por causa da mistura explosiva de emoções, debates políticos e intensidade que tomou conta da política espanhola. Mas, a despeito de tudo isso, será que elas serão o primeiro passo rumo a uma Catalunha independente? Pouco provável.

O sucesso dos líderes do movimento pela independência é inegável. Eles conseguiram impor sua agenda de secessão ainda que, tradicionalmente, apenas um terço dos catalães apoiem a ideia. Como o elefante de George Lakoff, a independência obscureceu as costumeiras tensões entre direita e esquerda, saturando o cenário político. Até mesmo o primeiro-ministro Mariano Rajoy, veementemente contrário a uma ruptura, acabou discutindo que tipo de passaporte os catalães teriam no caso de uma Catalunha independente. Foi um dos episódios mais surreais da campanha.

Neste domingo, 5,5 milhões de catalães votarão na 11ª eleição para o Parlamento Catalão desde a volta da Espanha à democracia (será a terceira eleição em cinco anos). As diferenças em relação às eleições anteriores são o foco na questão da secessão, liderada pela Convergencia Democrática de Catalunya (CDC), o partido hegemônico, e o fato de que esta eleição é considerada um plebiscito (a Constituição espanhola, como a maioria das europeias, não prevê referendos sobre a autodeterminação).

Aqui ecoa o ocorrido na Escócia: "Se um ano atrás Londres aceitou que os escoceses pudessem escolher entre ficar ou sair do Reino Unido, por que não podemos fazer o mesmo?", perguntam os catalães. Depois de transformar essa eleição (regional) num plebiscito, eles agora querem romper a rigidez do sistema judiciário espanhol.

Os defensores da independência afirmam que uma maioria no Parlamento significa o início de um processo que em apenas um ano e meio vai dar origem a uma nação catalã. Mas, se o voto popular pela secessão não atingir 50%, seria democrático tomar esse caminho? Não seria assim nos casos recentes da Escócia ou da Província canadense do Québec. A maioria das pesquisas mostra uma maioria absoluta a favor da independência em número de cadeiras no Parlamento, mas não no voto popular.

É verdade que especialistas em opinião pública parecem não ter ideia do que vai acontecer nesta eleição. Tradicionalmente, eleições regionais não atraem os eleitores menos nacionalistas. Mas, agora, estes são os eleitores sob os holofotes. É esse contingente de quase 1 milhão de cidadãos, a maioria sem raízes catalãs, que pode reverter todas expectativas.

catalonia independence

Manifestantes com bandeiras pró-independência comemoram o Dia Nacional da Catalunha.

Do lado unionista, há duas forças emergentes: o centrista Cidadãos (Ciutadans) e o esquerdista Podemos, em coalizão com outros partidos. Além deles, há os enfraquecidos Partido Socialista (PSOE) e o conservador Partido Popular (PP), que, apesar de governar a Espanha com maioria absoluta, nunca obteve mais de 13% dos votos na Catalunha. Nenhuma dessas forças tem um líder inconteste, e suas diferenças ideológicas são uma desvantagem na hora de apresentar uma frente homogênea.

O lado separatista - Junts Pel Si --, por sua vez, apresenta uma coalizão sólida entre conservadores e a esquerda republicana (ERC), que também é apoiada por movimentos cívicos pró-independência e por figuras públicas como Pep Guardiola, ex-técnico do Barcelona. Uma das peculiaridades dessa campanha é que o presidente da Catalunha, Artur Mas, é o quarto da lista de sua coalizão, o que significa que ele não tem de aparecer nos debates públicos nem precisa responder pelas ações de seu governo nos últimos três anos. E existe outro motivo para incerteza: para que conquistem a maioria no Parlamento, os separatistas precisam do apoio da Candidatura da Unidade Popular (CUP, na sigla em catalão), um partido de extrema esquerda que se opõe ao capitalismo, à Otan e à União Europeia e que já declarou que não vai apoiar um governo que tenha Artur Mas como presidente. Eis a vulnerabilidade de uma candidatura pró-independência com uma mistura tão diversa de apoiadores: depois da eleição, como esses parceiros vão formar um governo que não seja um samba do crioulo doido?

Social e culturalmente, a Catalunha é um dos motores da Espanha. Economicamente, também: com 7,5 milhões de habitantes, a região representa 18% do PIB do país. Como outras regiões ricas do país como Madri e as Ilhas Baleares, portanto, a Catalunha contribui com impostos para a melhoria de áreas menos desenvolvidas. E este é apenas um dos pontos de atrito: a Catalunha exige um tratamento fiscal mais justo - similar ao de outras comunidades, como o País Basco e Navarra - e mais autodeterminação no que diz respeito à arrecadação de impostos e aos investimentos em infra-estrutura.

O que é excepcional é como uma reclamação legítima acabou se tornando motivo de uma postura belicosa em relação à Espanha. A inabilidade política do primeiro-ministro Rajoy - um ano e meio atrás, ele poderia ter aberto negociações com o presidente da Catalunha, mas não o fez - incentivou a radicalização que nos trouxe à situação atual. Hoje em dia, os líderes do Partido Popular reconhecem a falta de flexibilidade do governo -- mas a justificativa é a crise econômica enfrentada pela Espanha nos últimos anos.

A verdade é que a crise é um fator fundamental para entender este drama. Os conservadores da Catalunha - que, como o governo nacional, fez cortes profundos em educação, saúde e serviços sociais - foram poupados da ira dos eleitores, que culparam o governo central por todas as medidas de austeridade. Enquanto nacionalistas e populistas de outros países europeus viram uma janela de oportunidade para explorar sentimentos xenófobos, antissemitas e antiislâmicos, na Catalunha a responsabilidade foi jogada nas costas do Estado espanhol. O slogan "A Espanha está nos roubando" marcou a população catalã, que foi convencida pelo canto da sereia da independência: sem o repasse de recursos para outras regiões espanholas, a Catalunha terá mais condições de enriquecer e prosperar.

Finalmente, temos de lidar com um capítulo extra: a emoção. E estamos de falando de uma emoção fundamental: a desilusão amorosa. Uma das metáforas mais usadas pelos defensores da secessão é que um casal não pode continuar junto se uma das partes assim não quiser. O que é verdade - e preocupante - é que muitos catalães já se divorciaram emocionalmente da Espanha e de seus símbolos. Eles se sentem ofendidos porque o Partido Popular questiona o ensino do catalão nas escolas, uma língua antiga e bela que todas crianças da região aprendem e que coexiste em paz com o espanhol nas ruas de todas as cidades da região.

Os separatistas não gostam de ouvir os alertas de David Cameron ou Angela Merkel, que dizem que uma Catalunha independente seria automaticamente expulsa da União Europeia, de acordo com os tratados vigentes. Eles também não se importam com os pedidos de Barack Obama por uma Espanha "forte e unida". Eles consideram uma ameaça importante o fato de instituições financeiras contemplarem a possibilidade de abandonar Barcelona para continuar operando com euros, sob os auspícios de Frankfurt e do Banco Central Europeu. Mas, paradoxalmente, os secessionistas têm certeza de que encontrarão uma fórmula para permitir que o Barcelona continue disputando - e vencendo - o Campeonato Espanhol.

Curiosamente, segundo algumas pesquisas só 20% dos catalães acreditam que o processo vá culminar na independência. Muitos vão votar a favor de uma ruptura, mas só para fortalecer o governo catalão em suas tratativas com o governo central espanhol. Para isso, porém, eles terão de esperar pelo segundo ato: as eleições gerais de dezembro, cujos resultados também são para lá de incertos. Se Rajoy sair vitorioso mais uma vez, as margens para negociação serão mais estreitas.

Alguns defendem uma terceira via - um acordo para atualizar, reformar e reinterpretar a Constituição de modo a acomodar algumas das reclamações dos catalães. Mas essas vozes mal podem ser ouvidas em meio às proclamações ruidosas dos defensores da independência, de um lado, e os apoiadores do governo, de outro.

Para esta autora, nascida em Madri, filha e neta de catalães orgulhosos de seu seny - uma palavra catalã que significa integridade e temperância --, um caminho que não envolva o diálogo, a política em sua forma mais pura, é impensável. Quando se proclamam cenários jubilantes ou apocalípticos, sempre há alternativas. Todos nós - catalães, espanhois e europeus - enfrentamos desafios formidáveis neste século 21. Precisamos somar forças. É melhor encarar juntos esses desafios.

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