OPINIÃO
13/01/2015 10:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Como não ter medo?

É inevitável sentir medo, assustar-se e preocupar-se, enquanto digerimos a dor da matança na revista Charlie Hebdo e as horas frenéticas e enlouquecidas que se seguiram... e provavelmente irão continuar. Mas o medo também é um mecanismo de defesa necessário para alertar todos os nossos sentidos, e o mais valioso de todos: a inteligência.

Como não ter medo?

-Medo da selvageria dos terroristas que matam cartunistas, decapitam jornalistas e matam a tiros crianças em nome de um profeta que deve estar se revirando no túmulo.

-Medo ao constatar - mais uma vez - que o jihadismo nos tenha capturado em um dos banlieues de Paris e, por extensão, em qualquer bairro de qualquer cidade, por mais orgulhosa de pertencer à crème de la crème da civilização. Tornou-se uma reivindicação perversa da glória daqueles que pensam que não têm nada a perder.

-Medo diante da incapacidade de qualquer governo, oriental ou ocidental, laico ou religioso, por si só ou em coalizão, de oferecer proteção adequada aos seus cidadãos ante ataques projetados para causar o máximo impacto: as Torres Gêmeas em Nova York, os trens de Atocha em Madrid, o Metrô de Londres, uma escola em Peshawar, a redação de um jornal em Paris, ou um supermercado Kosher...

-Medo diante da redução das liberdades civis que se aproxima: mais espionagem ilegal, menos garantias de julgamentos, mais controle, mais segurança nas fronteiras, mais operações secretas, mais opacidade, mais drones ... "Escolha entre a segurança e a liberdade" nos dirão, enquanto os recursos para a Defesa e Inteligência se multiplicam e diminuem os destinados à cooperação, educação ou integração social, poderosas armas da civilização.

-Medo diante da reação defensiva, tão humana quanto visceral e perigosa de cidadãos que observam aos que há tempo instigam o medo e agora nem precisam dizer "Eu avisei" para que o populismo/racismo/islamofobia/antieuropeísmo/antissemitismo se expanda. Penso em Le Pen, penso em Pegida ... e em tantos charlatães com seu catálogo de soluções fáceis para problemas complexos.

-Medo da hostilidade, aberta ou sutil, que muitos muçulmanos enfrentarão amanhã no seu bairro, no seu escritório, na escola, na universidade: na Espanha são uns 3%, e na Holanda, o país com o maior número de muçulmanos na Europa, uns 6%. Leia o post de Leila Alaouf, uma estudante franco-síria que cobre a cabeça com um lenço e conta em um depoimento em primeira pessoa como se sente.

É inevitável sentir medo, assustar-se e preocupar-se, enquanto digerimos a dor da matança na revista Charlie Hebdo e as horas frenéticas e enlouquecidas que se seguiram... e provavelmente irão continuar. Mas o medo também é um mecanismo de defesa necessário para alertar todos os nossos sentidos, e o mais valioso de todos: a inteligência. Ela que nos dita que para lutar contra o fanatismo e a intolerância não há nenhuma outra forma a não ser reforçar os princípios de liberdade, igualdade, tolerância e respeito à lei que são a base comum em que estamos construindo a Europa: uma tarefa que ainda exige o melhor de nós.

Essa é a mensagem que li hoje nos milhões de cidadãos que tomaram as ruas de Paris e muitas outras cidades. Também estou com medo, preocupada ... e determinada a lutar - com um lápis, um teclado - para que o medo não nos transforme.

PS I: Tiros de verdade, tiros de ficção

Na noite de sexta-feira, 09 de janeiro, depois de três dias de intenso trabalho na cobertura dos atentados em Paris (e uma vez confirmada que a enésima morte de Fidel Castro via Twitter era uma farsa), saí do canal de informações 24 horas e procurei algo que me ajudasse a descontrair.

Esta era a oferta, no mesmo horário, e já de madrugada, em diferentes canais: Duro de Matar 5: Um Bom Dia para Morrer, Ameaça Invisível - Stealth; Fogo Contra Fogo; Atirador, Fomos Heróis; Com as próprias mãos 3: Vingança Solitária.

Mais armas automáticas, mais tiros, mais assassinatos, mais helicópteros...

Pensei na execução do policial Ahmed Merabet durante a fuga dos terroristas da redação da Charlie Hebdo: tão brutal e tão sem precedentes, que adere à memória visual como um pesadelo. Houve um debate acalorado se nós, como meios de comunicação, deveríamos ou não publicar esse vídeo: na França, como um sinal de respeito a Merabet, não foi feito. Nós, da Espanha, sim, pelas mesmas razões que explicou no El País a defensora dos leitores, Lola Galán: basicamente, por seu valor informativo.

Não consigo evitar a pergunta: quantos filmes como estes não foram vistos ao longo das vidas dos irmãos Kouachi? Quantos videogames cheios de violência, como os que demos às crianças neste Natal?

PS II: Chicotadas por insultar o Islã

O blogueiro saudita Raif Badawi começou na sexta-feira, em Jeddah, a receber as 50 chicotadas, das mil pelas quais foi condenado "ao insultar o Islã", pena adicional aos 10 anos de prisão que está cumprindo. Seu crime, conta a responsável do Repórteres Sem Fronteiras, Lucie Morillon, foi abrir um debate público sobre a evolução da sociedade saudita. Em novembro, ele recebeu o prêmio de Liberdade de Imprensa concedido por esta organização - a seção espanhola o patrocina - por promover a liberdade de informação. Outras organizações como a Anistia Internacional também se mobilizaram para exigir sua liberdade.

Raif Badawi tem 30 anos de idade.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Huffington Post Espanha e traduzido do espanhol.

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