OPINIÃO
25/05/2015 18:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A Espanha entra em um novo tempo e em uma nova cultura política

Permita-me chamar a sua atenção para esta mulher. Ela já foi vista disfarçada de heroína, interrompendo comícios de outros partidos ou resistindo á polícia em qualquer um dos - inúmeros - protestos que protagonizou contra ações de despejo. Ela se chama Ada Colau e dedicou sua vida ao ativismo social e político.

QUIQUE GARCIA via Getty Images
Leader of 'Barcelona en Comu' (Barcelona in Common) party and candidate for mayor of Barcelona Ada Colau celebrates during a press conference following the results in Spain's municipal and regional elections in Barcelona on May 24, 2015. Spain's 'Indignado' protest movement won the most votes in the race for mayor of Barcelona on Sunday and came second in Madrid where it could forge a governing coalition, near-complete results showed. AFP PHOTO / QUIQUE GARCIA (Photo credit should read QUIQUE GARCIA/AFP/Getty Images)

Permita-me chamar a sua atenção para esta mulher. Ela já foi vista disfarçada de heroína, interrompendo comícios de outros partidos ou resistindo á polícia em qualquer um dos - inúmeros - protestos que protagonizou contra ações de despejo. Ela se chama Ada Colau e dedicou sua vida ao ativismo social e político. Neste domingo (25), ela se tornou a líder da coalizão mais votada de Barcelona: em breve, se conseguir firmar as alianças necessárias, ela será a primeira prefeita da cidade.

Ela é a primeira "indignada" que, claramente, arrebata o poder dos partidos tradicionais na Espanha. Mas não é a única: em Madri, outra mulher, uma ex-juíza de 71 anos, pode se tornar prefeita, tirando do poder o Partido Popular, invicto na capital há mais de 20 anos. Manuela Carmena surgiu em Madri representando uma coalizão de partidos emergentes, nascidos do movimento de indignados de 15 de maio de 2011, de ideias da esquerda clássica e com ideais ecológicos: coalizões muito parecidas também venceram em várias cidades espanholas.

A Espanha inteira sofreu, nestas últimas eleições, uma reviravolta dramática. A hegemonia do PP (partido da situação, presidido por Mariano Rajoy) racha após quatro anos de drásticos cortes sociais, e escândalos de corrupção. Líder da oposição, o partido socialista também sofre, mas como esquerda conta com mais opções de pactuar com os novos atores da cena política.

E os recém-chegados - o Podemos, de extrema esquerda, e o Cidadãos, mais de centro - representam a ira e a vontade de mudança em um país exausto da crise econômica. A recuperação é um fato - há previsões que apontam para um crescimento de 2,9% do PIB espanhol em 2015 -, mas a criação de emprego avança tão lentamente, e com novos postos de trabalho tão precários, que diante do slogan do PP: "Ou nós, ou o caos", a sociedade parece ter respondido nitidamente: "o caos, o caos!". Faltou, ao partido da situação, uma dose de realismo, como a que manifestou o ministro da Economia, Luis de Guindos, quando disse que a Espanha deixou para trás a recessão econômica, mas não a crise.

É fato que, para um país acostumado com o bipartidarismo, as negociações para formar o governo não serão fáceis. Todos os partidos, os velhos e os novos, têm em vista as próximas eleições gerais, que devem ocorrer antes do final do ano. E todos correm riscos: os novos porque podem decepcionar seus eleitores, se se unem ao "establishment", e os de sempre, porque as exigências dos partidos recém-criados ameaçam sua estabilidade.

A Espanha entra em um novo tempo e em uma nova cultura política, com governos minoritários ou em coligação, algo distante do bipartidarismo que, desde a morte de Franco, há 40 anos, favoreceu uma alternância previsível entre conservadores e socialdemocratas. Para Rajoy, a solidão não é só política, mas também geracional: todos os homens e mulheres fortes do partido, que foram, como ele, figuras-chave na época de José María Aznar, foram arrasados nas urnas. Em uma única noite, quatro anos de imenso poder institucional, foram transformados em pó.