OPINIÃO
26/05/2014 15:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O futuro do trabalho: a arte da liderança colaborativa

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People playing with tangled string

Nosso modo de trabalhar está mudando. Vemos isso de maneiras sutis e outras vezes não tão sutis. Até empresas tradicionais como a Deloitte estão investindo no desenvolvimento pessoal, percebendo que é o melhor recurso que elas têm para se manter à frente da curva. Os que têm uma real vantagem competitiva compreendem de modo intuitivo que a inovação e a criatividade são essenciais para alcançar as demandas do mercado e cruciais para enfrentar nossos desafios coletivos de sustentabilidade. O futuro do trabalho como o conhecemos está mudando de uma abordagem autoritária ultrapassada para esquemas colaborativos que nos inspiram a nos envolvermos de maneiras novas e diferentes com nosso trabalho e uns com os outros.

Esse conceito fugidio sempre me intrigou e intimidou, por isso comecei a questionar minhas próprias premissas sobre colaboração. Um de meus atuais projetos me deu a oportunidade de explorar e experimentar minha própria liderança em um ambiente colaborativo. Nos últimos seis meses, estive codesenhando e correcebendo o Fórum Mulheres e Liderança de Poder, usando processos colaborativos baseados nos princípios da Arte de Receber. Juntamente com Kathy Jourdain (uma experiente condutora no trabalho da Arte de Receber), a quem agradeço do fundo do coração por personificar a liderança colaborativa de maneira tão bela e apoiar minha descoberta da mesma, assim como uma maravilhosa equipe anfitriã, esta experiência forneceu um rico aprendizado para todas nós, explorando o que significa ser colaborativa e descobrindo as características necessárias para seu cultivo.

Decisão por consenso?

Uma das grandes crenças que eu inventei sobre o trabalho colaborativo era que precisamos chegar às decisões por consenso; se houvesse alguma divisão, não seria possível seguir em frente. Parecia uma tarefa exaustiva e quase impossível, quando você pensa em como é difícil conseguir que um grupo de pessoas concorde sobre alguma coisa. Basta ver o que aconteceu com o movimento Occupy -- a decisão por consenso simplesmente não funciona, sobretudo quando se fala em escalabilidade. Para meu alívio, descobri que tomar a decisão final não era tão crucial quanto o processo de chegar a essa decisão. Os membros da equipe devem ter uma oportunidade de manifestar sua opinião em um diálogo aberto e honesto, e todo mundo deve ter a oportunidade de explorar a questão juntos. Esse processo é integral para a tomada de decisões colaborativa (mesmo que esse termo pareça um paradoxo). Quando você passa por esse exercício, temas e padrões surgem, e por meio da sensibilidade coletiva surge uma solução ou decisão. Não é de surpreender que a solução ou a ideia é muitas vezes melhor do que uma pessoa poderia ter alcançado sozinha.

Inclinar-se para dentro X inclinar-se para fora

Outra premissa que eu tinha era a de que uma visão forte bastaria para inspirar colaboração. Acontece que não basta. Como líderes, supomos que liderar significa fazer tudo. Para muitos de nós, o medo de falhar e de passar vergonha nos faz querer manter o controle. Assumimos mais do que podemos, pisamos nas pontas dos dedos e microadministramos sem querer. Não é de surpreender que isto envie um sinal de que "ela já cuidou de tudo". As mulheres tendem a fazer isso em demasia -- assumimos mais do que podemos porque somos boas em multitarefas e queremos provar nosso valor, por isso aceitamos tudo e, assim, impedimos que outros atuem. É aí que a hoje proverbial abordagem do "leaning in" (inclinar-se para dentro) NÃO é eficaz. Ao nos "inclinarmos para fora" como líderes, damos a nossos funcionários uma chance de inclinar-se para dentro. Isso cria uma oportunidade para que eles assumam a responsabilidade pelas tarefas a fazer, entrem em ação e contribuam mais plenamente, envolvendo-os de maneira que suas melhores ideias e contribuições sejam apresentadas. Para os perfeccionistas e malucos por controle como eu, este pode ser um dos maiores desafios a superar. Aprender a deixar a coisa andar e confiar nos outros é crucial para criar espaço para que eles brilhem. Encontrar o equilíbrio é onde essa prática se torna uma forma de arte.

Vulnerabilidade como força

A peça de aprendizado mais significativa para mim foi em torno de compreender como a vulnerabilidade é chave para o sucesso em qualquer processo colaborativo. Todos entendemos tudo errado em nosso hábitos de trabalho. Acreditamos que a vulnerabilidade é uma fraqueza. Temos medo de admitir que não sabemos a resposta, por medo de sermos considerados incompetentes. Nossa necessidade de provar nosso valor e o medo da vergonha levam a criar separação. O que eu descobri muitas vezes em minha jornada de liderança é que quando estou disposta a ser vulnerável, compartilhar meus verdadeiros sentimentos, por mais que possam ser considerados embaraçosos ou fracos, quando consigo realmente escutar o feedback e me disponho a recebê-lo sem levar para o plano pessoal, esses atos são poderosos de maneira incomensurável. Esse é um superpoder secreto que todo mundo possui, mas nem todos têm a coragem de praticar.

É preciso disposição para falhar e aprender com seus erros, e correr o risco da vergonha que vem junto. Mas as recompensas são pródigas. É o caminho mais rápido para criar confiança em qualquer relacionamento ou processo de grupo. Isso cria um ambiente em que os outros se sentem capazes de se abrir e partilhar seus sentimentos, estimulando a participação, ideias e soluções. Ele nos permite ser humanos e perceber que estamos todos nisso juntos. Abre nossos corações e nos lembra de que não tem a ver com o resultado final, ou mesmo a próxima grande ideia. Tem a ver com estar no relacionamento; o aprendizado e as experiências que nos mostram quem realmente somos.

Gratidão

Eu não teria a oportunidade de estar neste processo de aprendizado se não fosse por algumas mulheres realmente espetaculares. Estou muito feliz pela experiência de trabalhar em colaboração com mulheres que ofereceram seu tempo e sua energia por uma ideia pela qual estou profundamente apaixonada. Tão desafiador quanto é às vezes para mim, elas sempre me apresentam meu potencial mais elevado, me dão um feedback honesto, me defendem e acreditam em mim. Às vezes o melhor aprendizado vem quando outros são corajosos o suficiente para manifestar sua verdade. Sou grata pela oportunidade de trabalhar com mulheres que têm a capacidade de fazer isso de maneira positiva. Aprender a dar crédito e reconhecer seus parceiros e colegas de equipe é algo evidente, mas quantas vezes esquecemos disso? Ser humilde, colocar seu ego de lado e esquecer a necessidade de brilhar são aspectos únicos da liderança colaborativa que são difíceis de aprender e de ensinar. Para muitos de nós, isto é contraintuitivo com a natureza competitiva dos negócios. Mas é uma parte integral de como funcionamos como seres humanos e é a chave para o sucesso coletivo.

O resultado

A prova está no pudim, dizem. Você poderia estar se perguntando como esse processo colaborativo funcionou, afinal. Ainda estamos no meio dele, mas posso dizer que tivemos êxito em criar um primeiro evento que está quase totalmente esgotado (ainda falta um mês), fala-se muito sobre ele no Vale do Silício e recebemos apoios de longe. Como anfitriãs, continuaremos a praticar esses processos no dia do nosso evento, enquanto recebermos para um dia de profundo diálogo para mulheres líderes de diversas gerações que participarão. Não estamos presas a nenhum resultado. O que sabemos, porém, é que nossas participantes, ao sair, terão experimentado o processo e a liderança colaborativos. E isto por si só será uma obra de arte.