OPINIÃO
18/10/2014 19:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Forçada a se casar, menina de 12 anos divorcia-se de homem de 30 na Síria

Com a guerra, deflagrada em março de 2011, aumentou o número de casamentos de crianças com homens bem mais velhos. A prática, no entanto, do casamento precoce já existia e sempre foi motivo de preocupação em partes da Síria.

ONU

Nour nasceu em 2002 em Aleppo, uma das cidades mais castigadas pela guerra civil na Síria.

No início deste ano, ela recebeu a notícia de que teria que se casar com um homem de 30 anos por causa da guerra civil no país. "Muitas adolescentes sírias estão sendo forçadas a se casar para salvar suas famílias", contou Nour. "Mas nenhuma garota quer este tipo de vida", concluiu.

A história de Nour, um nome fictício para proteger a identidade da menina síria, é a mesma de várias crianças desde o início do conflito armado entre tropas do governo de Bashar Al-Assad e integrantes da oposição.

Com a guerra, deflagrada em março de 2011, aumentou o número de casamentos de crianças com homens bem mais velhos. A prática, no entanto, do casamento precoce já existia e sempre foi motivo de preocupação em partes da Síria.

Esperança

Com a violência dos confrontos, muitos sírios tiveram que fugir de suas casas transferindo-se para acampamentos e abrigos temporários. A maioria desses refugiados não tem emprego. Pais desesperados encontram em suas filhas, ainda meninas, a esperança de que - ao se casarem - elas possam estar mais protegidas socialmente.

O caso de Nour chamou a atenção de funcionários do Fundo das Nações Unidas para a População, Unfpa, na Síria. A menina procurou o escritório da agência da ONU para dizer que queria se separar.

Segundo Nour, desde a união com o homem 18 anos mais velho, ela começou a sofrer abusos. "Eu não tinha outra chance", desabafou.

Nour contou que a família dela fugiu para um abrigo de Damasco em abril. Ao chegar ao local para escapar do fogo cruzado entre tropas e milícias sírias, nove pessoas da mesma família tiveram que se acomodar todas em um quarto apenas. Precisavam dividir desde a roupa que vestiam até a pouca comida que sobrava, além de alguns brinquedos e livros.

"Minha família estava em dificuldades financeiras, e eu era apenas mais um peso", confidenciou a menina.

Não demorou muito para que um homem de 30 anos aparecesse no abrigo da família de Nour pedindo para se casar com ela. À funcionária do Unfpa, ela explicou que jamais havia visto o cidadão.

Dote

O pretendente foi rápido ao oferecer à família carente da menina um dote, que seria pago pelos pais dele. O dinheiro era suficiente para sustentar toda a família de Nour por um ano. A resposta foi igualmente ligeira. O destino da menina de 12 anos foi assim selado.

Após o "sim" da família, Nour percebeu que a decisão representava acima de tudo um sacríficio pessoal. Para trás ficaram os sonhos de se tornar uma líder feminina na Síria. O que estava em jogo era a felicidade da família dela ainda que para isso, os grandes planos da menina de 12 anos tivessem que ser colocados de lado. E do sonho ao pesadelo foi um pulo.

Nour classificou de traumática a adaptação à família do marido. Ela disse que era forçada fazer sexo, o que a deixou com medo e deprimida.

"Eu não nasci para isso", disse ela à funcionária do Unfpa. Os abusos do marido tornaram-se tão insuportáveis a ponto de Nour se retrair socialmente. A família dela acompanhou tudo alarmada.

Escola

A decisão de procurar ajuda psicólogica partiu da mãe de Nour. Numa clínica de saúde, apoiada pelo Unfpa, a menina encontrou o que precisava. A assistente social do local ainda se lembra bem do momento em que viu a menina, pela primeira vez: "Ela chegou aqui num estado péssimo em todos os níveis: mental, físico e legal."

"No começo, elas ficava calada. Não conseguia sequer falar sobre a situação", recorda a assistente social Hala Haj Hussein. Com o tempo, Nour foi recebendo os cuidados necessários: exames médicos, apoio psicossocial e terapia. A menina reagiu, e a família passou a apoiá-la.

Seis meses depois do casamento forçado, Nour deixou a casa da família do marido e voltou ao abrigo, onde vivem a mãe e cinco irmãos. Com a terapia, ela concluiu que era hora de pedir o divórcio. Uma decisão tomada como a ajuda de advogados oferecidos pela clínica do Unfpa.

Após se decidir pelo divórcio, Nour tomou outra medida importante: retornou à escola que havia sido obrigada a abandonar por causa da falta de documentos, deixados para trás na fuga de Aleppo para Damasco. Os novos papéis foram tirados também com a ajuda dos defensores públicos.

Quem conhece a menina diz que ela continua sofrendo as marcas das núpcias forçadas. A pequena Nour ainda parece distante e está com dificuldades para se concentrar nos estudos.

À assistente social ela contou que continua acreditando que um dia irá alcançar o sonho de levar mudança à Síria e ao mundo.

"Eu continuo viva e forte", garantiu.

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