OPINIÃO
30/03/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

O que eu aprendi com a ditadura

Era 1969. Alguém me pegou pela mão para ir até a Alameda Casa Branca, a poucas quadras da casa dos meus avós, para ver o "terrorista morto". As pessoas se amontoavam ao redor do fusca azul com vidros quebrados e marcas de balas. Aquela curiosidade mórbida me deu medo. No almoço em família (era um sábado), o prato do dia foi a emboscada espetaculosa da polícia que resultou na morte de Carlos Marighella. Eu tinha oito anos e nunca esqueci.

Era 1975. Meu pai jogava bocha no Círculo Militar de São Paulo, clube do qual ganhara um título por ter cursado escola militar. Era tenente da reserva e dentista da Polícia Federal. Num dia ensolarado, ele conversava com um cidadão fardado e de cabelos brancos. "João, mataram um comunista aí na frente. Jornalista. Foi cagada. O Ednardo vai cair por isso e o Dilermando assume." O milico era partidário do general Ednardo D'Ávila Melo, comandante do II Exército quando Herzog morreu. Senti aquele medo de não sei do quê de novo.

Minha prima namorava um estudante de jornalismo. Contei o caso e soube o contexto. Os milicos tinham torturado e assassinado o jornalista Vladimir Herzog. E que havia uma ditadura militar no País, muita gente tinha desaparecido, Argentina e Chile sofriam sob ditaduras sangrentas. Fiquei me perguntando se meu pai fazia parte de tudo aquilo. Durante o almoço, perguntei se ele também torturava gente no Presídio do Hipódromo, onde atendia. Fez-se um silêncio imenso. Ele enfim falou que não torturava ninguém, mas via coisas terríveis. Contou que presos políticos eram torturados com motorzinho no canal do dente, porque não deixava marcas, e esticados no pau de arara. Afirmou que era democrata e se esquivava desses atos criminosos.

Era 1979. Eu estudava jornalismo na Universidade de Taubaté. Naquele ano, ressuscitamos o Diretório Central de Estudantes e mobilizamos a universidade para reconstruir a União Nacional dos Estudantes (UNE). Quando cheguei em casa, na volta do congresso de reconstrução da entidade, encontrei os restos de uma fogueira de papéis. Minha mãe tinha colocado fogo nos meus livros, gibis e os tablóides Pasquim, Movimento, Opinião, Versus. Foi tudo embora. Passei a esconder os livros.

Na Universidade, uma autarquia municipal, nos opúnhamos aos aumentos de mensalidade que expulsavam centenas e pedíamos prestação de contas do dinheiro público ali investido. Cerca de 5 mil estudantes foram à greve. Num dos últimos rompantes de autoritarismo na virada da década de 1980, dez lideranças estudantis foram desligadas de seus cursos. Por deferência ao meu pai, que era da polícia, eu poderia ser reintegrada à escola se pedisse desculpas publicamente, o que me neguei a fazer. Chorei muito, fui embora de casa. Perdi três anos de faculdade, arrumei emprego de recepcionista e vaga em outra escola quase um ano depois.

A partir da repressão estabelecida no país, a ditadura me ensinou o que é censura, corrupção, inflação, tortura, sequestro, assassinato político. Com a volta dos exilados, conheci pessoas barbaramente torturadas e marcadas para a vida toda. Os artífices desses horrores têm uma dívida impagável com a sociedade brasileira. Das que não prescrevem.