OPINIÃO
07/11/2014 14:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Um encontro com o Dalai Lama

Os resultados apresentados pelos pesquisadores são uma promessa de benefícios para muitíssimas pessoas - e sem nenhum tipo de efeito colateral - afetadas por dores ou sofrimentos relacionados à vida em geral, e em particular a esta sociedade em que a velocidade e a ação incessante e sem propósito constituem nossa paisagem diária.

Andrew Chin via Getty Images
VANCOUVER, BC - OCTOBER 21: The Dalai Lama attends Heart-Mind Summit at the Vancouver Convention Centre East on October 21, 2014 in Vancouver, Canada. (Photo by Andrew Chin/Getty Images)

Terminou domingo passado o encontro anual que o Dalai Lama realiza com cientistas e pensadores ocidentais há 27 anos. O que começou no sala de sua residência em Dharamsala, aos pés do Himalaia, desta vez reuniu 1 700 pessoas de 38 países em Boston.

É um sinal inequívoco de que algo está mudando no Ocidente. De onde vem esse interesse crescente? De um lado, vivemos uma existência cada vez mais repleta de atividades e distrações, o que gera níveis de estresse e ansiedade jamais vistos. Por outro, as pesquisas referentes ao cérebro e aos efeitos positivos da meditação e da consciência (mindfulness), tanto do ponto de vista do bem estar pessoal como da plasticidade cerebral, se multiplicam rapidamente e corroboram o que as correntes orientais sabem há muitos séculos.

Explorar a intersecção das disciplinas meditativas antigas com a ciência moderna é o objetivo do Instituto Mind & Life, e o tema principal nesta ocasião era Os estudos contemplativos. Havia um entusiasmo palpável no ambiente, uma intenção comum de todos os participantes, fossem eles do mundo hospitalar, científico, psicológico ou educacional: avançar com as pesquisas e estender os benefícios do mindfulness a todas as áreas da sociedade, a fim de que os cidadãos gozem de um maior bem estar físico e mental e tenham mais compaixão pelos demais. A este respeito, o Dalai Lama foi muito explícito: "Se todos adotarmos como objetivo construir um mundo melhor, começando por onde estamos, a mudança é possível". Mesmo que isso signifique uma modificação importante da nossa perspectiva, pois temos de deixar de lado os papeis de vítima e acusador para perceber que "é nossa responsabilidade tentar aliviar o imenso sofrimento existente no planeta", como afirma sua santidade. Aos cientistas, ele recomendou: "É fundamental a expansão do conhecimento do cérebro, mas tenham em conta que devemos utilizá-lo a serviço da humanidade".

Depois, com as baterias carregadas com a sabedoria e a bondade do Dalai Lama, houve uma série de apresentações simultâneas, a maior parte de professores e pesquisadores de universidades americanas. Era difícil escolher a qual delas assistir. Foram apresentados os resultados e aplicações dos trabalhos em todo tipo de campo. Em hospitais, para tratar de doenças graves. Ou para combater os efeitos perniciosos da angústia moral de médicos e enfermeiras continuamente expostos ao sofrimento e à morte. Ou para sair da armadilha da rigidez cognitiva e ser mais criativos, incrementando a conectividade funcional do cérebro em pacientes com problemas neurológicos, diminuir a depressão e a ansiedade entre veteranos de guerra com estresse pós-traumático, aliviar o medo e a dor do parto, regular as emoções de mulheres com transtornos de alimentação por meio da autocompaixão, mitigar os efeitos negativos de uma infância difícil, ensinar nas escolas como lidar com a atenção e como regular as próprias emoções para criar crianças mais felizes e com maior receptividade ao aprendizado. Os resultados também serviram para verificar um incremento na saúde celular que reflete a idade biológica de quem pratica a meditação, observar o impacto positivo na resiliência psicológica das pessoas que trabalham a compaixão regularmente, os benefícios da aplicação dessas técnicas em organizações e empresas na hora de melhorar o bem-estar dos funcionários, assim como seu rendimento...

Uma impressionante pluralidade de campos e áreas nas quais se começa a aplicar uma disciplina que só agora começa a se fazer sentir no Ocidente. Os resultados apresentados pelos pesquisadores são uma promessa de benefícios para muitíssimas pessoas - e sem nenhum tipo de efeito colateral - afetadas por dores ou sofrimentos relacionados à vida em geral, e em particular a esta sociedade em que a velocidade e a ação incessante e sem propósito constituem nossa paisagem diária.

A essa riqueza de exposições se somaram a aulas diárias e magistrais de mindfulness de alguns dos gurus mais famosos desse campo: Jon Kabat-Zinn e Sharon Salzberg. Pois a prática é fundamental também para os que ensinam. É justamente a prática de estar no presente, sem resistências ou juízos, o que nos permite apreciar a beleza de cada instante, já que nossa vida é finita e efêmera.

Arianna Huffington foi o fecho de ouro, nos deleitando com uma palestra divertida e inspiradora. Na sala estavam - como ela nos lembrou - muitos de seus mentores: Daniel Goleman (pai da Inteligência Emocional), Jon Zabat-Zinn (precursor do mindfulness no Ocidente), Richard Davison (neurocientista especializado nos efeitos da meditação no cérebro), Chade Meng Tan (introdutor da mindfulness no Google)... Com seu senso de humor característico, ela despertou gargalhadas com as histórias de sua própria vida e também nos fez refletir sobre a terceira medida do sucesso, uma bandeira que ela defende. Huffington falou da nossa dependência do celular e da desconexão com nós mesmos, e também do dinheiro, do poder e do sucesso, que tem de ser redefinido em função do bem estar, da sabedoria, da capacidade de se surpreender, da generosidade.

Gostaria de terminar com as palavras otimistas de Jon Kabat-Zinn ao concluir uma de suas sessões: "Comprovar que tantas pessoas estejam ativamente envolvidas em criar um maior bem estar para os outros me enche de esperança: o coração da humanidade ainda pulsa". Oxalá palpite com ainda mais força.

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