OPINIÃO
27/03/2014 16:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

O resto é silêncio

Uma famosa neurocientista brasileira explicava noutro dia o que acontece com o cérebro ao ouvir uma escola de samba de pertinho: temos dois tipos de receptores, os auditivos e vestibulares, com diferentes faixas de sensibilidade ao som. E quando o som tem graves abaixo de 200Hz e fortes cima de 90dB, como acontece ali do lado da bateria, ambos os receptores são estimulados e acontece quase um transe, que mexe com o corpo e o equilíbrio. Essas condições também podem acontecer num show de rock, pop ou rave. Ou ouvindo, alto, ambient ou space music, uma música mais contemplativa, meditativa. Que provoca um poderoso estado de atenção interno.

Kitaro, o famoso músico japonês, me disse uma vez que o som que entra via óssea, quando estamos ouvindo com um headphone, é infinitamente inferior ao som que se ouve tendo o espaço como transmissor, como condutor, quando o som chega ao nosso corpo e mexe com todas as células, não apenas com o cérebro e os ouvidos.

Estudei durante muitos anos sobre o som, o poder da música, o poder da voz (na cultura sufi, dizem que existem tipos de vozes que têm poderes de acalmar, curar, aglutinar); cientistas modernos falam da frequência e pulsação, do ritmo. Existe uma pesquisa muito citada que coloca cristais de neve em contato com música sublime ou heavy metal, com palavras inspiradoras ou amaldiçoadas, e o resultado é inacreditável: com uma música de Bach ou space, o cristal resulta equilibrado e harmonioso, já quando bombardeado com sons e estímulos barra pesada, negativos, o cristal de neve resulta fragmentado e dismórfico. Eu gostaria de repetir essa experiência, um dia.

Mas eu sinto que é verdade em mim mesmo, na minha experiência de ouvinte, simplesmente seguindo o prazer da audição. Porque moods, feelings, inspirações, epifanias, alegrias, melancolias, são sempre trazidas pela música. Então passei uma adolescência e juventude muito bossa nova, roqueira, e gostava também de progressivos, tipo Yes e Pink Floyd. Quando mergulhei no mundo das terapias, fui apresentada ao Golden Voyage, que me fazia chorar copiosamente em qualquer group therapy, no Brasil ou na Califórnia.

Morando em San Francisco, em 83, ouvi pela primeira vez um programa chamado Hearts of Space, criado e apresentado por um cara chamado Stephen Hill. Ele estava apresentando exatamente um celista americano, David Darling, xodó da gravadora norueguesa ECM, e naquele momento tive uma revelação. Senti que tinha que fazer um programa assim no Brasil.

Isso acabou acontecendo em 1987, na Radio Eldorado FM/SP, Jornal do Brasil e Globo FM Rio, e Guarani de BH. Sintonizada e totalmente guiada por uma mão divina (e em estado de êxtase) eu ouvia e selecionava músicas inteligentes, inspiradoras, transformadoras, que estavam emergindo em toda parte, naquele momento, no planeta. Instrumentais, como Paul Horn e Paul Winter, (que eram produzidos pelo querido músico brasileiro Oscar Castro Neves); eletrônicos sinfônicos, como Constance Demby, ou viajantes, como Tangerine Dream, minimalistas como Philip Glass, guitarristas cool como Michael Hedges, misteriosos como Jan Garbarek, mitológicos e épicos como o Dead Can Dance, pianistas incríveis, flautistas, saxofonistas...tantos nomes... Todos conectados com seu lado mais criativo, fazendo uma música de alma, que não tinha caráter comercial, era a música que tocavam quando estavam sozinhos...tinha um músico, Robert Rich, que realizava os famosos Sleeping Concerts, onde as pessoas iam ao teatro para dormir ao som da sua música...

Depois vi nascer nos EUA um outro programa delicioso, Echoes, criado pelo critico John Diliberto, bastante antenado com o lounge e a trance music que surgiam.

O programa que criei no Brasil, o Música da Nova Era, virou uma referência para os músicos brasileiros: era pura informação, só tocava o essencial, nada de música de elevador ou musica funcional, aquela-feita-pra-meditar, de spa, que detesto. Fiz festivais, como o Philips Innovation Show, e depois as conferências Imaginarias, em 94 e 95. Eram debates com notáveis e muita música. Imaginem como me senti de trazer ao Brasil o responsável pela minha epifania lá de San Francisco, o celista David Darling, cuja musica mais arrebatadora, Ode, era o tema de abertura do programa.

Acabei com o MNE em 96, antes de completar 10 anos, pra me jogar na criação de uma revista, a Meditação. Quando acabou, o MNE era o programa de maior audiência na Eldorado FM.

E todos me diziam, durante esse tempo: "volta pra radio!" E eu pensava, que radio? Não quero "voltar pra radio", quero criar uma radio inteira voltada pra esse nicho, esse segmento de bem estar, harmonia, psicologia positiva, mindfulness. Mas não era hora.

A estréia se avizinha agora, em 2014, com a criação e produção da radio Imaginaria online. O programa de Stephen Hill, Hearts of Space existe até hoje, em centenas de radios PBS americanas, e fez aniversario noutro dia. Mais de 30 anos! John Diliberto também continua com seu Echoes, em mais de 300 radios coast -to-coast. Estão online, também.

E a música? A música nunca parou, e agora acontece um processo como uma renascença musical, muita gente nova, fazendo uma música incrível, como Hans Christian, Jamie Sieber, Jai Utall, e tantos antigos criando incessantemente, com Steve Roach...

E tantos estilos dentro desse nicho - acoustic guitar, ambient, eletrônica, mântrica, world, new age, space... instrumental...

Essa renascença reflete esse frisson pela meditação, trend no mundo inteiro, esse entender da necessidade de desacelerar, de unplugar.

Fico cada vez mais encantada com essa música, que tem em seu centro o batimento cardíaco, que nos leva numa viagem de ressonância profunda com a batida do nosso próprio coração. Essa música cura, acalma, ajuda no processo da mente plena, do estado de atenção. Ela não aliena, ela não distrai. Ela nos traz pra o nosso centro, de uma maneira sutil. Porque foi feita por um músico que também está consciente, presente. Essa música mexe com nossos receptores, tanto os auditivos como os vestibulares, mexe com nossa alma, nossa atenção. O resto é silêncio...