Opinião

Além da mindfulness

Somos como uma cebola, temos várias camadas: mente, energia, alma, espírito e, lá dentro, nada. A vacuidade é o campo das infinitas possibilidades. O ponto zero.
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Há alguns anos, quando vou dar algum workshop de meditação, não saio de casa sem uma boa quantidade de uvas passas. Parece estranho? É uma das técnicas de mindfulness desenvolvidas pelo médico americano John Kabbat-Zinn, para sairmos da distração, do piloto automático, e estarmos presentes. Sempre me encanto ao observar aquelas pessoas, acostumadas a pegar uma porção de passas na mão e enfiar na boca, distraidamente, tendo que pegar uma passa apenas, olhá-la com atenção, senti-la com a língua e, depois de quase cinco minutos, começar a mastigá-la vagarosamente. Epifanias acontecem nesse momento...

Mindfulness agora está na moda, é o trend do momento. Hospitais no mundo inteiro a praticam, deu capa da Time, e aqui no Brasil médicos da Unifesp e do Einstein ensinam a seus pacientes. A dra. Elisa Kokasa, que faz pesquisas sobre meditação no Einstein, me garantiu que essa técnica de atenção plena e meditativa está disponível para pacientes do SUS.

Mas isso é apenas o começo, o primeiro degrau, a atenção plena.

Já ajuda pra caramba. Traz calma, paz, cura. O que vem depois, se continuamos no caminho, é a compreensão da natureza da mente, da vacuidade que tudo permeia, vacuidade essa que é plena de algo invisível e indizível, comparável à energia escura do universo. Entendemos a vida e entramos no flow.

Aí, como dizem os budistas zen, podemos continuar cortando lenha e carregando nossa água, isto é, fazendo nosso trabalho no mundo, porque estaremos no mundo mas já não seremos do mundo, teremos saído da matrix.

Mas voltemos ao nosso aqui/agora, ainda na matrix.

Há estudos que dizem que o número de pensamentos que nos passam pela mente num só dia é de cerca de 60 mil, embora possa ser muito maior. A cada 1,44 segundo, temos um pensamento, entre os quais se incluem também as emoções: ira, frustração, alegria, tristeza, ciúme, decepção. Tanto os pensamentos quanto as emoções pertencem ao domínio da mente; são fogos de artifício que explodem dentro de nós a cada 1,44 segundo.

Nesse constante caos, um pensamento leva ao seguinte, e este a outro. Não há descanso ou quietude mental. O importante é estar pensando. Em quê? Não importa, contanto que a mente esteja ocupada com qualquer coisa.

Qualquer um nesse estado observa seu mundo externo a partir de sua cabeça. Seus olhos abertos nada veem. Dirige o carro e chega ao destino sem ter ideia de como o fez. Caminha pela rua mecanicamente, imerso nos pensamentos.

Para sair desse piloto automático, é bom perceber que somos como uma cebola, temos várias camadas. Experimente cortar uma cebola no meio. Perceba: a camada externa, a casca, é o corpo físico. Depois vem a camada da mente, os pensamentos, a camada das emoções, os sentimentos, a camada da energia (onde funciona a acupuntura, no corpo energético); depois vem a alma, que podemos chamar de self, depois o espírito, e por último, tcham tcham tcham tcham!... aquele vazio que toda cebola tem dentro, um espacinho de vacuidade. Esse centro, a vacuidade, é o campo das infinitas possibilidades, que os cientistas chamam de ponto zero de energia. É onde acontecem os milagres, as sincronicidades, onde saímos da dualidade, um espaço vazio pleno de amor e compaixão.

Todos esses corpos/camadas estão unidos pela respiração, que permeia tudo. Então meu primeiro toque, nesta primeira colaboração aqui no Brasil Post, é respirar, primeiro esvaziando os pulmões, e depois enchendo-os de ar, vagarosamente, sentindo-se como aquela cebola, umas dez vezes.

Depois, vá comer a sua passa. Mas bem devagaaaarrr...