OPINIÃO
11/06/2014 09:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A Copa do afeto

Simplesmente porque somos apaixonantes. Quem está chegando pra Copa vai descobrir uma bagunça impossível de acontecer em qualquer outro lugar deste planeta, um caos inimaginável que se auto-organiza.

FRANCK FIFE via Getty Images
People wearing Brazilian flags arrive at the Santa Cruz Stadium in Ribeirao Prato to attend a France's national football team training session on June 10, 2014, a few days prior to the start of the 2014 FIFA World Cup in Brazil. AFP PHOTO / FRANCK FIFE (Photo credit should read FRANCK FIFE/AFP/Getty Images)

Tenho pensado, meditado e lido muito sobre este momento que passamos no Brasil. A Copa, as manifestações, o sensação de impotência que muitos sentem diante dos desmazelos e da corrupção que cercou tudo. Tenho minhas angústias e desencantos, há momentos em que penso em sair do Brasil de novo, afinal tenho green card e sou filha de pai croata, posso viver tanto nos States como na Europa. E já vivi fora, viajando como jornalista e buscadora, por esse mundão de Deus. Mas onde encontrar essa simplicidade de ser, essa rapidez com que nos comunicamos, essa malícia inocente que todo brasileiro simplesmente É? Onde encontrar o afeto que vibramos tão bem?

Acho que essa Copa é a maior realização de um sonho que todos brasileiros temos, de sermos entendidos, respeitados, amados. Não é porque Lula apareceu na tv hoje falando dos índices brasileiros, mas eu andei pensando nele esses dias, no seu sonho de trazer a Copa para o Brasil, (quanto deve ter custado rechear os bolsos da Fifa para conseguir)... 12 cidades... Eu quase o compreendi, pela primeira vez tive compaixão dele, na sua ânsia de deixar um legado, um presente, uma divulgação retumbante da nossa cultura brasileira.

O Brasil é um imenso continente, com ecossistemas humanos e naturais inacreditáveis. Fortaleza é uma coisa, Porto Alegre é outra, Rio é uma coisa, São Paulo outra... Manaus uma coisa, Belo Horizonte outra... Sotaques, belezas, artes, modos, sons, cheiros... Jeitinhos...

Que melhor maneira de mostrar nossa cultura, hábitos, comidas, maneiras de ser, do que despejar todos esses jogadores, jornalistas e turistas do mundo todo, seguindo suas delegações, para conhecer essas cidades, esses mundos tão diversos? Como disse Nizan Guanaes, na sua crônica na Folha, nesta terça 10, isso não tem preço.

Mesmo com todo desmazelo. Mesmo com tanta revolta no coração. A gente sabe receber bem, com muito carinho e consideração. E a gente sabe encantar. Pela beleza - somos um povo cada vez mais bonito.

Pela gentileza - somos um povo gentil (crimes bárbaros sempre aconteceram). Mesmo assustados e chocados com os incendiários black blocks e pccs, não perdemos essa gentileza.

Pela inteligência - somos rápidos, intensos, apaixonados...

Pela linguagem - um português tão diferente de Portugal, tão mais doce. Pela modernidade - somos ligados na moda, nas tendências, somos um povo ansioso de experimentar o novo, a novidade, o último trend. E pelo afeto, que pressinto vai conquistar os corações e mentes de quem nunca pisou aqui e imaginava uma coisa completamente diferente.

Escrevam o que eu digo. Essa Copa vai durar um mês, e quem vier pra cá vai se apaixonar, porque somos apaixonantes. Quem está chegando pra Copa vai descobrir uma bagunça impossível de acontecer em qualquer outro lugar deste planeta, um caos inimaginável que se auto-organiza; uma violência polarizada com humanidade, não que nossos bandidos sejam melhores, eles já se globalizaram e estão mas violentos e cruéis do que nunca, padrão gangster americano com milícias africanas. Mas nossa sujeira não é mais suja que na India, com nossos valões e favelas, nem nossa poluição é pior que a China, com suas usinas, nem nossa corrupção pior que a Rússia, nem nossa democracia e liberdade de expressão piores que muitos, mas muitos países por aí.

Nossa alegria quando a Copa começar vai mudar tudo, precisamos tirar essa timbragem cinza do nosso subconsciente, essa nuvem negra do nosso astral, alguém nos convenceu que precisamos ficar com raiva, cara amarrada, mas agora é hora de FESTA.

Quem vier pra cá vai se apaixonar pelo Brasil que está se reinventando, que deu as costas pra Copa mas já está olhando de soslaio, tipo "mas peraí, vai acontecer no meu quintal e eu não vou curtir?"

Como diz meu querido amigo sufi Sergio Veleda, não acredito num Deus que não dança. Como aquele tipo de militante que não ria, não se divertia, não dançava, em nome da revolução. E o tempo passou, a barriga cresceu, o militante morreu, cheio de ideias, e sem prazeres viveu.

Cansados de ideologias e desigualdades vemos pensadores como Domenico De Masi reforçando a antiga e sebastiana tese do "Brasil, país do futuro, que sabe viver". Vejo jovens precocemente envelhecidos, filhos e filhas de amigos, papagaiando ideias vencidas, trotskistas, maoístas, istas istas. Ao mesmo tempo, pipocam na internet mística ondas de preces, orações pela paz, entendimento, integração. A tal polaridade.

Tenho três talentos como representante desse ethos brasileiro dentro de mim: como comunicadora, percebo o foco todo em nós, e a oportunidade de reclamar sim, mas de mostrar essa alma brasileira. Como atriz, quero simbolicamente entrar em cena, me expressar, aproveitar essa oportunidade e brilhar. No campo, nas festas, nas ruas. Como terapeuta, quero procurar curar as feridas e pacificar polaridades que afastam, separam, desunem. Celebrar a união, a paz. Religar.

O discurso de Dilma ontem foi muito bem (diabolicamente) escrito, como sempre pelo marqueteiro mor, e tenho certeza teve o dedo de Lula. Mas não senti raiva. Senti compaixão por esse país, por esse povo, por tudo que ainda não fizemos, por tudo que precisamos fazer para corrigir rotas, principalmente na área de sustentabilidade, onde perdemos terreno fragorosamente. Podíamos ter dado um salto qualitativo, ter menos consumo, menos carro nas ruas, menos poluição, mais civilidade, e um sistema de transporte do futuro, mas pensou-se a curtíssimo prazo, na fome, no sustento, no problema imediato. E no que encheria mais os bolsos para um projeto politico de longo prazo.

E nisso, na fome, no básico, melhoramos muito. Tudo isso que está aí agora somos nós, essa bagunça, desorganização, caos, nós somos responsáveis, mas sem culpa digo, vamos dar o nosso melhor, vamos curtir essa Copa, vamos ser Brasil. Vamos ser apaixonantes. Vamos THRIVE, que pra mim tem a melhor tradução em EXUBERAR.

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