OPINIÃO
01/04/2014 12:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Dos amores que se vão - antes mesmo da gente piscar

Depois de tantos caras provenientes de cutucadas via Facebook ou de baladas regadas a drinks exagerados, parece que aquela coisa do inesperado enfim deu certo.

Aí você conhece alguém.

Na fila do supermercado, na praça sábado à tarde, no aniversário daquela amiga que você nem fazia tanta questão e que, no fim das contas, surpreendeu. O sorriso é lindo, diz você, fingindo nem ver os quilinhos a mais ou a menos. Porque... Ah, isso importa, mesmo?

A primeira coisa que você pensa é que, depois de tantos caras provenientes de cutucadas via Facebook ou de baladas regadas a drinks exagerados, parece que aquela coisa do inesperado enfim deu certo. Afinal, você estava amando a vida a sós, com só de somente e de sozinho, e nem achou que, de fato, se arranjaria tão bem naquela noite, não é?

No dia seguinte, você abre os olhos e demora a acreditar que realmente conheceu alguém bacana. Coisa de pele, de tato, mais que beijo: foi sensorial. Pode suspirar à vontade, a gente sabe que você vai passar um bom tempo vendo a bolinha verde no chat do Facebook como quem diz: vai lá, coragem, dê um oi como quem não quer nada em meio a um sábado tedioso em frente à TV.

E aí vocês conversam. Dos filmes antigos, das músicas que mais ninguém conhece, das vontades em comum, dos vinhos tão diferentes que, poxa vida, merecem ser divididos a duas taças o quanto antes pela primeira de muitas vezes.

Faça uso da sua sinceridade, não é pecado: passadas tantas frustrações, você sente que, final e definitivamente, alguém chegou pra ficar. Bate à porta como quem não quer nada e, ao entrar, fica. Por favor - pensa você - que desta vez dê certo, que ele ligue no dia seguinte, que pergunte sobre o meu dia, que não dure só aqueles beijos e aquelas promessas dignas de um romance água com açúcar. Que faça cafuné, lembre-se do quanto amo pão de queijo quentinho, que tenho alergia a flores, mas que não dispenso um bom chocolate, mesmo quando digo estar de dieta.

Ora essa, tem tudo pra ser perfeito e, depois de incontáveis mensagens trocadas, surge a tentativa de se encontrar, de novo, mas só vocês dois dessa vez.

- Na sua casa ou na minha?

- Tanto faz. Pedimos comida ou cozinhamos a quatro mãos?

- Tanto faz. Na minha casa, então?

- Cozinhamos juntos, vai ser divertido.

As cerimônias passam, o risoto não ficou tudo aquilo que você almejava em sonho, mas ainda assim merecia repeteco. Ele quebrou a taça de vinho sem querer e aquela sua blusa paga em vezes agora tem tons violáceos também. O filme? Não, você não escolheria algo tão romântico. Um drama ou uma comédia? Ah, pra que filme se o vinho deixou tudo mais fácil e logo vocês estavam se beijando no sofá?

- Tchau, viu. A gente se fala, né?

- Com certeza. O risoto tava uma delícia. Te devo uma taça nova, não vou esquecer.

E se esquece. Não só das taças. Do seu número, do seu endereço, do seu sorriso, do seu beijo e, é claro, das promessas às entrelinhas de que ele também faria dar certo.

Por que sumir sem dar tchau? Visualizar sua saudade e, depois de muitas tentativas em vão, responder qualquer coisa do tipo 'ah, a gente marca alguma qualquer dia desses, nem esquente'.

Um dia vou aprender a só me apaixonar à segunda vista, só depois desse tal primeiro encontro a dois. Porque já nem tenho criado tantas expectativas por conta própria, mas ainda acho que, de tantas coisas em comum, espero alguém que divida a vontade de não sumir no dia seguinte e deixe meu coração saber o que é reciprocidade pra conseguir amar, sem medo, pela primeira vez outra vez.