OPINIÃO
30/06/2015 15:22 -03 | Atualizado 26/07/2018 16:27 -03

A carta de um neto à minha e à sua avó

Quem tem avó sabe: ela deveria durar para sempre. Quem já não tem mais, vai além: uma pena não ser eterna, mas como a vida seria mais bonita se à nossa avó fosse conferida a eternidade.

Quem tem avó sabe: ela deveria durar para sempre. Quem já não tem mais, vai além: uma pena não ser eterna, mas como a vida seria mais bonita se à nossa avó fosse conferida a eternidade. É duro dizer assim, sem firula nem floreio, que tanto ela quanto todo o seleto grupo de pessoas que nos predispomos a amar, um dia tirará o coringa, baterá as botas e partirá desta para — tomara — uma melhor. No entanto, que fique a lembrança que muitos de nós, por sorte, conseguimos viver e construir ainda no presente. Afinal, como é bom, mesmo à distância, saber que nossa avó existee consegue sempre se mostrar pertinho de nós.

Que minha avó não me ouça, mas ousarei afirmar que se o mundo nos fez tão diferentes, uma coisa é certa: lá pelo início do fim da vida, todas as pessoas parecem se tornar mais do que iguais. Elas se tornam avós. Ô grupinho bacana para chamar de homogêneo, né? Arrisco sem medo a dizer que todas as avós são teimosas, cozinham ou já cozinharam pratos inesquecíveis e legendários, fazem o melhor carinho do mundo e, pobres ou ricas, sempre dão um jeitinho de nos encher de presentinhos e agrados.

Se os netos estão por perto, é sabido que os almoços nos fins de semana tornam-se religiosos e, mesmo que pra você pareça uma obrigação, na verdade é tudo uma jogada premeditada da minha e da sua avó. Tudo para mostrar que, quando ela já não estiver aqui, o que restará serão as lembranças do cheirinho que vinha da cozinha ou da fatídica sobremesa que invariavelmente você provava antes de todos.

Ah, bem lembrado: quem não ama ser o xodó da vó? Ouvir as histórias de quando ela era jovem e ficar, sem nem perceber, prestando atenção por horas no tipo de coisa que nem a escola, tampouco nossos pais, conseguem ensinar.

Minha avó vive falando palavrão, comentando da novela e, de uns tempos pra cá, anda meio turrona ou, aqui entre nós, um tantinho rabugenta. Tentei argumentar de forma sutil, mas, no fim, a gente entende o lado dela: ninguém está preparado para ver a vida passar e sentir-se passando junto dela, sem conseguir fazer o tempo parar. A gente nasce e cresce acreditando piamente que elas são invencíveis, imbatíveis e verdadeiras heroínas. Que fique esta imagem, então; mas no fundo, a gente também percebe o quanto elas são frágeis e sabem que, num piscar de olhos, podem não estar mais por aqui. Um tropeço vira queda, os graus dos óculos preconizam uma leve cegueira, o famoso strogonoff, embora ainda delicioso, vez ou outra leva — muitos — punhados a mais de sal. Das mais nobres às mais humildes: como dói ver nossa avó envelhecer.

É aí que a gente, por conta própria, passa a entender uma porção de coisas. Toda a teimosia e implicância por pouca coisa, é claro, têm explicação: muito mais do que nós, elas também têm medo de deixar a vida e deixar-nos sós.

Aí, só quem já não tem mais a melhor vó do mundo por perto sabe direitinho como é. Fica o gostinho do bolinho de chuva, o cheiro do perfume no travesseiro, as joias herdadas e as roupas de dar inveja a qualquer mortal. Ficam as histórias, as viagens e as peculiaridades de cada avó com cada neto.

Aí, também, só quem ainda pode ver o brilho do olhar, ao vivo e a cores, daquela mulher que chamamos de vó, pode ainda hoje prestar uma homenagem e, seja na forma de texto, seja na forma de abraço, seja até mesmo por WhatsApp - porque essas velhinhas andam mais tecnológicas que nós -, agradecer pelos melhores anos da nossa vida. Os anos que estivemos ao lado das teimosas e frágeis e sábias e inatingíveis e contraditórias melhores avós do mundo.