OPINIÃO
19/03/2014 13:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Quando o tiroteio for na porta da minha casa

Você chega em seu apartamento no Leblon depois de um dia cansativo de trabalho, joga a mochila no sofá, tira o sapato, abre a geladeira para pegar um copo d'água, ou uma cerveja gelada, e começa a escutar um barulho na rua. Vai à janela e vê vários camburões da PM encostando e vários policiais entrando no prédio. Armas engatilhadas, eles vão gritando e ameaçando enquanto sobem as escadas. Você começa a rezar para a babá não chegar com seu filho da praia, ou para que seus pais desistam de vir visitá-lo como haviam prometido. Tranca a porta, vai para o quarto e fica na janela para o caso de algum deles chegar e você ter tempo de gritar para que não subam. Mas não dá tempo, e seu filho chega bem na hora do tiroteio. Uma bala entra na nuca, outra no peito e o menino cai no asfalto, aparentemente sem vida.

A babá começa a gritar e seus pais encostam o carro bem nessa hora. Sua mãe desce correndo e vai em direção ao corpo do neto quando uma bala perfura suas costas e outra sua cabeça. Dois policiais, vendo os corpos no chão, abaixam-se, pegam pelos pés e pela cabeça e os arremessam no porta malas da viatura, como dois sacos de areia passando de mão em mão numa obra. Você vê tudo da janela, alheio ao fato de o tiroteio ainda não ter acabado. Em minutos, a polícia arranca de suas mãos parte da vida que você tinha, e não há nada que você possa fazer. Você ainda está na janela quando as viaturas vão embora, e com elas os policiais e suas armas e seu poder.

Nada disso, evidentemente, acontece em nossas vidas. Mas acontece semanalmente nas comunidades das grandes cidades. Como será viver assim? Como será não ter a certeza de que voltará para casa depois de um dia de trabalho e um tiroteio acabará com a jornada daqueles que você ama?

Alguns acham que a imagem é exagerada porque, afinal, nos bairros nobres das grandes cidades não vivem bandidos, esses contra os quais a polícia deve lutar todos os dias em nome da paz. Mas sou capaz de apostar essa minha miserável vidinha que qualquer varredura aleatória por condomínios chiques na Barra, ou no Jardim Paulistano ou no Leblon vai encontrar um punhado de sonegadores, e de lavadores de dinheiro, e de corruptores e até mesmo de traficantes e usuários de drogas ilegais, essas mesmas que sustentam o tráfico nas favelas, esse mesmo contra os quais os policiais e suas armas e seu poder dizem lutar, e atirar, semanalmente. O que há de diferente entre o seu prédio e a favela?

Claudia Ferreira provavelmente trabalhava mais do que você e eu. Também é provável que mais vidas dependessem da dela do que da sua ou da minha, financeira ou afetivamente falando. Claudia provavelmente acordava mais cedo do que você e eu, gastava mais tempo para chegar ao trabalho do que você e eu, trabalhava mais horas do que cada um de nós e dormia menos do que você e eu. Por que a vida dela vale menos do que a minha ou do que a sua? Vidas têm o mesmo peso, a despeito de escolaridade, da cor da pele, do gênero ou do salário. Exatamente o mesmo peso diante da imensidão do universo.

Fica muito difícil que lutemos por um mundo melhor e menos injusto enquanto não entendermos que as balas que dilaceraram o corpo de Claudia também dilaceraram o meu e o seu. Que a pessoa arremessada como um saco de areia para dentro do porta-malas da viatura era nosso filho, nossa mãe. Que o corpo arrastado pelo asfalto como um pedaço de carne podre era o seu, o meu, o de nossos irmãos.

A grande revolução só acontecerá quando a Zona Sul sair de seu berço esplêndido para ir até a favela protestar com a gente das comunidades contra o sumiço de Amarildo e contra a execução de Claudia. Do mesmo jeito que a homofobia só acabará quando os heterossexuais entenderem que a luta por igualdade é deles também, e que o racismo fere a dignidade dos brancos porque desumaniza aqueles que em nada são diferentes deles, e que o machismo é uma ofensa aos homens porque diminui aquelas que em absolutamente nada se distinguem deles.

Einstein talvez tenha alcançado com palavras toda a verdade que teimamos em não ver: "Um ser humano", escreveu ele, "é parte de um todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos como alguma coisa separada do resto - uma espécie de ilusão de ótica de sua consciência. Essa ilusão é uma forma de prisão para nós, restringindo-nos aos nossos desejos pessoais e à afeição por umas poucas pessoas próximas. Nossa tarefa deve ser a de nos libertarmos dessa prisão alargando nossos círculos de compaixão para envolver todas as criaturas vivas e o todo da natureza em sua beleza."

Ou, como sugeriu o mitologista Joseph Campbell, é preciso refletir sobre o real significado de uma frase que infelizmente já foi tão gasta por uma igreja apodrecida e desmoralizada: "ama o próximo como a si mesmo". O que talvez Jesus tenha querido dizer é: "ama o próximo porque é tu mesmo".

(Texto publicado originalmente no Blog da Milly)

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