OPINIÃO
19/10/2016 13:32 -02 | Atualizado 19/10/2016 13:32 -02

'Quem matou Eloá?': Um documentário para pensar o feminicídio e espetacularização

Eloá não queria mais um relacionamento e foi morta por isso. A mídia relevou a figura de um homem apaixonado e desesperado e santificou a menina-morta. Escondendo-se com a máscara do leitor (quem?) que quer ser informado - "saber mais detalhes" -, a mídia moraliza a história e vê na tragédia o lembrete para a não repetição. Só precisa avisar que mulheres continuam morrendo diariamente nas mãos de homens. E que a mídia continua a tingir esses homens e esses casos com as cores do amor. Mas é sangue mesmo.

Divulgação

Acredito que muitos acompanharam pela mídia televisiva o caso da Eloá em 2009. O ex-namorado Lindemberg Alves invadiu o apartamento de Eloá Pimentel, de 15 anos na época, e a manteve refém por cinco dias.

Lembro muito dessa história porque ficava em casa no período da tarde, depois de voltar do colégio, e porque por uma semana quase todos os canais abertos "cobriram" o fato ininterruptamente.

Lindemberg matou a ex-namorada com um tiro na cabeça e outro na virilha. Mas será que foi apenas Lindemberg quem matou Eloá? A polícia durante os cinco dias conversou com o rapaz e estabeleceu com ele uma relação de confiança (afinal, tratava-se de um moço "sem antecedentes criminais e trabalhador"). No entanto, antes de mais nada, e acima de tudo, qual foi o papel da mídia na morte da menina? Sempre que tento recordar algum caso de interferência absurda da imprensa em uma pretensa cobertura o caso de Eloá me vem à mente.

O documentário"Quem matou Eloá?", de Lívia Perez, traz muitas das cenas de horror daqueles dias. Jornalistas atravessaram as negociações, conversaram com o sequestrador, fizeram pedidos e insuflaram toda a situação (Lindemberg orgulhava-se da atenção que recebia). Sob o manto da ética e da imparcialidade, emissoras miraram na audiência e erraram de forma cabal. (O jornalista Britto Jr., por exemplo, respondendo sobre o papel da mídia no desfecho, disse que a TV Record só quis ouvir os 'dois lados', sem sensacionalismo). A vida de Eloá era o que menos parecia importar.

Imagem do documentário 'Quem matou Eloá?', de Lívia Perez

"Quem matou Eloá?" fala essencialmente da mídia na cobertura de casos de feminicídio. Hoje, apesar de termos iniciativas importantíssimas como o Minimanual do Jornalismo Humanizado feito pela ONG Think Olga, ainda, deliberadamente e sem reflexão, falamos de crimes praticados por ciúmes e por amor em excesso. Matar por amar demais?

Romantizamos e nos posicionamos todas as vezes em que preferimos não usar a palavra "estupro" para o que deveria ser chamado de estupro. No caso de Eloá, um comentarista do programa de Sônia Abrão (RedeTV!) "analisa" a situação e diz acreditar que tudo acabará em pizza (é isso mesmo que ele fala). Afirma ainda que aquela crise (o sequestro?) iria passar, que ela o perdoaria (!) e que eles ficariam juntos (!!).

Eloá não queria mais um relacionamento e foi morta por isso. A mídia relevou a figura de um homem apaixonado e desesperado e santificou a menina-morta. Escondendo-se com a máscara do leitor (quem?) que quer ser informado - "saber mais detalhes" -, a mídia moraliza a história e vê na tragédia o lembrete para a não repetição.

Só precisa avisar que mulheres continuam morrendo diariamente nas mãos de homens. E que a mídia continua a tingir esses homens e esses casos com as cores do amor. Mas é sangue mesmo.

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