OPINIÃO
13/11/2014 10:57 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Manoel: um agradecimento e um pedido

Nós, brasileiros, ainda precisamos dar-nos conta de como somos abençoados nas palavrinhas.

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Nós, brasileiros, ainda precisamos dar-nos conta de como somos abençoados nas palavrinhas.

O amor a Drummond, por exemplo, sempre me acompanhou, desde criança. Para mim, é inconcebível não ter vontade de abraçá-lo - até por aquela feição amistosa, ocasionada por um rosto magro e comprido com os óculos de armações grossas e um sorrisinho de canto.

E, ainda criança, eu achava que o melhor poeta para falar comigo era o Mario Quintana. Ele falava tantas coisas engraçadas, que me faziam rir sozinha e me perguntar: "como que eu não pensei nisso antes?".

Um amadurecimento e algumas voltas pela vida me levaram a Manoel de Barros. Veja, não seria um amadurecimento poético, porque entre genialidades não há o que se comparar. Aprendi com algumas dores ou passei a olhar de forma diferente. De modo que uma frase como a anterior não precisava mais de um complemento. Olhar para onde? Olhar simplesmente.

E, ao lado de um Drummond amado - e conhecido! - por dez entre dez, eu me satisfazia em guardar como segredo e divulgar para alguns as maravilhas do inigualável Manoel.

Neste ano, as palavrinhas sangraram. Sangraram muito. E os fatos me fizeram pensar que o tal adjetivo "imortal" poderia se fixar além dos livros e da memória. Trata-se de um egoísmo nosso, sentimento humano e vil, de não dar descanso a quem tanto merece e a quem tanto nos deu em momentos difíceis. E que agora sofre. Que agora sofre. Sofre.

Fico a pensar que tantos já passaram e não vejo mais nada parecido vindo. Talvez seja só um pessimismo tolo.

Até porque o próprio Manoel já deu lições que propiciam a multiplicação de fazedores poéticos. Anotemos:

"As coisas que não levam a nada

têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima"

(Matéria de poesia - 1970)

"Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja."

(O livro sobre nada - 1996)

"Um grilo é mais importante que um navio.

(Isso do ponto de vista dos grilos)"

(O fazedor de amanhecer - 2001)

-

Isto aqui é um agradecimento. E um pedido para que fique bem.

- Este texto foi escrito minutos antes da divulgação da morte do poeta. Mais uma vez: obrigada, Manoel.

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