OPINIÃO
30/10/2014 09:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

"Ilegal": filme mostra a luta de mães pela regulamentação da maconha medicinal

"A palavra é essa: traficar." Katiele Fischer é mãe de Anny, uma menina de cinco anos que sofre de uma síndrome grave e sem cura, e precisa de um remédio derivado da Cannabis sativa. O documentário "Ilegal" registra a luta de mães pela regulamentação da maconha medicinal.

Divulgação

"A palavra é essa: traficar." Katiele Fischer é mãe de Anny, uma menina de cinco anos que sofre da síndrome de CDKL5, grave e sem cura, e precisa do canabidiol (CBD), um remédio derivado da Cannabis sativa. O documentário "Ilegal" registra a luta de mães pela regulamentação da maconha medicinal.

Realizado pela produtora paulistana 3Film em parceria com a revista Superinteressante, o projeto nasceu após uma reportagem de Tarso Araújo, jornalista que também é diretor do longa. O processo é contado ao longo do filme, depois de já apresentados os dramas dos pais de Anny; de Margarete e Marcos Brito, pais de Sofia; e de Camila, mãe de Gustavo. "Ilegal" também conta a história de uma mulher com um problema raro na coluna, que implantou uma bomba de morfina, mas só atingiu o alívio da dor ao começar a fumar maconha, pelas suas propriedades medicinais. No banheiro, escondida.

O documentário é forte e evidencia o quão lenta e burocrática é a sociedade brasileira, quando o tema gira em torno da Anvisa. Uma das cenas mais angustiantes, entre tantas outras, é protagonizada por Katiele. A mãe de Anny tenta falar com a Anvisa, para saber onde se encontra o canabidiol importado por ela dos Estados Unidos e barrado no Brasil. A filha começa a convulsionar. São 60 convulsões por semana. Ou seja, uma convulsão a cada duas horas.

Após o início da campanha Repense, a menina Anny Fischer tornou-se a primeira pessoa com autorização para usar cannabis medicinal no Brasil. Katiele e o marido passaram a marcar em uma tabela os dias em que a filha tem convulsões. Com o uso do canabidiol, é visível a diminuição das cores no quadro. No fim do documentário, Anny já está há cinco meses sem convulsionar.

Utilizado legalmente em mais de 20 estados norte-americanos, o CBD, e com ele as discussões sobre o uso medicinal da maconha, parece caminhar a passos lentos no Brasil. O drama vivido pela mãe de Gustavo mostra como esse tipo de posicionamento é nocivo. Ela mora em Brasília e luta para conseguir o remédio para seu filho. E as mães que vivem nos rincões do país? "Se eu já dou três drogas para um bebê de um ano e três meses, por que não o CBD?", questiona outra mãe. São as mesmas dores, apenas com endereços distintos.

O documentário mostra a importância de se dar visibilidade a determinados assuntos; quão relevante é o posicionamento de jornalistas como Tarso, que resolvem contar uma história. A reportagem inicial levou o casal Fischer ao Fantástico, da Globo, e a várias notas e notícias pela internet. Agora "Ilegal", que conta com depoimentos de parlamentares como Jean Wyllys (PSOL - RJ) a médicos como Drauzio Varella, chega aos cinemas para propor uma discussão.

"A ideia surgiu depois de uma entrevista que fiz com ela. O relato me comoveu muito e quis ajudá-la. A proposta, em nenhum momento, é falar sobre droga, e sim mostrar a história de uma mãe que luta para salvar a vida da filha. Espero que o país estude mais a sério o tratamento medicinal alternativo para certas doenças", afirma Tarso.

Apesar de o foco não ser as drogas, a legalização da maconha é uma linha pela qual o filme segue na essência. E isso é claro. Além da edição da Marcha da Maconha no Rio de Janeiro, o deputado Jean Wyllys, em uma conversa com Katiele e Margarete no Congresso, diz que a luta dele não será apenas pelo uso medicinal, mas sim por sua legalização (bandeira negligenciada por outros parlamentares). Em outro momento, o médico Drauzio Varella afirma que o Brasil é atrasado e culpabiliza a "cultura da faculdade de medicina", que não se dedica a pesquisar os efeitos positivos do canabidiol, por exemplo.

"Ilegal", além de propor debate, chega até duas questões primordiais: até que ponto o mero preconceito impedirá a evolução de uma sociedade como a nossa? E até que ponto o Estado deve ou não ditar as regras de algo tão pessoal, como o fim do sofrimento do meu filho? Se este mesmo Estado é capaz de ouvir de uma mãe que sua criança convulsiona a cada duas horas, todos os dias, e nada faz? Katiele, e tantas outras, sabem que traficam. E elas continuarão a fazê-lo.

Texto publicado originalmente no site FalaCultura.

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