OPINIÃO
09/04/2016 20:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Exposição remonta universo brasileiro de Câmara Cascudo

Em carta a Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, grande devoto do Brasil, disse que não nutria sentimentos maiores por seu país do que os que sentia pela França ou pela Conchinchina, no entanto, era no Brasil que lhe cabia viver e é para o Brasil que ele dedicava seus olhares. A trajetória do político Mário não é tão conhecida quanto sua faceta de escritor. O paulistano dirigiu o Departamento de Cultura de São Paulo, criou a Discoteca Oneyda Alvarenga, até hoje em funcionamento no Centro Cultural São Paulo, e se dedicou à preservação do folclore nacional.

O amor do intelectual Câmara Cascudo pela cultura popular brasileira me trouxe à cabeça esta confissão de Mário a Drummond. Uma exposição inédita em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, apresenta ao público o universo do estudioso Luís da Câmara Cascudo, que ainda hoje é capaz de apresentar o Brasil aos brasileiros de um modo muito peculiar. Em dezembro, celebra-se o nascimento de Cascudo. A mostra, "O Tempo e Eu (e VC)" segue aberta ao público até o mês de fevereiro.

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Câmara Cascudo (1898 - 1986) dedicou a vida inteira a estudar nossos costumes, nossos medos e nossa fé. É dele a clássica obra História da Alimentação no Brasil, que se propõe a explicar o Brasil por meio do paladar. Uma das instalações da mostra reúne tábuas de carne com curiosidades relacionadas a frutas, temperos e sabores. "Desde as primeiras horas no Brasil a portuguesa incluiu as frutas da terra na igualdade útil dos sabores tradicionais em Portugal", diz uma das inscrições.

Sob a curadoria de Gustavo Wanderley, diretor da Casa da Ribeira de São Paulo, a exposição traz um recorte de quem foi Câmara Cascudo e abarca as várias facetas do historiador. Afinal, além de pesquisador, também era um folclorista nato, etnógrafo, escritor, advogado e professor. Orgulhoso e devotado ao ensinar, ele costumava fixar na porta de sua casa os dizeres "o professor Câmara Cascudo não recebe pela manhã". E, depois, recebia a todos de pijama, seu traje preferido.

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Foto: Diogo Cascudo

Logo na entrada, um labirinto de 20 mil livros (a 'Babilônia', apelido carinhoso que deu à sua biblioteca) e uma estante com os mais diversos objetos, de itens pessoais a bebidas, levam o visitante a identificar o Cascudo Boêmio, o Cascudo Devoto ou, então, o Cascudo Homem Dicionário. Frases clássicas do escritor, como "o melhor do brasil ainda é o brasileiro" e "a velhice dá dimensões líricas às coisas vulgares", também dão conta da argúcia do potiguar com as palavras.

Câmara Cascudo foi a fundo no seu Brasil. Destrinchou a relação entre indígenas, portugueses e escravos, a formação do 'povo brasileiro', as crenças, os mitos, a alimentação, a música, os ditados populares e as expressões. Pouco passou despercebido pelos seus olhos atentos e curiosos.

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Foto: Milena Buarque

Todo trabalho do homem é para sua boca

Gestos, cantorias, ciranda, um tempero, a pimentinha na farinha, o santo protetor, a rede que faz parte da família, o sal grosso para espantar mau olhado e o alho contra o olho gordo. Você passa debaixo da escada? Deus me livre! Vamos cirandar.

A exposição é divida a partir de cinco módulos (biografia; danças; oralidade; crenças; e cozinha brasileira) para dar conta das diversas temáticas presentes na obra de Câmara Cascudo, desde a gastronomia, passando pelas danças e pelo folclore do Brasil, buscando criar um ambiente lúdico e interativo, que possibilite um passeio pelo pensamento do historiador e seu caráter contemporâneo.

Um pequeno exemplo do detalhismo da mostra está no conceito de tipologia da exposição. A escrita foi criada a partir das letras, brasões e grafismos encontrados nas marcações do gado no sertão nordestino.

Em "A Literatura Oral e a Voz do Gesto", por exemplo, o legado oral transmitido ao longo de gerações, como o conto, a lenda, as adivinhações e provérbios, cantigas, orações, parlendas e frases-feitas, foram trabalhados com muito cuidado pela curadoria. A representação física foi a maneira encontrada para levar ao público o estudo sobre cultura falada. Assim, anedotas e cantigas são encenadas por bonecos. O gesto também marca presença como precursor da linguagem em todos os recantos do mundo.

No entanto, é o módulo dedicado à cozinha brasileira, "Todo trabalho do homem é para sua boca", o mais detalhado e especial da mostra. Cheio de sons, cheiros e toques, a história de alimentos brasileiros como o arroz e o feijão, bem acompanhados de uma boa farinha de mandioca, ganham espaço para destrinchar um pouco do caminho de Câmara Cascudo pelo paladar do brasileiro. Ao pesquisar as raízes da alimentação no país, o autor chegou a passar três meses na África Ocidental.

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Foto: Milena Buarque

A mistura de crenças, religiões e superstições aparece em imagens de santos católicos enfileirados no mesmo ambiente em que estão objetos que remetem à superstição, como o gato preto e o sal grosso. O historiador não acreditava no tão falado sincretismo brasileiro. Para ele, as pessoas escravizadas à época faziam de conta que estavam venerando a São Jorge, mas estavam venerando a sua própria crença.

Autor de mais de 150 livros e 2500 artigos de jornal, entre eles o Dicionário do Folclore Brasileiro, Câmara Cascudo ainda permanece pouco conhecido ao grande público. Para a neta Daliana Cascudo, todos os contemporâneos do escritor já passaram pelo Museu da Língua Portuguesa, entre os quais amigos como Guimarães Rosa, Gilberto Freyre, Cora Coralina, Jorge Amado, Clarice Lispector e Oswald de Andrade. A ausência dele era sentida - e sua presença mais que necessária.

A mostra é uma realização da Casa da Ribeira São Paulo e do Ludovicus - Instituto Câmara Cascudo, entidade criada por Anna Maria Cascudo, após o falecimento de seus pais. O instituto funciona na antiga residência do casal, no Rio Grande do Norte, e foi aberta ao público em 2010. Depois da capital paulista, o mundo de Câmara Cascudo ainda vai passar por Curitiba, Rio de Janeiro, Fortaleza, Belém e Manaus.

Serviço

O Tempo e Eu (e Vc) - Câmara Cascudo no Museu da Língua Portuguesa

Até 14 de fevereiro de 2016

Horário: de terça a domingo, das 10h às 18h

Entrada: R$ 6 | Grátis aos sábados

Local: Museu da Língua Portuguesa | Praça da Luz, s/nº - Luz

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