OPINIÃO
08/11/2014 21:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

O mundo está à beira de uma nova Guerra Fria

As lições da crise global contínua devem convencer-nos de que precisamos buscar um novo modelo que garanta a sustentabilidade política, econômica e ambiental. Este é um problema que deve ser resolvido agora, sem demora.

REUTERS/Hannibal Hanschke

NOTA:Discurso proferido no dia 8 de novembro de 2014, durante Fórum de Novas Políticas, em Berlim

I

É um prazer dar boas-vindas a todos os participantes e ver, entre eles, veteranos do nosso Fórum e alguns novos rostos. Espero que todos possam contribuir para um diálogo sério e construtivo - diálogo tão necessário neste momento.

Nossa conferência acontece simultaneamente às celebrações do 25º aniversário da queda do muro que dividia Alemanha e Europa. Eu gostaria de, primeiramente, parabenizar todos os alemães, e todos nós, pelo aniversário desse evento verdadeiramente histórico.

Mudanças históricas que parecem algo inesperado para os contemporâneos podem, mais tarde, soar como eventos inevitáveis, predestinados. Mas vamos recordar o momento em que tudo aconteceu e quão tumultuado e urgente foi o processo de mudança. O resultado - a unificação pacífica da Alemanha - só foi possível porque fora gestado por grandes mudanças na política internacional e nas mentes das pessoas.

Essas mudanças foram provocadas pela Perestroika na União Soviética. Tendo iniciado o curso de reformas, Glasnost e da liberdade, não poderíamos negar o mesmo caminho para as nações da Europa Central e Oriental. Nós rejeitamos "a doutrina Brejnev" [Doutrina da Soberania Limitada], reconhecemos a independência dos estados e a responsabilidade de seus próprios povos. Eu disse isso aos seus líderes durante a nossa primeira reunião em Moscou.

Quando, sob influência de mudanças na União Soviética, os processos políticos internos ganharam impulso nos países vizinhos, e os cidadãos da Alemanha Oriental exigiram reformas e, logo em seguida, a unificação, a liderança da União Soviética foi confrontada com a necessidade de fazer escolhas difíceis.

Não apenas em nosso país, mas em muitos países europeus, as dúvidas e apreensões foram sendo levantadas pelo processo de unificação. Pode-se compreender as dúvidas de Margaret Thatcher, François Mitterrand e outros líderes. Afinal de contas, a tragédia da Segunda Guerra Mundial ainda estava fresca na memória. Havia outras razões, também, para a sua desconfiança.

Ademais, o povo de nosso país, que sofreu demais com a agressão de Hitler, tinha motivos para preocupação.

Enquanto isso, os eventos se desenrolavam em um passo rápido, com as pessoas sendo o ator principal - as pessoas que exigiam mudança e declararam sua intenção de viver em um país unido: "Nós somos uma nação."

Durante uma reunião da liderança soviética em janeiro de 1990, discutimos a evolução da situação e chegamos à conclusão unânime de que a União Soviética não deveria ficar no caminho da unificação - mas que ela deveria acontecer de uma forma que seria de interesse da toda a Europa e do nosso país, bem como dos próprios alemães.

Se tivéssemos evitado uma avaliação realista e responsável ou tomado uma decisão diferente, os eventos poderiam ter seguido um rumo diferente, dramático. E o uso da força poderia ter levado ao derramamento de sangue em grande escala.

Escolhemos o caminho que exigia decisões políticas e diplomacia ativa. A fim de abordar os aspectos externos da unificação alemã, foi criado o mecanismo de 2+4 [Tratado Dois Mais Quatro]. A questão mais difícil era o problema da adesão da Alemanha unificada na OTAN.

tratado dois mais quatro

Tratado Dois Mais Quatro

Eu era a favor de uma Alemanha neutra. O presidente Bush se opôs: Por quê? Você tem medo dos alemães? Então eles devem ser incluídos, "ancorados" na OTAN. Eu respondi: Parece que é você quem está com medo deles.

Discutimos várias possibilidades. Eventualmente, foi acordado que a Alemanha unificada decidiria por si mesma quanto à adesão à aliança, mas, no processo, deveriam ser levados em conta os interesses de segurança da União Soviética.

Isso exigiu negociações intensas. No final, o Tratado sobre a Regulamentação Definitiva referente à Alemanha [Tratado Dois Mais Quatro] registrou as seguintes disposições:

  • a presença de tropas soviéticas no território da antiga Alemanha Oriental para o período de transição;
  • o não-estacionamento de tropas estrangeiras da OTAN nesse território após o período de transição;
  • a não-colocação de armas nucleares lá;
  • a redução significativa, de quase 50 por cento, do pessoal das forças armadas da República Federal da Alemanha.

Aqueles eram obrigações importantes, que foram observadas ao longo do período que se seguiu.

Durante esses anos, os alemães provaram o seu compromisso com a paz e a democracia, e o governo da Alemanha tem seguido um curso de ação geralmente construtivo e responsável na arena internacional.

Tenho certeza que a História vai dar notas altas para os líderes políticos ativos naquele momento.

II

A unificação da Alemanha foi um passo importante no processo de acabar com a Guerra Fria. Novas perspectivas se abriram para o mundo e, particularmente, para a Europa. A forma de uma nova Europa emergia da Carta de Paris, assinada pelos líderes de todos os países europeus, assim como os Estados Unidos e Canadá.

Parecia que a Europa poderia surgir como um exemplo para os outros, criando um sólido sistema de segurança mútua e se tornando um líder na resolução de problemas de um mundo global.

No entanto, os acontecimentos tomaram um rumo diferente.

As políticas europeia e internacional não resistiram ao teste da renovação, das novas condições do mundo global na era pós-Guerra Fria.

É preciso admitir que desde a criação do nosso Fórum, no alvorecer deste século, nunca nos encontramos em um ambiente tão tenso e preocupante. O derramamento de sangue na Europa e no Oriente Médio contra o pano de fundo do colapso no diálogo entre as grandes potências é de enorme preocupação. O mundo está à beira de uma nova Guerra Fria. Alguns estão até dizendo que ela já começou.

E, no entanto, enquanto a situação é dramática, não vemos o principal organismo internacional - o Conselho de Segurança da ONU - assumir qualquer papel ou tomar medidas concretas. O que ele tem feito para apagar o incêndio e acabar com a morte de pessoas? Ele deveria ter agido com determinação para avaliar a situação e desenvolver um programa de ação conjunta. Mas isso não foi feito, e não está sendo feito. Por quê?

Eu diria que o que vem acontecendo ao longo dos últimos meses é o colapso da confiança - confiança que foi conquistada por meio do trabalho duro e do esforço mútuo no processo de acabar com a Guerra Fria. Confiança sem a qual as relações internacionais no mundo global são inconcebíveis.

No entanto, seria errado vincular essa perda de confiança apenas a eventos recentes. Eu tenho que ser franco com vocês aqui. Essa confiança não foi prejudicada ontem; isso aconteceu muito antes. As raízes da atual situação encontram-se nos acontecimentos da década de 1990.

O fim da Guerra Fria foi apenas o começo do caminho para uma nova Europa e uma ordem mundial mais segura. Mas, em vez de construir novos mecanismos e instituições de segurança da Europa, e buscar uma ampla desmilitarização da política europeia - algo prometido, aliás, na Declaração de Londres da OTAN -, o Ocidente, e particularmente os Estados Unidos, declarou vitória na Guerra Fria. Euforia e triunfalismo subiram à cabeça dos líderes ocidentais. Aproveitando o enfraquecimento da Rússia e da falta de um contrapeso, eles alegaram liderança de monopólio e dominação no mundo, recusando-se a prestar atenção às palavras de cautela de muitos dos presentes aqui.

Os acontecimentos dos últimos meses são consequências de políticas míopes, de tentar impor sua vontade e fatos consumados, ao passo que ignora os interesses de parceiros.

Uma breve lista será suficiente: a expansão da OTAN, Iugoslávia, Kosovo particularmente, planos de defesa antimísseis, Iraque, Líbia, Síria.

Para colocá-lo metaforicamente, uma bolha já se transformou em uma ferida sangrenta, purulenta.

E quem está sofrendo mais com o que está acontecendo? Acho que a resposta é mais que clara: é a Europa, a nossa casa comum.

Em vez de se tornar um líder de mudança em um mundo global, a Europa tornou-se uma arena de agitação política, da concorrência por esferas de influência e, por fim, de um conflito militar. A consequência, inevitavelmente, é o enfraquecimento da Europa no momento em que outros centros de poder e influência estão ganhando impulso. Se isso continuar, a Europa perderá uma voz forte no mundo dos negócios e, gradualmente, tornar-se-á irrelevante.

Aqui em Berlim, durante o aniversário da queda do muro, devo observar que tudo isso também teve um efeito negativo sobre as relações entre Rússia e Alemanha. A continuação do curso atual pode causar danos permanentes às nossas relações, que têm até agora sido exemplares. Lembremo-nos de que, sem a parceria russo-alemã, não pode haver segurança na Europa.

III

Então, como vamos começar a sair desta situação?

A experiência da década de 1980 atesta que, mesmo em situações aparentemente sem esperanças, tem de haver uma saída. A situação em que o mundo estava naquele tempo não era menos urgente e perigosa do que agora. No entanto, conseguimos reverter isso - e não apenas normalizar as relações, mas pôr fim ao confronto e à Guerra Fria. Os líderes políticos daquele período podem devidamente levar crédito por isso.

Isto foi conseguido principalmente por meio da retomada do diálogo.

Tendências negativas podem e devem ser interrompidas e revertidas. A chave para isso é a vontade política eca definição correta de prioridades.

Hoje, a principal prioridade deve ser a renovação do diálogo, recuperando a capacidade de interagir e ouvir uns aos outros.

Os primeiros sinais de um diálogo renovado já surgiram. Os primeiros resultados, embora modestos e frágeis, foram alcançados. Refiro-me aos acordos de Minsk sobre cessar-fogo, o desengajamento militar na Ucrânia, os contratos de gás trilaterais entre a Rússia, Ucrânia e União Europeia, e a suspensão da escalada de sanções mútuas.

Neste contexto, gostaria de exortá-los a considerar cuidadosamente as recentes declarações de Vladimir Putin no Fórum Valdai. Apesar da dureza de suas críticas ao Ocidente e aos Estados Unidos em particular, eu vejo em seu discurso o desejo de encontrar uma maneira de diminuir as tensões e, finalmente, construir uma nova base para a parceria.

Devemos - e quanto mais cedo fizermos isso, melhor - trocar polêmicas e acusações mútuas por uma busca de pontos de convergência e um levantamento gradual das sanções, que são prejudiciais para ambos os lados. Como primeiro passo, as chamadas sanções pessoais que afetam figuras políticas e parlamentares devem ser levantadas para que possamos participar do processo de busca de soluções mutuamente aceitáveis.

Uma das áreas de interação poderia ajudar a Ucrânia a superar as consequências da guerra fratricida e a reconstruir as regiões afetadas.

IV

Não será fácil alcançar esses objetivos em curto prazo. Mas, ao mesmo tempo, temos de continuar com os esforços vigorosos em todas as outras áreas da nossa agenda comum.

Gostaria de destacar duas áreas em que o diálogo é de vital importância e que, a elas, tanto dano tem sido feito. São, em primeiro lugar, a cooperação para enfrentar desafios globais e, em segundo lugar, a segurança pan-europeia.

Os problemas globais - o terrorismo e o extremismo, incluindo aquele de natureza sectária; a pobreza e a desigualdade; o meio ambiente, o problema dos recursos e as ondas de migração; as epidemias - estão piorando a cada dia.

E, ainda que sejam problemas diferentes, uma coisa que é comum a todos eles: nenhum tem uma solução militar. Ainda assim, os mecanismos políticos para resolvê-los são escassos ou disfuncionais, deixando para trás o ritmo de sua deterioração.

As lições da crise global contínua devem convencer-nos de que precisamos buscar um novo modelo que garanta a sustentabilidade política, econômica e ambiental. Este é um problema que deve ser resolvido agora, sem demora.

Deixe-me agora falar sobre a segurança europeia. Acho que vimos mais uma vez que ela deve ser pan-europeia. As tentativas de resolver o problema da segurança na Europa por meio da ampliação da OTAN ou de uma política de defesa da União Europeia não podem trazer resultados positivos. Na verdade, eles são contraproducentes.

Devemos, portanto, voltar à prancheta de desenho e trabalhar em planos para construir um sistema de segurança europeu que forneça garantias a todos os seus participantes.

Precisamos de instituições e mecanismos que funcionam de acordo com o interesse de todos. Deve ser reconhecido que a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, uma organização em que se teve muita esperança, não foi à altura da tarefa.

Isso significa que ela deve ser demolida para que se construa em seu lugar algo novo e ainda não visto? Eu não penso assim, tanto mais que OSCE agora assumiu funções de controle importantes na Ucrânia. Mas é, eu diria, um edifício que requer grandes reparações e algumas novas construções.

Anos atrás, Hans Dietrich Genscher, Brent Scowcroft e outros tomadores de decisões políticas propuseram a criação de um Conselho de Segurança, ou Direção, para a Europa. Eu compartilhei de sua abordagem. Na mesma linha, Dmitry Medvedev, durante sua presidência, propôs uma iniciativa que chamou para a criação de um mecanismo de diplomacia preventiva europeia e consultas obrigatórias em caso de ameaça à segurança de alguém. Se tal mecanismo tivesse sido criado, os piores cenários de eventos ucranianos poderiam ter sido evitados.

Por que foram arquivadas estas e outras "ideias europeias"? Os líderes são obviamente responsáveis por isso - mas todos nós também somos. Refiro-me à classe política europeia, às instituições da sociedade civil e da mídia.

Precisamos considerar uma iniciativa não governamental para retomar a construção de uma casa comum europeia. Eu sugiro que nós pensemos sobre a forma que tal iniciativa poderia tomar. Espero que, durante nossas discussões, os caminhos neste sentido possam ser avaliados e propostas específicas possam ser feitas.

V

Eu não sou um pessimista por natureza, e sempre me descrevo como um otimista. Mas eu tenho que admitir que é muito difícil ser otimista na situação atual. No entanto, não devemos ser submissos ao pânico e ao desespero, ou nos resignar ante a inércia negativa. Isso poderia nos levar a um vórtice sem saída. A amarga experiência dos últimos meses deve ser transformada em vontade de retomar o diálogo e a cooperação.

Este é o meu apelo aos nossos líderes, e a todos nós. Vamos pensar, propor e agir em conjunto.

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