OPINIÃO
20/11/2014 16:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Quando a mente é nossa maior inimiga

Gary John Norman via Getty Images

O risco de uma mãe perder seu filho adolescente para um transtorno da mente é maior que em decorrência de qualquer outra doença. Com diagnósticos inconsistentes e um manual questionado por autoridades da saúde mental, a psiquiatria está longe de mudar essa realidade

Ao perder a luta contra a depressão, em agosto, o ator Robin Williams colaborou com uma triste estatística: o suicídio leva cerca de um milhão de vidas por ano em todo o mundo, sendo uma das dez principais causas de morte na maior parte dos países. Enquanto a medicina busca com sucesso reduzir o índice de mortalidade das doenças mais perigosas, o suicídio persiste indefectível e cada vez mais ameaçador. De acordo com Organização Mundial da Saúde, nos últimos 45 anos, o número de pessoas que tiraram a própria vida aumentou em 60% - índice que de acordo com a entidade tende a continuar crescendo de forma preocupante.

No Brasil, o aumento foi de 30% nos últimos 30 anos. Apesar de comum entre pessoas com o perfil de Williams - homem acima dos 60 anos com histórico de depressão ou dependência - o suicídio de jovens prevalece em um terço dos países. Aqui, assim como nos Estados Unidos, é a terceira causa de morte entre jovens de até 24 anos de idade (atrás de acidentes e homicídio). A chance de uma mãe perder um filho para essa armadilha da própria mente é maior que perdê-lo em decorrência de qualquer doença.

Mesmo tão fantasticamente equipado para se adaptar e reagir a qualquer situação de risco, o cérebro humano é capaz de desafiar o instinto mais básico e fundamental da natureza, que é a própria sobrevivência. Pagamos um preço alto por um cérebro tão complexo: a mesma consciência que nos diferencia das outras espécies é, por vezes, nossa maior inimiga. Longe de ser inabalável, tem sua vulnerabilidade testada ao longo da vida por inúmeros fatores, que vão de traumas físicos e emocionais a alterações biológicas herdadas ou desenvolvidas.

Episódios familiares, pessoais ou financeiros podem servir como agravantes para o comportamento suicida, mas na maioria dos casos, a busca por um acontecimento que tenha causado o ato é inútil: é o buraco escuro criado pelos transtornos mentais - se seguirmos os conceitos oficiais da psiquiatria - que está por trás de 90% dos atos. Esses transtornos prejudicam uma a cada cinco pessoas do planeta, sendo a depressão a mais comum.

E se esses distúrbios estão sendo levados à sua pior consequência com tamanha frequência, é possível concluir que a psiquiatria como é praticada hoje deva ser repensada. A falta de comprovação científica dos diagnósticos listados no DSM (manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), que é a principal referência dos profissionais da área, leva grandes nomes da saúde mental a questionar falta de resultados e até mesmo os riscos da profissão.

A cada nova edição são criados novos distúrbios. No atual DSM-V, são listados cerca de 300. Muitos dos comportamentos que até então eram considerados normais para determinadas situações ou fases da vida - como o luto, a mudança brusca de humor da infância, entre muitos outros - passam a se enquadrar em um distúrbio, depois de uma avaliação médica bastante subjetiva. De acordo com o psicoterapeuta e professor de psicologia e antropologia da medicina da Universidade de Roehampton (Londres), James Davies, os próprios criadores da terceira edição do DSM constataram que, quando consultam dois psiquiatras, entre um terço e metade dos pacientes saem do consultório com diagnósticos diferentes. Se está cada vez mais difícil distinguir transtornos reais de normalidade e em grande parte das vezes não se chega a um diagnóstico preciso, de que forma essa ciência pretende evitar danos tão complexos como o suicídio?

Um dos críticos do manual da psiquiatria e questionadores da forma como essa ciência vem sendo desenvolvida é ninguém menos que Thomas Insel, diretor do principal instituto em saúde mental norte-americano, o National Institute of Mental Health (NIMH). Insel vem gerando polêmica entre os profissionais, primeiro ao anunciar que a instituição não iria mais utilizar a categorização das doenças conforme o DSM, depois questionando as pesquisas feitas com base em sintomas, sem nenhuma evidência biológica.

Se a psiquiatria é a ciência da incerteza e da controvérsia nos diagnósticos, na opinião do diretor do NIMH é porque faltam pesquisas de neurociência clínica, que apresentem um entendimento mais profundo do funcionamento do cérebro. Neste ano, ele anunciou que o instituto está mudando a estratégia de apoio a pesquisas e, no lugar dos estudos com base no alívio de sintomas, dará prioridade aos projetos que investigam as raízes biológicas das doenças mentais. O que muitos argumentam é que esse tipo de pesquisa necessita de muito tempo para chegar a resultados - se chegar. Mas ele é convicto ao defender a mudança de conceito na psiquiatria, que deve passar a considerar os "distúrbios de comportamento" como "distúrbios do cérebro".

"As discussões em torno de transtornos mentais raramente focam na verdade inconveniente: são atualmente são fatais quanto as doenças mais perigosas. Precisamos continuar investindo em pesquisas que desenvolvam novos e mais eficazes tratamentos para depressão e outros distúrbios. Nosso objetivo deve ser um futuro em que nenhuma vida será perdida para o suicídio", escreveu Insel em seu blog após a morte de Williams.

De fato, faltam evidências biológicas para o desenvolvimento de tratamentos mais assertivos. Mas o que faz da psiquiatria uma ciência tão complexa é justamente a combinação de fatores biológicos, sociais e comportamentais, de forma que muitas vezes é impossível saber onde começa um e termina o outro. Resumi-la à biologia pode resultar em uma ênfase ainda maior à medicalização como solução para qualquer transtorno, estratégia que por enquanto tem se mostrado, no mínimo, incompleta.

Se a venda de antidepressivos vem aumentando em uma proporção ainda maior que a taxa de suicídios, pode-se concluir que existem duas hipóteses: ou os medicamentos estão sendo consumidos por muita gente, mas não por quem mais precisa deles, ou eles não estão servindo para evitar a consequência mais terrível da depressão.

Há ainda muitos casos em que o suicídio pode estar relacionado ao próprio consumo de psicotrópicos, como anfetaminas e antidepressivos. Um dos efeitos colaterais que hoje obrigatoriamente consta na bula dos SSRI é o aumento de pensamentos suicidas entre adolescentes. Essa seria uma decorrência que pesquisadores chamam de paradoxal, pois a ação dos principais remédios antidepressivos é justamente sobre um dos neurotransmissores que diferentes estudos pós mortem comprovam estar em desequilíbrio em vítimas de suicídio, a serotonina. Mas para cada estudo que mostra o risco de suicídio trazido pelos psicotrópicos, surgem outros que derrubam as evidências e mostram que, na verdade, os números poderiam ser piores sem os medicamentos. Como uma pesquisa acaba anulando outra, os argumentos a favor ou contra o uso dos remédios para evitar suicídio continuam tão incertos quanto a maioria dos diagnósticos de transtornos mentais.

Um dos problemas da abordagem exclusivamente biológica é que os psicotrópicos estão de um lado da balança e as terapias de longo prazo ficam de outro, com peso cada vez menor. Segundo James Davies, existem estudos que mostram que "distúrbios do cérebro" são tratados de forma mais apressada que os distúrbios considerados sociais ou de comportamento, resolvendo apenas parte do problema, quando não gerando outros a partir da medicação.

"O modelo biopsicossocial (da psiquiatria) existe na teoria, mas na prática está longe de ser concretizado. Isso fica evidente pelo fato do tratamento com comprimidos estar em alta, enquanto terapias de longo prazo estão em baixa e psiquiatras raramente fazem intervenções sociais", cita em seu livro Craked - Why Psiquiatry is Doing More Harm Than Good (sem edição no Brasil). Nem sempre, lembra ele, conflitos internos são gerados por uma mente transtornada. Podem, sim, ser resultados de uma vida em um mundo transtornado.

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