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No mundo virtual, a vida é editada. Redes sociais dão às pessoas a possibilidade de se apresentar da forma como querem ser, de pensar melhor antes de agir, de ver sem ser vistas ou ser vistas sem ver. Entre os jovens, esse comportamento pode estar relacionado à perda da empatia.
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Solidão e ansiedade podem estar atrás da tentação de se fazer notar constantemente em redes sociais. Entre os jovens, esse comportamento pode estar relacionado à perda da empatia.

No mundo virtual, a vida é editada. Redes sociais dão às pessoas a possibilidade de se apresentar da forma como querem ser, de pensar melhor antes de agir, de ver sem ser vistas ou ser vistas sem ver. Garantem elogios aos carentes, dão popularidade aos solitários. E é por isso que ali eles se fazem tão presentes: 79% dos usuários de Facebook que se descrevem como solitários compartilham informações pessoais excessivas na rede. Esse recente levantamento dos pesquisadores da Charles Sturt University, na Austrália, complementa uma série de outros que relacionam o uso exagerado das mídias sociais à solidão, depressão e ansiedade.

Alguns mostram que, mais que sintoma, as redes podem ser a causa de alguns problemas sociais. No ano passado, psicólogos da Universidade de Michigan constataram, em entrevistas diárias com usuários do Facebook, que o tempo que se passa conferindo o site é inversamente proporcional ao sentimento de satisfação com a vida. Com isso, eles concluíram que a rede, atualmente com 1,1 bilhão de usuários em todo o mundo, pode gerar efeitos psicológicos negativos.

Autora de diversos livros e estudos sobre tecnologia e comportamento humano, a socióloga do Massachussets Institute of Technology (MIT), Sherry Turkle, diz que somos moldados pelas ferramentas que usamos. Assim, os smartphones, mantendo-nos conectados de forma contínua, não apenas influenciam apenas aquilo que fazemos, como ajuda a definir quem somos. A constante busca por comunicação exerce um grande poder sobre a psique humana. "A tecnologia nos ajuda a administrar alguns estresses do cotidiano, mas gera suas próprias ansiedades. São duas questões que geralmente estão muito próximas", destaca Turkle em seu livro "Alone Together" (sem edição em português).

As consequências dessa conectividade afetam especialmente a geração que está atravessando a adolescência com um celular na mão, sem ter descoberto a importância da própria privacidade e o respeito à privacidade alheia. Acostumaram-se a estar junto sem estar muito perto e a interpretar o papel que escolheram em sua vida virtual a uma grande plateia de conhecidos e desconhecidos. Muitos, segundo a socióloga, têm consciência de que seu desempenho social é melhor atrás de um smartphone ou computador. Escondem sua vulnerabilidade sem a consciência de que está nela a possibilidade de mostrar quem realmente são e de formar fortes e reais conexões.

Tanto nos jovens quanto em adultos que estão descobrindo a vida social virtual, ser visto, lembrado e "curtido" diariamente é algo gratificante para a autoestima. Mas esse ganho tem um preço e não se sustenta por muito tempo. O recebimento notificações é lido pelo cérebro como algo prazeroso, o que leva à maior produção de dopamina, conhecido como o neurotransmissor da recompensa. O que acontece é que o cérebro adora dopamina e sempre que relacionar algo a esse motivador químico, vai pedir mais. E assim, a dependência tecnológica rapidamente se forma, tornando tanta gente incapaz de perceber o quanto a comunicação virtual pode estar alterando de forma negativa seu humor, comportamento e relações sociais e familiares.

Uma das consequências de um ego continuamente alimentado pelas "curtidas" é a perda da noção de conduta social. Para comprovar esse efeito sobre os usuários de redes sociais, pesquisadores da Universidade de Pittsburgh investigaram a relação das redes sociais com autocontrole e a autoestima de milhares de usuários. O meta-estudo, publicado em 2013, mostrou que a melhora da imagem que as pessoas têm de si própria não raramente leva à valorização exagerada de aspectos positivos de sua vida ou personalidade. "Como a apresentação on-line é impessoal, as pessoas tendem a não perceber quando a forma como se apresentam está sendo rejeitada ou criticada", descrevem os autores, Keith Wilcox e Andrew T. Stephen.

Com mais ou menos capacidade, os serem humanos têm a habilidade incrível de interpretar sinais sutis enviados inconscientemente durante a interação social. É o que a neurociência chama de leitura da mente, fundamental para o sucesso das relações humanas. Esse feedback social imediato é um importante moderador de conduta. O problema é que, ciente das facilidades de viver seus avatares, quanto mais tempo as pessoas gastam editando suas vidas on-line, menos tempo ou disposição elas têm de praticar essa habilidade, de criar empatia, de entender melhor o outro e a si próprio.

Tanto que pesquisadores da Universidade de Michigan estudaram o comportamento de jovens universitários, em 2010, e concluíram que estão perdendo a capacidade de sentir pelo outro. Os resultados nos testes de empatia mostram declínio de 40% ao longo de três décadas, o que, segundo os próprios autores, pode ser atribuído ao novo comportamento dos jovens diante da tecnologia. A pesquisa foi feita a partir de 72 estudos com 14 mil graduados.

A mudança é compreensível. Quando grande parte das relações é construída a partir de uma base virtual, em que todas as nuances de sentimentos são resumidas a uma dúzia de "emotions", fica muito mais fácil manter uma distância emocional. No ambiente virtual, basta um clique para excluir os desafetos, bloquear os chatos, deletar comentários que não agradam. Ali é fácil escapar da complexidade e das demandas das relações, numa simplificação que, como resultado, nos torna mais e mais solitários.

Entre 1985 e 2004, o número de pessoas que afirmam não ter ninguém para conversar sobre assuntos pessoais que consideram importantes dobrou nos Estados Unidos, chegando a 25%, de acordo com levantamento de 2006 realizado por sociólogos da Universidade de Duke. A média de amigos próximos, em duas décadas caiu de três para dois.

Tão assustadora quanto o afrouxamento dos laços de amizade é a incapacidade da geração conectada de ouvir seus próprios pensamentos; de estar, de fato, só. A ansiedade inerente à conectividade está muito relacionada ao medo do tédio - um estado fundamental para criatividade e reflexão. E não há como ser boa companhia aos outros sem primeiro ser a si mesmo, assim como não se pode compreender o outro sem passar pelo autoconhecimento.

"Não há uma maneira satisfatória de equilibrar nossa necessidade de sermos conhecidos com nossa necessidade de estarmos sós", dizia a escritora Virginia Woolf, muito antes da criação das redes sociais. Agora, essa harmonia está mais comprometida que nunca, gerando uma necessidade urgente de se repensar o uso saudável da tecnologia, que depende da busca pelos limites, pelo autocontrole e controle do comportamentos dos filhos.

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