OPINIÃO
26/11/2015 12:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Por que as aulas deveriam começar mais tarde

O déficit de sono aumenta o risco de depressão na adolescência e pode prejudicar a memória e o aprendizado.

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O déficit de sono aumenta o risco de depressão na adolescência e pode prejudicar a memória e o aprendizado.

A depressão está no topo da lista de doenças incapacitantes que afetam jovens de 11 a 19 anos em todo o mundo. Por trás desse preocupante dado da Organização Mundial de Saúde pode estar um fator cuja importância é geralmente subestimada: o sono.

Novo estudo feito por uma equipe de pesquisadores da Universidade do Texas sugere que a privação do sono pode estar entre os principais fatores de risco de depressão entre adolescentes. De acordo com a pesquisa, publicada na edição de julho do Jornal Sleep, da Sociedade de Pesquisa do Sono, os jovens que dormem seis horas ou menos têm três vezes mais chances de ter depressão que aqueles que garantem o mínimo de nove horas diárias de sono. A pesquisa, liderada pelo médico e professor de ciências comportamentais Robert Roberts, investigou os hábitos de 4.175 adolescentes durante um mês e acompanhou seu comportamento quatro anos depois. De acordo com os pesquisadores, esse foi o primeiro estudo a mostrar que existe um efeito recíproco resultante da relação entre a quantidade de horas dormidas e a depressão.

Se a questão é tão significativa quanto sugerem os pesquisadores, podemos concluir que a incidência de depressão tende a ser inversamente proporcional ao número de horas que se dorme. Tudo indica que sim - e que, infelizmente, os jovens dormem cada vez menos nos dias de semana. Pesquisa pulicada em 2013 no Jornal Oficial da Sociedade Americana de Pediatria, analisou dados de 270 mil jovens e constatou que o tempo de sono entre adolescentes vem caindo de forma contínua entre 1991 e 2012. Entre jovens de 15 anos, 37% reportaram dormir menos de sete horas por noite em 2012, contra 28% em 1991.

Com isso é possível concluir que mais de um terço dos adolescentes dorme no mínimo duas horas menos que o recomendado para a idade. No Brasil, a realidade não parece muito diferente. No início deste ano, o Instituto de Pesquisa e Orientação da Mente apontou que 88% dos 1830 entrevistados não consideram seu sono satisfatório. Tanto os brasileiros quanto os americanos concluíram que os aparelhos eletrônicos estão entre os grande vilões do sono. Os pesquisadores do Texas frisaram que o uso de mídias sociais e o aumento da demanda de estudos e da quantidade de atividades extracurriculares também podem contribuir para a queda na quantidade de horas dormidas.

Atenta à necessidade de garantir as nove ou mais horas de sono entre adolescentes, a Sociedade Americana de Pediatria publicou um novo estatuto, no ano passado, recomendando que as escolas iniciem as aulas sempre depois das 8h30. De acordo com a entidade, dessa forma os horários acadêmicos são alinhados ao ritmo circadiano do sono dos adolescentes. Portanto, não apenas compromissos e eletrônicos mantém os adolescentes acordados: seu ciclo biológico é diferente do de crianças pequenas, sendo muito mais difícil, nesta fase, dormir e acordar cedo.

No entanto, o sistema escolar brasileiro está longe de reconhecer a importância da causa que os pediatras americanos estão defendendo. Aqui, crianças pequenas são privadas do importante soninho da tarde, enquanto pré-adolescentes são arrancados da cama geralmente por volta das seis da manhã. Vão à escola sonolentos e no período em que deveriam estar estudando ficam livres para passear em shoppings e brincar no celular. Se nosso sistema educacional considerasse a saúde e o ritmo biológico dos estudantes como fatores que superam em importância a praticidade que os horários atuais representam para muitos pais e escolas, iria garantir mais disposição física e mental dos adolescentes, reduzindo as chances de depressão. Mais que isso: poderia provocar uma melhora no rendimento acadêmico dos alunos.

Hoje sabemos que uma boa noite de sono é fundamental para a consolidação da memória e, como consequência, para o sucesso na aprendizagem. A cada ano surgem novas pesquisas reafirmando a importância de uma boa noite de sono para o bom desenvolvimento cognitivo.

Recentemente, neurocientistas da Universidade de Nova York (NYU) comprovaram, em estudos com ratos, que durante o sono profundo, ou ciclo de ondas lentas (slow wage sleep), as habilidades aprendidas durante o dia são "ensaiadas" repetidamente. Essa neurorepresentação das memórias em replay é fundamental para o fortalecimento das conexões sinápticas e, assim, para a consolidação da aprendizagem.

Existem muitas evidências de que o sono é vital para na formação de vários tipos de memória. De acordo com Penelope Lewis, autora de The Secret World of Sleep (O Mundo Secreto do Sono), habilidades motoras tendem a se aprimorar em até 20% em uma única noite de sono.

Assim como é importante lembrar, é necessário esquecer. Não queremos saturar o cérebro com informações sem importância e é enquanto dormimos, mais especificamente no estágio de ondas lentas, que ocorre essa "limpeza" de dados processados durante o dia. Ao enfraquecer as conexões não significativas, o sono mantém a capacidade de armazenamento do cérebro, fundamental para as funções cognitivas.

Enquanto o sistema educacional brasileiro não considera uma adaptação de horários, o que podemos fazer é evitar, à noite, os estímulos que comprovadamente afastam os adolescentes da cama. Somente uma reorganização da rotina familiar pode garantir o mínimo de sono necessário para um melhor desenvolvimento cognitivo e social nessa fase em que a saúde mental é tão frequentemente abalada.

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