OPINIÃO
01/06/2016 19:02 -03 | Atualizado 01/06/2016 19:02 -03

O privilégio de crescer em um ambiente inclusivo

Person teaching sign language to two boys
Fotosearch via Getty Images
Person teaching sign language to two boys

No decorrer de todo terceiro ano, meu filho foi o responsável por levar seu amiguinho com necessidades especiais até o banheiro nos finais de tarde, enquanto esperavam as mães na saída da escola. Uma função definida pelos dois informalmente e que ele cumpria com prazer.

Um dia, esqueci que haveria aula extracurricular e fui buscá-lo no horário normal da saída. Mas amiguinho já estava lá. Quando me viu, não teve dúvida: na falta do ajudante oficial, transferiu para mim a tarefa de levá-lo ao banheiro. Fui cheia de cuidados, andando devagar e tentando descobrir o que ele conseguia fazer sozinho e em que dependia de apoio. Depois fui consultar meu filho para entender de que forma ele costumava auxiliar o amigo.

- É bem divertido: a gente começa apostando uma corrida até o banheiro.

- Mas ele consegue correr?

- Claro! Eu só preciso correr mais devagar quando a disputa é com ele.

O que para muitos surge de um esforço para agradar, um ato de compaixão ou de responsabilidade, para as crianças que desde bebê estão em contato com as diferenças é simplesmente a arte da convivência em sua forma mais pura e refinada.

Durante o tempo em que estudaram juntos, encontraram formas de se comunicar que não dependiam muito da fala - que era um desafio para o coleguinha - e que pareciam divertir as duas crianças com a mesma intensidade. Descobriram uma linguagem que nasce de um relacionamento livre de qualquer tipo de segregação e de rótulos.

Não foi o primeiro amiguinho com necessidades especiais que conviveu com meu filho. E com cada um é possível observar que as brincadeiras e a comunicação são ajustadas com maior naturalidade, de acordo com as diferentes limitações que apresentam.

A verdadeira inclusão acontece não somente quando as crianças aprendem a aceitar e a respeitar as limitações dos colegas, mas quando deixam de enxergar essas limitações como algo que os define; quando as veem como características que nos diferenciam, sim, mas que compõem a imensa e rica variedade de formas como o ser humano pode interagir com o mundo.

Para as crianças atípicas, uma escola inclusiva traz a possibilidade de uma infância livre do maior dos problemas que ela pode carregar, que é o sentimento de exclusão. Para as outras, traz o privilégio da construção de uma visão evoluída de mundo, em que a diversidade não é apenas respeitada - é valorizada. Uma visão ainda muito distante da nossa realidade, na qual o exercício básico da tolerância a qualquer comportamento, opinião ou escolha que fuja do padrão ainda é um grande desafio.

O escritor, psicólogo e educador americano Thomas Armstrong, diretor do American Institute for Learning, faz uma ótima analogia entre diversidade neurológica e biológica: ninguém diz que um copo de leite tem distúrbio de deficit de pétalas. Aprendemos a apreciar a variedade de formas como a natureza se expressa, assim como aprendemos a enxergar diferenças culturais como manifestações da maravilhosa complexidade de formas como o ser humano comunica suas experiências.

Em seus livros, ele mostra que se vistas pelo prisma da diversidade, as variadas disfunções - de um transtorno de aprendizagem que só se manifesta no início da alfabetização até uma síndrome mais incapacitante - podem revelar capacidades surpreendentes, normalmente escondidas na sombra das frustrações e da exclusão.

Isso está longe de significar que as dificuldades não devam ser trabalhadas com intervenções e estímulos adequados. Pelo contrário: para os problemas que até recentemente eram vistos como obstáculos a serem contornados - e nunca superados -, hoje a neurociência oferece diversas formas de tratamento com base nas descobertas de que o cérebro é plástico e encontra vias alternativas para adquirir habilidades que perdeu ou não conseguiu desenvolver. Mas a habilitação de uma capacidade pode ser muito mais lenta e ineficaz sem a motivação e autoconfiança que a criança ganha quando se sente valorizada pelos seus potenciais.

É a partir dessa perspectiva e do olhar para os interesses individuais que deve ser construído o desenvolvimento de todas as áreas deficitárias, inclusive emocional e social. Essa abordagem humana e verdadeiramente inclusiva envolve profissionais comprometidos, uma escola que acredita no potencial de cada um e abraça a diversidade e colegas educados com os valores necessários para deixar este mundo um lugar cada vez melhor para se viver.

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