OPINIÃO
02/05/2016 13:38 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

O melhor antidepressivo que existe

SIphotography via Getty Images
Closeup sad young woman with worried stressed face expression and brain melting into lines question marks. Obsessive compulsive, adhd, anxiety disorders

De Heminghway a Lena Dunham, muitas das mentes inquietas e criativas descobriram no movimento do corpo a forma mais eficaz de combater a ansiedade e depressão e de deixar fluir suas ideias. E a neurociência fundamenta essa descoberta.

A atriz, roteirista de Girls (HBO) e escritora Lena Dunham não esconde de ninguém sua luta contra transtornos da mente. A ansiedade e o TOC (transtorno obsessivo compulsivo) da autora são abordados tanto na série como em seu livro Não Sou Uma Dessas, recém-lançado no Brasil (Intrinseca) e best-seller da Amazon.

Depois de muitos anos convivendo com os problemas diagnosticados ainda na infância, recentemente Lena se surpreendeu com uma das formas mais eficazes que encontrou para combater a ansiedade. Postou em seu Instagram, embaixo de uma selfie em trajes de ginástica, um incentivo aos seguidores que vivem os mesmos problemas.

Segundo a escritora, o exercício físico a ajudou de uma forma que ela nunca havia sonhado - e frisou que não estava se referindo ao corpo, mas à sua mente. "Para aqueles com ansiedade, TOC, depressão: sei que é irritante quando lhe dizem para se exercitar e precisei de 16 anos para ouvir o conselho. E que bom que fiz isso", revelou.

Assim, Lena entrou para o rol de escritores que descobriram que corpo e cérebro funcionam de forma interligada e, assim, encontraram no movimento uma fórmula imbatível de manter a mente sã e produtiva. Muitos outros buscam no exercício físico o desbloqueio criativo: o filósofo Henry Thoreau dizia que seus pensamentos fluíam ao mesmo tempo em que suas pernas começavam a se mover; a escritora nova-iorquina Joyce Carol Oates já escreveu que correr a ajuda a expandir a consciência e a encontrar ideias que jamais teria sentada em uma sala; o japonês Haruki Murakami e o americano Don De Lillo - ambos com diversos livros publicados no Brasil - enxergam a prática da corrida como uma espécie de "encubação de ideias", responsável pelo estado mental mais propício para o trabalho intelectual.

Já Hemingway, assim como Lena Dunham, encontrou no exercício uma tática para superar os tormentos da mente. Em 1936, o autor de O Velho e o Mar escreveu para o seu sogro, Paul Pfeiffer, que havia descoberto que a mente e o corpo precisam de exercício para o bom funcionamento "tanto quanto um motor precisa de óleo". Complementou que havia ficado muito tempo sem fazer nada além de trabalho mental e que por isso havia experimentado uma "real melancolia", que lhe fez entender melhor o que muitas pessoas passam.

Todas essas mentes repletas de tormentos, medos, angústias e muitas ideias confirmaram na prática aquilo o que a neurociência apenas recentemente está mostrando em laboratório: a atividade física é uma das formas mais eficazes de promover a plasticidade cerebral e reverter a toxidade causada por altos e constantes níveis de stress.

Ao liberar uma cascata de neurotransmissores e fatores de crescimento, o exercício - especialmente o aeróbico - ativa intensamente o córtex frontal, inibindo as funções inferiores e, assim, controlando a impulsividade. O aumento imediato de níveis de neuroquímicos como norepinefrina, serotonina, dopamina e canabinoides promove em curso prazo melhora na atenção, memória, humor e na autoestima, além de reduzir os níveis de stress, ansiedade e raiva.

De acordo com o professor de Neuropsiquiatria da Escola de Medicina de Harvard John Ratey, autor de diversos livros sobre saúde mental (entre eles Spark-The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain, sobre a ação do exercício no cérebro), nenhuma outra maneira de tratar problemas como ansiedade e depressão atua de forma tão holística e sem efeitos colaterais. Ele destaca que a resposta positiva ao exercício físico é muito próxima a dos antidepressivos, mas sem as reações adversas e com um bônus: é você o agente da mudança.

Um dos mais reveladores estudos sobre o efeito antidepressivo do esporte, realizado por pesquisadores da Duke University há alguns anos, comprovou que 30 minutos de exercício físico em dias alternados alcança a mesma eficácia que as pílulas no combate à depressão em curto prazo. Mas o mais impressionante foi que, após 16 semanas, o grupo que se exercitou apresentou melhores resultados que aquele tratado apenas com medicamento. A pesquisa, que envolveu 158 pacientes diagnosticados com depressão severa, concluiu que, depois de seis meses, apenas 8% das pessoas comprometidas em se exercitar experenciaram relapso, contra 38% das pessoas tratadas com antidepressivos.

Aqueles que desejam desbloquear a criatividade e deixar fluir os pensamentos de forma mais lúcida, como muitos escritores e pensadores costumam fazer, também encontram respaldo na ciência. Um novo estudo da Universidade de Stanford, publicado no ano passado, comprovou que caminhadas aumentam a criatividade, habilidade comprovada em testes de "pensamento divergente" - em que os participantes devem gerar ideias criativas explorando diversas soluções possíveis. Nos três testes aplicados entre 176 universitários, os resultados foram até 60% melhores depois ou durante de caminhadas.

Uma das razões para isso está no aumento de células nervosas no hipocampo. Recentemente, descobriu-se que alguma deficiência nessa estrutura, essencial para a memória, leva a uma incapacidade não apenas de recordar, como de imaginar. Assim, foi constatado que ela está também envolvida na capacidade de, a partir de informações já assimiladas, fazermos associações e criarmos conceitos de diferentes formas. Ou seja, está no hipocampo, uma das áreas mais modificadas pela atividade física, a base da criatividade e imaginação.

Não é preciso de muito tempo nem de uma academia ou professor: basta inspirar-se em muitas das grandes mentes que há tempos já descobriram que suas habilidades mais notáveis se desenvolvem e se mantêm a partir dos movimentos mais naturais do corpo - como andar e correr. É de graça, não tem contraindicações e traz um pacote de benefícios que remédio algum jamais conseguiu oferecer.

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