OPINIÃO
13/06/2014 09:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Existe agressividade saudável?

Fundamental para a evolução humana, hoje a agressividade, quando persistente, preocupa os pais. Quando ela deve, de fato, ser investigada?

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Fundamental para a evolução humana, hoje a agressividade, quando persistente, preocupa os pais. Quando ela deve, de fato, ser investigada?

Não havia dinheiro, direito ou sorte que ajudasse: quando queriam alguma coisa, nossos ancestrais precisavam, literalmente, lutar por ela. Foi assim durante os milhões de anos necessários para que formássemos sociedades amparadas por conceitos elaborados de justiça e direitos alheios.

Hoje ele é reprimido desde o berço ou se transforma em motivo de preocupação dos pais. Mas o fato é que o comportamento agressivo garantiu a sobrevivência da espécie. Mais que isso: permitiu nossa evolução. Teorias e estudos recentes defendem que orgulho e a luta por posse ajudaram a moldar os ossos e o cérebro humano.

Para o paleantropologista americano Ian Tattersall, doutor em evolução e curador do Museu de História Natural de Nova York, os conflitos entre grupos distintos de hominídeos foram cruciais para a rápida evolução do homem. Em palestra na última Conferência anual de Calpe, em Gibraltar, ele explicou que as lutas foram agente seletivo que levou ao aumento acelerado da inteligência e do volume do cérebro humano. Isso porque a força foi dando lugar a atos planejados e estratégicos nas tentativas de provar quem era melhor.

Portanto, se a paz reinasse na terra na época de Lucy - fóssil de três milhões de anos -, o crânio de seu descente um milhão de anos mais novo, o menino de Turkana, não carregaria um cérebro com o dobro do tamanho. Nem esse órgão teria praticamente dobrado mais uma vez até o tamanho atual.

Foram também as lutas que possivelmente fizeram com que a evolução favorecesse a estrutura óssea das mãos da nossa espécie, ideais para o soco. Estudo do departamento de Medicina da Universidade de Utah defende que a destreza manual aliada à capacidade de socar - frutos da natureza agressiva e habilidades estratégicas - levou à forma única da mão humana.

O psiquiatra Maurício Nasser, do Hospital de Clínicas do Paraná, defende que ser agressivo sempre foi questão de autossustentação e defesa. Esse panorama, segundo ele, mudou em decorrência da adaptação do ser humano ao estilo de vida contemporâneo, que é muito recente. "Não podemos nos esquecer de que somos frutos dessa adaptação", defende, ressaltando que é necessário separar o que é do que não é doença.

Para isso, deve-se levar em conta o verdadeiro prejuízo funcional que o indivíduo tem por não conseguir ajustar seu sistema de ação e reação ao modelo contemporâneo de sociedade que criamos. "Em outras sociedades, o que temos como transtorno mental não é considerado transtorno. Em tribos africanas, nem se sabe o que é depressão, enquanto aqui é considerado doença porque causa prejuízo funcional enorme para a pessoa", exemplifica.

Nem precisa ir tão longe. Até hoje, 30% dos homens da tribo Yanomami, na Amazônia, morrem em lutas corporais. Segundo narra o neurocientista Michael Gazzaniga em seu livro Human (sem edição brasileira), isso ocorre porque os mais violentos são recompensados: respeitados por todos e desejados pelas mulheres, têm mais esposas e um número de filhos três vezes maior, em média, que os "fracos".

Quando preocupa

Quando persistente na criança, a agressividade é motivo de grande parte das consultas de pais a psicólogos e psiquiatras. A pergunta que Nasser levanta é: será que estamos superdiagnosticando e dando nomes a comportamentos que poderiam ser variações normais da espécie? A questão do psiquiatra leva a outra pergunta: mas isso deveria fazer com que manifestações agressivas sejam mais aceitas?

A resposta para isso não é simples e direta. Apesar de gerar tanta preocupação entre adultos, a necessidade de agressão física para conseguir o que querem aparece muito cedo nos bebês e se manifesta antes dos dois anos em 80% das crianças, segundo estudo do canadense Richard Tremblay, pesquisador e professor de Psiquiatria na Universidade de Montreal. Normalmente, ainda nos anos pré-escolares, a maioria das crianças aprende a controlar o uso da agressividade física e a usar formas mais aceitáveis de persuasão.

"A criança tem que aprender que agressividade é algo com o qual ela pode conviver. Assim como a mãe tem que aceitar o fato de que, em determinados momentos ela também tem que ser agressiva com o filho", pondera Nasser. Desde muito cedo, a criança lê na feição agressiva da mãe aquilo que não pode fazer.

Existe, portanto, o que ele chama de agressividade saudável que pode se manifestar de formas diferentes nos diversos estágios da vida sem gerar grandes danos sociais. É o caso da adolescente que rompe a fase da fantasia, que briga com o namorado e exagera na sua manifestação de raiva. E da criança frustrada por não conseguir se expressar ou afetada por um ambiente familiar em desequilíbrio. "A criança pode estar passando por um período difícil e a tendência é de se defender. Essa resposta pode ser saudável, porque é para isso que servem as emoções, para mostrar que alguma coisa no ambiente não está bem", exemplifica o psiquiatra.

De acordo com os estudos de Tremblay, as crianças que passam da idade pré-escolar e continuam usando agressão física têm maior risco de apresentar problemas comportamentais na adolescência. Portanto, quando isso passa a representar dificuldade de interação social e a trazer prejuízos na aprendizagem, é importante investigar as causas e buscar tratamento. "O ponto objetivo dessa questão é: os indícios de agressividade apontam para um prejuízo funcional importante no indivíduo? Quando há dúvida, é bom avaliar. O comportamento pode vir de um transtorno mental, lesões neurológicas, da questão ambiental ou simplesmente da predisposição genética da criança em ser agressiva", explica Nasser.

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