OPINIÃO
16/10/2014 12:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Comer também se aprende

Embora existam fatores genéticos que conduzem a preferência por determinados sabores, a formação do paladar está muito mais relacionada à experiência.

Getty Images

Gostar de novos sabores é também um aprendizado que depende de perseverança e paciência.

Embora existam fatores genéticos que conduzem a preferência por determinados sabores, a formação do paladar está muito mais relacionada à experiência. É um sentido que começa a se formar durante a gestação, estimulado pela ingestão do líquido amniótico, mas que se desenvolve a partir da exposição aos variados tipos de alimentos. É possível adquirir o gosto por certos sabores em qualquer fase da vida, mas é a educação alimentar nos primeiros anos da criança que vai pavimentar o caminho para um paladar mais sofisticado.

Todo bebê nasce com uma preferência pelo sabor doce, uma herança evolutiva que garante energia para o crescimento vinda de fontes seguras e não venenosas. Já os sabores amargo e ácido são naturalmente rejeitados por crianças pequenas, outra resposta que a genética dos nossos ancestrais programou para evitar que consumíssemos plantas tóxicas ou alimentos estragados. Dessa forma, esses sabores dependem de um treinamento do paladar para serem apreciados.

Os consumidores de café, vinho e chocolate amargo sabem que aprender a gostar, assim como qualquer outro aprendizado, é um processo. Se o paladar fosse construído nos primeiros contatos com cada sabor, nossa alimentação certamente seria pouco diversificada e muito menos nutritiva.

Para provar que a persistência é necessária e que esse treinamento deve começar desde cedo, pesquisadores da Universidade de Leeds, no Reino Unido, escolheram um vegetal com sabor altamente rejeitado pelo paladar infantil - o alcachofra - para oferecer em forma de purê a 332 crianças durante vários dias. Depois de cinco a dez tentativas, 40% das crianças passaram a aceitar o purê no dia a dia.

Por isso, nenhum pai ou mãe pode afirmar que filho não come certos alimentos antes de apresentá-los pelo menos uma dúzia de vezes, preparados de formas diferentes. Ainda assim, é possível que, em uma outra fase, um novo contato com o alimento seja mais bem sucedido, já que o paladar é continuamente moldado pelas experiências.

Este sentido é tão intimamente ligado a outros que alterações na cor ou cheiro e textura alteram também o gosto do alimento. Essa combinação de sensações traz uma ótima oportunidade de trabalhar na criança a aceitação de novos sabores. Por isso, comidinhas coloridas, apresentadas de forma lúdica, em palitos, picadinhas ou em brincadeiras que exploram a textura, podem ser mais atrativas às crianças.

Se introduzir alimentos saudáveis no cardápio da criança exige muita persistência, evitar o consumo de doces por crianças com mais de dois anos pode ser um desafio ainda maior. Açúcar em excesso de fato dificulta a educação alimentar e pode levar a outros problemas. Mas em pequena quantidade e de preferência não refinado ou obtido de fontes naturais - como frutas - é uma fonte de energia que pode estar presente na dieta da criança.

Apesar de banidas por muitos pais, guloseimas sempre foram parte da infância e não deixam de trazer a oportunidade de mostrar moderação e equilíbrio desde cedo - um aprendizado que se deriva mais do evitar que do privar.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

VEJA TAMBÉM NO BRASIL POST:

Galeria de Fotos Crianças experimentando coisas pela primeira vez Veja Fotos