OPINIÃO
09/06/2015 17:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Caminhar faz bem para o cérebro

Esse ato tão simples e natural é uma das mais eficazes formas de evitar danos físicos e cognitivos trazidos pelo Parkinson e outras doenças mentais.

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Esse ato tão simples e natural é uma das mais eficazes formas de evitar danos físicos e cognitivos trazidos pelo Parkinson e outras doenças mentais.

Previsto para estrear em julho no Brasil, o longa Divertida-Mente (Inside Out), da Pixar, aborda as emoções contraditórias e confusas do início da adolescência, transformando em personagens os sentimentos de uma garota de 11 anos. A criação dessas figuras divertidas nasceu de uma mente sensível que vive o desafio diário de domar e aprender a conviver com seus próprios monstros - muito menos engraçadinhos que os da garotinha do filme.

Quando foi convidado pelo diretor Pete Docter a criar os personagens, no início do projeto, o cartunista Richard Thompson assinava uma tira diária publicada em cerca de 250 jornais americanos, Cul de Sac. Alice, a menininha de quatro anos que protagoniza a tira, fez sua última fofice em 2012, despedindo-se de milhões de apaixonados leitores. Diagnosticado com Parkinson três anos antes, Thompson já não conseguia mais dominar seus traços, mesmo tendo seus personagens ainda tanto a dizer, como ele declarou na época.

Apesar de mais comum entre pessoas com mais de 60 anos, a doença pode, como no caso de Thompson, chegar bem mais cedo e interromper os planos de uma vida ainda no meio de seu curso. Quando recebeu o diagnóstico, aos 50 anos, o cartunista já apresentava muitos dos sintomas havia tempo e chegou a declarar alívio em saber a causa das mudanças em seu comportamento. Muitas vezes, sintomas são confundidos com estresse pela família e pelos próprios pacientes. Foi o que aconteceu com o artista - por isso a demora do diagnóstico. É muito comum que os portadores de Parkinson, mesmo sem perceber, pareçam inexpressivos aos familiares e amigos. Fala monótona, tremores, constipação, movimento diferenciado ao caminhar, rigidez, lentidão, dificuldade de concentração, perda da libido e depressão são outros indícios que podem demorar a ser apresentados a um neurologista.

Quando esses sintomas começam a incomodar, geralmente a parte do cérebro que concentra dopamina, chamada substância negra, já perdeu 80% do neurotransmissor. A dopamina é responsável pelo início do movimento, nos faz sentir que ele é necessário, o que explica a passividade dos portadores da doença. Muitas vezes, depois de um impulso ou estímulo externo que ajuda a iniciar o movimento, ele é realizado sem problemas. Até mesmo a dificuldade de iniciar uma conversa é comum entre pessoas com Parkinson.

O déficit cognitivo acompanha as perdas motoras, numa caminhada progressiva rumo à demência e à falta de autonomia. "Ao restringirem seus movimentos, as pessoas enxergam menos, escutam menos, processam menos informação e seus cérebros começam a atrofiar como resultado da falta de estímulo", escreveu neurologista canadense Norman Doidge, em seu recém-lançado e segundo livro sobre plasticidade cerebral, Brains's Way of Healing (ainda não editado no Brasil).

Os pacientes são informados de que a doença ainda não tem cura e é progressiva, apesar da melhora obtida com tratamento com Levodopa, medicamento que age no sistema dopaminérgico, e outros procedimentos, como neuroestimulação. A esperança nos efeitos das medicações em contradição ao desânimo diante de um problema aparentemente sem solução e à falta de confiança em sua própria capacidade de resiliência explica a pacificidade dos portadores, prejudicial no tratamento do Parkinson e outras doenças neurodegenerativas. Saber que o prognóstico é tão ruim não ajuda na recuperação. Pode, sim, fazer o efeito contrário ao do placebo, aumentando os sintomas. "Dizer a alguém como você acredita que ele irá se sair se torna parte (mesmo que modesta) do tratamento", defende Doidge.

Finalmente, quase 250 anos depois da descrição da síndrome pelo médico inglês James Parkinson, a ciência está descobrindo que a progressão dos sintomas pode ser retardada por uma atividade simples e natural, que até recentemente era contraindicado aos pacientes: caminhar. Exatamente aquilo que é dificultado pela doença e, por isso, evitado por grande parte dos seus portadores, pode garantir, sem os efeitos colaterais dos remédios, uma melhor qualidade de vida a eles, com visível redução nos sintomas.

Caminhar longas distâncias, para alguém com Parkinson, é um desafio que exige concentração e consciência de cada movimento. O que antes era feito de forma inconsciente, agora é planejado, num esforço não apenas físico, mas especialmente mental, que depende da força de vontade e confiança nos resultados - algo incompatível com o prognóstico desanimador que a maioria dos pacientes recebe.

Um metaestudo publicado em 2011, no Jornal da Academia Americana de Neurologia, mostrou que, em animais com parkisonismo induzido, o exercício físico garantiu a proteção do cérebro contra neurotoxinas dopaminérgicas, levando à melhorias cognitivas. O autor da análise, Erik Ahlskog, concluiu que exercícios físicos não apenas contêm a progressão da doença em portadores de Parkinson e Alzheimer, como reduzem o risco de se desenvolver essas síndromes quando praticados durante anos.

No ano passado, um estudo envolvendo 60 portadores de Parkinson comprovou avanços motores e cognitivos com um programa de caminhada de 45 minutos, três vezes na semana. O estudo, promovido pelo Instituto Nacional de Saúde (NIH) americano, juntamente com outras entidades da área de saúde mental, mostrou que, em apenas seis meses de exercício, os participantes apresentaram melhoria na função motora, atenção e cansaço.

Já foi comprovado em diversas pesquisas que andar, como qualquer exercício físico aeróbico, promove o nascimento de novas células no hipocampo, região do cérebro relacionada à memória, e preserva as células produtoras de dopamina. Além de evitar problemas de memória, comuns na doença de Parkinson, existem muitas evidências de que a neurogênese, como é chamado o processo de surgimento de novas células, é fundamental no controle da depressão.

Se alguma droga promovesse as melhorias psíquicas que o simples ato de andar promove, seria, segundo Doidge, "o mais popular, mais comentado tratamento da medicina".