OPINIÃO
12/03/2015 19:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Ansiedade: o alto custo da liberdade

Inseridos em uma cultura que insiste que somos quem quisermos ser, que passou a chamar de "losers" aqueles que não se enquadram no conceito moderno de sucesso, crescemos com a responsabilidade das escolhas - uma liberdade que pode pesar na mente.

Paul 李加乂 Li/Flickr
Candid shot of her texting

De reação normal a certas situações, a ansiedade evoluiu para a doença psíquica mais comum da sociedade. O que está nos deixando tão inseguros?

Sem uma boa seção de autoajuda, difícil a livraria que sobreviva. A presença de livros com conselhos na lista dos best-sellers é garantida nas últimas décadas. Este ano, três entre os dez mais vendidos no Brasil são de autoajuda (segundo Publishnews), sendo que o campeão da categoria foi o livro de Augusto Cury sobre o problema que o autor considera o "mal do século": a ansiedade.

O sucesso da publicação era previsível. Ao que tudo indica, estamos mesmo precisando de ajuda. O último levantamento da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), com dados entre 2007 e 2010, mostrou que nesse período os ansiolíticos da família dos benzodiazepínicos (como Rivotril e Lexopan) eram as drogas controladas mais vendidas no país. E o uso banalizado desses tranquilizantes, que trazem altíssimo risco de dependência e eficácia limitada às duas primeiras semanas de uso, não é um problema exclusivo do brasileiro. Há estudos que mostram que 20% dos americanos consomem esses medicamentos com regularidade, assumindo o risco de sofrer graves sintomas físicos e psíquicos ao largar a medicação, como aumento no nível de ansiedade, insônia, tremores, dores de cabeça, depressão e perdas cognitivas. Recentemente, ainda descobriu-se que o uso prolongados dessas drogas pode aumentar consideravelmente a chance de se desenvolver a doença de Alzheimer.

Uma dor de cabeça, quando eventual, pode ser curada com uma aspirina, mas quando persistente, a solução mais coerente é sempre a investigação da causa. No caso da ansiedade, as origens são sempre muito particulares e diversificadas: podem ter raízes genéticas ou envolver problemas pessoais, traumas de infância, pressão no trabalho, aparecer como sintoma de um outro distúrbio ou como efeito de medicação. Mas por se tratar de um problema que, de reação normal a certas situações evoluiu para a doença psíquica que mais acomete a sociedade ocidental, é possível que as variadas causas individuais sejam sustentadas por uma origem comum, de caráter cultural.

A ansiedade se caracteriza biologicamente pela ativação intensa em uma das regiões mais primitivas do cérebro, a amigdala - responsável pela reação de luta ou fuga. Ou seja, ela é responsável pela geração do medo, fundamental para a sobrevivência de qualquer espécie. Nossa diferença para os animais está no córtex pré-frontal, a parte mais evoluída do cérebro, também envolvida nos momentos de muita ansiedade. Graças a essa região, temos a habilidade de tomar decisões e planejar o futuro. Os animais, portanto, temem o que é real, no presente. Nós, graças à habilidade de imaginarmos o que pode acontecer no futuro, tememos também aquilo que ainda não é, mas que pode se tornar real.

Mais que isso, a diferença entre a ansiedade e o medo também passa pelo nosso poder - ou pela falta dele - de controlar a própria vida. Um dos ônus de se ter é sempre o medo de perder o que se tem e no caso do controle não é diferente. Quanto mais livres estamos para controlar nosso próprio destino, mais abrimos espaço para a ansiedade. Ela nos torna, portanto, reféns da nossa própria liberdade. Para os existencialistas, inclusive da liberdade de acreditar ou não em Deus. A possibilidade de estarmos à deriva, sem ninguém ou nenhuma força superior no comando, seria uma grande geradora de ansiedade.

Primeiro filósofo a escrever uma obra dedicada a essa questão, o dinamarquês Soren Kierkegaard relaciona, em O Conceito da Angústia, a ansiedade com uma espécie de vertigem - a vertigem do livre-arbítrio; de se ter, à frente, mais de uma possibilidade. Ele compara à sensação de estarmos à beira de um abismo, atordoados pela possibilidade de um vacilo da consciência.

"Hoje em dia, sobretudo nas democracias capitalistas do Ocidente, temos talvez mais possibilidades de escolhas que em qualquer outro momento histórico: somos livres para escolher onde morar, quem namorar ou desposar, que tipo de trabalho buscar, que estilo pessoal adotar", escreve o jornalista Scott Stossel no ótimo Meus Tempos de Ansiedade, recém-lançado pela Cia das Letras. São escolhas que nos definem e nos expõem a constantes julgamentos.

Inseridos em uma cultura que insiste que somos quem quisermos ser, que passou a chamar de "losers" aqueles que não se enquadram no conceito moderno de sucesso, crescemos com a responsabilidade das escolhas - uma liberdade que pode pesar na mente. Enquanto uma parte dos livros de autoajuda têm a pretensão de reduzir os níveis de estresse e ansiedade da população, muitos títulos que dividem a mesma seção nas livrarias tornaram-se best-sellers convencendo as pessoas de que a riqueza, sucesso e popularidade está ao alcance de todos - uma ideia que a mídia e a publicidade trabalham incansavelmente para propagar.

Inevitavelmente, esse modelo cria expectativas seguidas de frustrações. A sociedade moderna, com sua liberdade de escolhas, tem sua autoestima constantemente golpeada. O filósofo Alain de Botton, autor de Ansiedade de Status, nos lembra que, se acreditamos que aqueles que estão no topo chegaram lá por mérito, também temos que acreditar que os que não chegaram merecem seu fracasso. A ansiedade, portanto, seria o preço da "meritocracia". Segundo ele, nas sociedades em que havia pouca mobilidade social, apesar das injustiças, as pessoas tinham uma grande liberdade: a de não precisar comparar suas conquistas com as de outros mais bem sucedidos.

É possível que estejamos nos adaptando ao modelo competitivo de sociedade para que logo possamos encontrar formas mais eficazes que os medicamentos para lidar com a ansiedade - como saber dosá-la e transformá-la em algo positivo. Afinal, para os filósofos existencialistas, não se trata de uma reação necessariamente negativa ou sem significado. "Para eles, assim como para psicoterapeutas que resistem reduzir os estados cerebrais à biologia, a ansiedade não é um estado a ser evitado ou medicado e sim o caminho mais verdadeiro para a autodescoberta (...) a via para a autorrealização", cita Stossel. Para o autor - que sofre de várias fobias - silenciar a ansiedade, sem ouvir o que ela está tentando nos dizer, talvez não seja o meio mais conveniente de alcançarmos o que temos de melhor.