OPINIÃO
28/09/2015 13:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Sou pobre e negro, mas não sou uma vítima da sociedade

Não sou a favor do Estado em quase nada, mas algo precisava ser feito em relação à criminalidade nas praias do Rio. Essa onda de furtos, assaltos e arrastões está virando moda, e o cidadão brasileiro (ou turista), que não tem nada a ver com isso, é que está pagando essa conta.

ALESSANDRO BUZAS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Não, nem adianta. Não vou ser vítima das circunstâncias ocorridas nestes últimos dias na cidade do Rio de Janeiro.

Sou negro, pobre e posso me considerar favelado porque morei muito tempo no subúrbio do Rio.

Morador de Madureira, eu aprendi cedo o que é certo e o que é errado.

O bairro carioca é um dos pontos da cidade mais fortes de usuários de crack.

Sem demagogia, morei perto de uma cracolândia e vi a realidade de perto, sabia o que poderia acontecer se me envolvesse.

A educação dos meus pais foi importante, mas sempre tive discernimento.

Não me venha com esta história de ser oprimido pelo Estado... Não entra na minha cabeça que um jovem não tenha noção do que esteja fazendo. Não adianta tentar que nunca vou entender.

Sempre busquei o melhor para minha vida. Sempre tive força de vontade de sair dessa situação de vítima. Nunca usei de muleta a carência que nós temos em relação ao governo.

Admito: tudo é mais difícil para um negro. Mas, pera lá né, vamos nos vitimizar até quando?

Quando vamos ter força de vontade para mudar essa situação?

É bastante complicado, eu sei... O Estado não dá à mínima para grande parte da população, que sempre é bom ressaltar, é de negros... Mas e aí? Vamos roubar? É mais fácil né?

Aí ficam Freixos de um lado, Bolsonaros de outro, e a gente no meio desse fogo cruzado sem saber para onde ir. Cada um com suas convicções e nenhuma solução.

Não é questão de ser de direita ou de esquerda, ser coxinha ou caviar, de partido A ou partido B.

Isso é questão de segurança pública; não podemos imaginar que nossa cidade irá mudar de um dia para o outro... Isso é utopia.

Alguém acha que a partir de agora o nosso País irá incluir os excluídos na comunidade de direito e deveres?

Sinto lhe informar, mas não vai.

Não sou a favor do Estado em quase nada, mas algo precisava ser feito de imediato em relação à criminalidade nas praias do Rio.

Infelizmente não podia mais esperar!

Essa onda de furtos, assaltos e arrastões está virando moda, e o cidadão brasileiro (ou turista), que não tem nada a ver com isso, é que está pagando essa conta.

Acho válida, sim, a abordagem da polícia nos transportes públicos -- repito, abordagem.

Autoridades fardadas estão abordando jovens a caminho da praia e quem não andasse com documento de identificação seria levado e advertido pelos policiais.

Essa foi uma maneira que o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, encontrou para diminuir os assaltos e arrastões.

Ao mesmo tempo, esse tipo de abordagem foi uma das principais críticas de parte dos cariocas. Segundo eles, o direito de ir e vir está sendo violado.

Vamos raciocinar... Um indivíduo de classe média é parado com seu veículo em uma blitz da Polícia Militar. O policial pede documentos do carro e identidade do motorista. O indivíduo pode negar esse pedido? O direito é o mesmo do caso anterior, dos meninos no ônibus?

Temos que levar em consideração que o momento vivido pelo Rio de Janeiro é de emergência. Até acho que essas abordagens policiais não devam ser definitivas, mas são eficazes no momento e já estão surtindo efeito.

Neste último final de semana, um jovem sem dinheiro para pagar a passagem de ônibus tentou pular a janela do veículo para dar o famoso "calote" e foi abordado por policiais.

Não tenho nada a temer. Nunca fui parado, abordado por ninguém, mas se um dia isso acontecer não hesitarei, serei solícito.

É bom lembrar que essa abordagem é natural em qualquer parte do mundo.

A Folha de São Paulo publicou neste domingo (27) uma reportagem sobre o embate entre jovens que roubam e justiceiros que agridem.

Antes de qualquer coisa, não sou a favor de justiceiros ou coisa parecida, isso é responsabilidade das autoridades.

A Folha entrevistou esses menores "oprimidos" pela sociedade, e só tive mais convicção do que penso. Destruir é mais fácil que construir.

Um desses jovens relata que essa onda de assaltos virou febre e não tem volta, vai continuar roubando. Outro menor diz que fica com ódio de não ter celular e roupa de marca, justificando os furtos.

Como disse antes, não entra na minha cabeça que esses jovens não saibam o que é errado.

Será então que tive sorte nestes anos todos?

Será que todos os meus amigos que também são negros e pobres tiveram essa mesma sorte?

Claro que não.

Como diz o cantor Marcelo D2, "sou morador de Madureira, acostumado a subir ladeira, mas não confunda, eu escolhi construir".

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