OPINIÃO
05/03/2014 16:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Um 'mapa do crescimento' global para 2014

ESTADOS UNIDOS. Os Estados Unidos estão no que se poderia chamar de recuperação parcial: crescimento de 1,5 a 2%, bem abaixo do potencial, mas muito melhor que zero. Este é impelido principalmente pelo setor privado, uma economia flexível e dinâmica, que está transferindo seus recursos marginais para o setor comercializável, onde a demanda não é um fator restritivo (ou é menos). O arrasto fiscal é significativo e incerto porque não se sabe a resolução de uma sequência de impasses orçamentários.

A maior peça que falta na evolução do padrão de crescimento dos Estados Unidos é o investimento, especialmente do setor público, e isso provavelmente continuará neste ambiente político. A alternativa -- mudar a carteira de demanda interna agregada por algum tempo do consumo para o investimento pago por impostos sobre a renda ou grandes fortunas -- não decolará politicamente. Isso significa que o crescimento permanecerá bem abaixo do potencial por um período prolongado.

EUROPA. Graças ao Banco Central Europeu e a sua política de Transação Monetária Direta não utilizada (mas que espreita ao fundo) de socorrer os países à beira da falência -- e o apoio da chanceler alemã a esta importante medida --, os mercados de dívida soberana se estabilizaram por enquanto.

O crescimento na Europa é uma história menos interessante. As divergências no custo unitário do trabalho nominal (sul versus Alemanha) tornaram-se enormes no período pré-crise e ainda são perturbadoramente altas, embora tenha havido certa convergência dolorosa, exceto na Itália. O sul da Europa, que está no lado errado da divisão de produtividade, não tem motores de crescimento e emprego: a demanda interna recua, estagnando o setor não comercializável e a produtividade, o que atrasa de modo significativo qualquer expansão no lado comercializável via acesso à demanda externa global. O processo ameaça a coesão política e social. Os cidadãos estão atordoados sobre seu futuro.

Dos dois lados da divisão de produtividade, a atual configuração deixa todos com a ameaça de uma estrutura distorcida. A taxa de câmbio está alta demais para o sul e possivelmente baixa o suficiente para limitar o crescimento do lado não comercializável da economia alemã. Neste momento ninguém está vencendo esse jogo.

CHINA. A China parece estar no caminho para sustentar um crescimento de 7% ou mais por mais uma década, supondo que haja continuidade na implementação das reformas do sistema claramente declaradas, destinadas a alterar o padrão de crescimento para um desenvolvimento mais equilibrado dos lados comercializável (exportações) e não comercializável (consumo interno). As reformas prometidas pelo presidente Xi e o primeiro-ministro Li diminuem os incentivos ou as oportunidades de empurrar investimentos para território de baixos retornos, de modo que o capital será alocado mais de acordo com os preços determinados pelo mercado, resultados e inovação.

Os fazedores de políticas se abstendo (acertadamente) de usar os motores errados de crescimento em curto prazo, ou seja, alavancagem e investimento em excesso, podem produzir uma calmaria de curta duração no crescimento enquanto cresce o novo consumo das famílias. Isto será um pouco enervante, mas afinal não será um descarrilamento.

A PODEROSA CLASSE MÉDIA CHINESA. Se as reformas propostas pelo presidente Xi Jinping forem profundas e tiverem sucesso em alterar o padrão de crescimento, o crescimento da classe média chinesa será enorme. O Instituto Global McKinsey estima que a classe média na China crescerá dos cerca de 230 milhões atuais para 630 milhões em dez anos. Esse é um efeito colateral do aumento dos salários e das rendas das famílias, combinado com políticas destinadas a transferir a renda para o setor familiar quando fizer sentido. Certamente criará um enorme e crescente mercado e um vento de popa para o crescimento chinês e o global.

Dito isso, a desigualdade de renda está aumentando na China e já é alta o suficiente para contribuir para o aumento das tensões sociais, especialmente quando justaposta à vasta quantidade de riqueza acumulada na faixa superior de renda e distribuição de riqueza, em parte por causa do acesso privilegiado, por meio de conexões políticas, ao mercado e a oportunidades de investimento. Inverter esse padrão é claramente uma alta prioridade na agenda de reformas.

OUTRAS ECONOMIAS EMERGENTES. O crescimento da China dará um empurrão nas outras economias em desenvolvimento. O anúncio do Federal Reserve na última primavera de que "reduziria" as compras de títulos do Tesouro e papéis de hipotecas que foram usados para manter baixas as taxas de longo prazo produziu uma considerável turbulência nos fluxos de capital internacional e nas taxas de câmbio das maiores economias emergentes além da China, que mantém o controle do capital.

Isso até agora não se mostrou desestabilizador. Mas foi um chamado de atenção para as economias que tendiam à dependência do capital de baixo custo, buscando escapar das baixas taxas de juros nos países avançados. O atraso na redução provavelmente não resultará em uma reversão a grandes déficits de conta corrente e contar com capital estrangeiro para financiar o investimento. Como disse o governador do Reserve Bank da Índia quando a redução foi adiada, em setembro, essa não é uma condição permanente. Reequilibrar a conta corrente pode desacelerar diversos mercados emergentes em curto prazo. Mas, com o empurrão da China e um crescimento razoável nos EUA, é provável que haja um retorno a padrões de crescimento relativamente altos e sustentáveis.

CRESCIMENTO GLOBAL E CONVERGÊNCIA. O processo de convergência em longo prazo dos países em desenvolvimento e avançados parece, portanto, destinado a continuar, assim como o crescimento da economia global como um todo.

Alguns aspectos dos desequilíbrios globais estão sendo resolvidos de maneira razoavelmente coordenada. O padrão de crescimento nos EUA fez as exportações crescerem rapidamente. Mais da metade do crescimento e até um pouco do emprego estão vindo do lado comercializável da economia. As importações estão crescendo muito mais lentamente por causa do prolongado choque de demanda negativa da crise financeira. O atual déficit de conta corrente está declinando. Virando de lado a moeda do desequilíbrio global, o excesso de poupança na China está diminuindo em parte por causa da constante valorização da moeda e de o superávit de conta corrente estar diminuindo.

Isso está longe de uma plena solução dos "desequilíbrios globais". Mas o espectro de uma economia global paralisada por causa da escassez maciça de demanda agregada está recuando. Essa parte parece estar acontecendo como um efeito colateral natural da evolução dos padrões de crescimento das duas maiores economias globais.

A Alemanha está confessadamente administrando um grande superávit de conta corrente em porcentagem e em termos absolutos. Com os custos unitários do trabalho tão disseminados na zona do euro, quase todo mundo tem uma moeda super ou subvalorizada. No caso da Alemanha, está subvalorizada e isso leva naturalmente ao superávit. Esse não é um resultado ideal para a Alemanha, pois leva à supressão do setor de serviços não comercializar e, caso persista, a um padrão de crescimento desequilibrado. Mas as opções para lidar com o problema não são interessantes. Eles poderiam tentar alavancar, gerando mais demanda interna. Isto, porém, levaria à pressão inflacionária que, se não for contida, aceleraria o processo de convergência de produtividade com o resto da Europa. Mas perder competitividade no lado não comercializável não interessará à Alemanha como opção, para não falar em sua aversão histórica à inflação.

Nessa dimensão, portanto, parece que a Europa permanecerá em um padrão de crescimento baixo e desequilibrado por algum tempo, enquanto a convergência na produtividade e competitividade segue seu rumo. Sem taxas de câmbio e inflação, as opções para reequilibrar-se são limitadas, dolorosas e lentas. Mas essa não é uma condição permanente. A Europa, incluindo o sul, pode crescer e crescerá eventualmente.

DESEMPREGO EM UM TERRITÓRIO NÃO MAPEADO. Enquanto a imagem do crescimento é variada nas principais entidades econômicas, positiva e melhorando na maioria, o emprego é outra história. Sabemos por um corpo crescente de pesquisas que a tecnologia muito poderosa de economia de trabalho combinada com a globalização está fazendo o emprego divergir do crescimento, especialmente no setor comercializável. Nas economias avançadas, e mesmo nas saudáveis, o lado comercializável tem sido um gerador de empregos limitado durante pelo menos duas décadas.

Os mercados de trabalho não mudam rapidamente por muitas razões. Os salários nominais são resistentes a uma redução. A inflação é baixa e parece destinada a ficar. Em geral, em um ambiente de baixa inflação com rigidez descendente em preços nominais, ela demora mais para realizar mudanças nos preços relativos. Mas é isso que a tecnologia e a globalização em certa medida empurram as economias a fazer. Os mercados de trabalho podem estar e provavelmente estão desequilibrados, pois a composição do trabalho exige mudanças mais rápidas do que as reações muito lentas da oferta em áreas como educação e capacitação.

Isso não vai durar para sempre, mas poderá demorar um pouco. A combinação de crescimento menor que o anterior e emprego estagnado provavelmente produzirão um reequilíbrio lento o suficiente para deixar sérios problemas residuais em áreas como o extenso desemprego jovem. Isto exige um grande esforço coordenado de políticas diversificadas para manter os jovens vulneráveis no mercado e em um processo em que as técnicas não se atrofiem.

E mesmo quando (ou se) os ajustes do mercado alcancem as forças que causam mudança estrutural na demanda por vários tipos de emprego, é provável que o aumento do retorno à educação, visto como investimento em capital humano, seja permanente. E não parece haver uma perspectiva imediata de inversão da tendência descendente de três décadas na renda do trabalho como fração da renda nacional. Ela poderá se achatar. Ninguém sabe com certeza. Esse é um território não mapeado, pelo menos na era moderna pós-guerra. Mas o restabelecimento do crescimento não solucionará necessariamente os desafios na área de distribuição, inclusão e coesão social.

Duas questões projetam uma sombra sobre a imagem maior de um retorno ao crescimento global mais equilibrado.

MÁ GOVERNANÇA AMEAÇA CRESCER. Uma delas é o impasse frustrante em muitos sistemas políticos e um padrão crescente de polarização que pode levar à inação política ou a grandes erros e prejuízos. O comportamento imprevidente está se tornando demasiado comum: na melhor das hipóteses, ele cria um risco desnecessário, e na pior um grande dano colateral. É uma fonte de frustração e incredulidade para os políticos responsáveis, os criadores de políticas e os cidadãos igualmente, em todo lugar. E suas origens continuam obscuras.

Mas para a economia global e suas várias partes é um vento contrário e um fator de risco.

A SOMBRA DO CLIMA. A segunda sombra é a sustentabilidade em longo prazo. O crescente exército de defensores da reinvenção dos padrões de crescimento e mudança de valores de modo a tornar a perspectiva de crescimento maciço da economia global coerente com a base de recursos naturais que temos, está ganhando terreno em quase todo lugar, com a pequena ajuda de uma Mãe Natureza irritada e às vezes violenta. Essa é uma boa notícia. O processo incrivelmente complexo, descentralizado, de baixo para cima que sustenta esse progresso não é o modelo de ação coletiva convencional. Mas parece estar funcionando e estar melhor adaptado às realidades do desafio nesta etapa. Podemos razoavelmente esperar que o progresso se acelere conforme os atuais desafios ao crescimento são superados e nossa necessária preocupação com eles diminui.